
Título: Deck do Banhado 2050
Técnica: fotografia do banhado realizada por IA
Ano: 2026
A cultura viva não nasce nas instituições. Ela emerge dos encontros, dos grupos, dos coletivos e das iniciativas independentes.
Por isso, esses movimentos não são uma alternativa, mas a condição que antecede e alimenta as próprias instituições culturais privadas e públicas. Talvez seja hora de as instituições culturais compreenderem essa dinâmica de maneira mais horizontal.
A cultura não é um campo de disputa; é um ecossistema. Sua potência está justamente na diversidade, na interdependência e na capacidade de fazer florescer múltiplas formas de existência.
Priorizar dinâmicas econômicas, de imagem ou de gestão acima do pensamento crítico para responder a demandas e normas públicas e políticas é uma condição danosa para toda malha cultural e seu desenvolvimento. Essas dinâmicas são sistêmicas, mas não devem ser prioridade.
Uma relação de responsabilidade compartilhada por todos os agentes culturais é possível e muito mais inovadora, inclusiva e diversa, trazendo uma verdadeira vitalidade expandida por todo o território.
A crítica e as denúncias são necessárias e não são o problema do sistema, e sim quando se tem somente uma narrativa estabelecida, reforçando um imaginário que vai se consolidando sem questionamentos.
A arte atua nesse campo de expandir o imaginário e os campos simbólicos da realidade possibilitando explorar novos modelos ecológicos, sociais e culturais.
O futuro não será construído pela repetição dos imaginários que nos trouxeram até aqui. Ele dependerá da nossa capacidade de imaginar outros modos de existir, outras formas de produzir, outras maneiras de compartilhar o mundo.
A arte que apenas reproduz os códigos dominantes contribui para a manutenção de um sistema restrito; a repetição não é neutra, ela produz consenso, molda desejos, naturaliza injustiças, perpetuando o próprio sistema.
A arte que questiona produz atrito. E toda produção de atrito tem consequências políticas, lança questionamentos, abre possibilidades, novos imaginários e expõe conflitos ocultos.
Nessa lógica, uma política cultural pública voltada para o entretenimento determina o que deve ter visibilidade, o que ser desejado, o que ser esquecido e estabelece mecanismos simbólicos que se ajustam para produzir mais consentimentos do que pensamentos críticos.
A cultura local, os saberes comunitários, as tradições populares e as experiências independentes possuem uma importância que vai muito além do entretenimento. Elas preservam outras formas de imaginar o mundo. Mantêm abertas possibilidades de existência que escapam à lógica da padronização.
A disputa contemporânea se situa sobre a capacidade de narrar o território. Quem conta sua história? Quem define seu valor? Quem determina quais memórias serão preservadas e quais serão apagadas?
Quanto mais homogêneo o imaginário, mais fácil se torna a gestão econômica dos desejos.
Esse sistema que não inclui a diversidade cultural, pois a vê como obstáculo, nem flui de maneira horizontal entre os agentes culturais e artistas numa cidade, favorece que nos percebamos mais pelos indicadores econômicos do que pelas nossas riquezas culturais.
Como se pudéssemos existir somente pelo consumo de bens materiais, em vez de cidadãos, somos consumidores; a identidade coletiva vira nicho de mercado, florestas viram recursos naturais, rios viram ativos, comunidades tornam-se capital humano.
A economia criativa não substitui a arte e não podemos aceitar medir toda a cultura por indicadores de mercado. A economia serve à cultura; o contrário é um grande risco. Podemos perder justamente aquilo que torna a cultura indispensável: imaginar o impossível, preservar a memória, confrontar poderes, revelar o que o mercado não sabe precificar.
Na verdade, a cultura acontece à revelia do mercado, que está sempre tentando capturá-la, e já sabemos dos benefícios e impacto econômico nas comunidades.
A linguagem da eficiência e do progresso tem operado de forma silenciosa naquilo que antes possuía valor cultural, espiritual ou ecológico, que passa a ser percebido principalmente por sua capacidade de gerar lucro.
Vivemos sob uma lógica que transformou o crescimento em dogma. Crescimento econômico, crescimento urbano, crescimento do consumo, crescimento da produtividade. Crescer tornou-se um fim em si mesmo, independentemente dos custos sociais, humanos e ambientais.
Questionar esse princípio é quase uma heresia.
Mas a própria biologia nos oferece outra narrativa.
Toda célula sã conhece seu limite. Ela sabe quando deter-se porque compreende que faz parte de um organismo maior. Seu desenvolvimento está subordinado ao equilíbrio do conjunto.
Quando uma célula perde essa capacidade e passa a perseguir apenas sua própria expansão, ela deixa de cooperar e passa a destruir. Chamamos isso de câncer.
O crescimento ilimitado não é um sinal de saúde. É uma patologia.
Qual pergunta fazer: que tipo de sociedade queremos construir através da cultura, ou quanto a cultura rende?
Queremos mesmo ser iguais a São Paulo, capital, no interior? Podemos aprender com eles e fazer melhor.
São eles que estão mudando para cá em busca do que não existe mais lá, e vamos saturar igual?
Toda vez que uma comunidade recupera a capacidade de contar sua própria história, diminui um pouco a distância entre habitar um território e simplesmente ocupá-lo.
Estamos num momento de decisões de ocupação de áreas importantes que impactarão várias gerações.
Não estamos respondendo as principais perguntas do século XXI mas assistindo a comemoração de índices lucrativos por metros quadrados que estão em larga expansão.
E, para isso, perderemos mais paisagens, teremos mais asfaltos fervendo, ruas cada vez mais estreitas para valorizar o metro quadrado construído, rios poluídos ou subterrâneos, centenas de condomínios e vilas agrupados sem alternativas de ir e vir.
Somos grandes consumidores enganados por este imaginário equivocado de progresso, espremidos numa ponte que só vai de manhã e só volta no final do dia. Que ironia, o significado de ponte é de passagens para fruir, e quis o destino que tivéssemos duas que desafiam este conceito: uma saturada e outra aguardando ser.
Estamos criando um novo mapa geográfico da cidade, em que as linhas viárias serão infinitas e as cores, majoritariamente, amarela e branca. Pouquíssimos verdes e azuis.
Excluiremos o Banhado e sua comunidade centenária porque nos educaram a vê-los como ameaça e desperdício por ser contemplativo. Caso exemplar onde o simbólico arraigado de progresso significa explorar o território indefinidamente com justificativas do século passado.
Não queremos que ocupem o Banhado com empreendimentos imobiliários.
Deixem sua comunidade centenária em paz.
Cumpram as leis de proteção ambiental da várzea e as de serviços públicos para aquela população.
Sabemos que nossa capacidade criativa histórica consegue viabilizar soluções muito mais interessantes e menos predadoras para finalmente sinalizar que o capital mais importante numa cidade é o cidadão e sua história, suas experiências culturais diversas e sua inclusão no imaginário coletivo com seus desejos e sonhos.
Cidades pioneiras têm comprovado o poder das árvores na redução das temperaturas. Outras são cidades-esponjas que vêm solucionando os grandes alagamentos, enchentes. Os exemplos positivos como referências de cidades contemporâneas estão abundantes.
O capital mais valioso de uma cidade do século XXI é a inteligência cultural de sua população.
A capacidade de aprender continuamente, preservar a memória, produzir conhecimento, incluir a diversidade e transformar conflitos em inovação social. A potência criativa de seus cidadãos é necessária para inventar futuros. Uma cidade que investe apenas em obras físicas constrói espaços, e aquela que investe em cultura constrói significados coletivos.
Se nossa história estivesse presente como orgulho em nossa cidade, não teríamos desviado o percurso pioneiro que já vivemos na ciência e tecnologia, na arquitetura, nas artes, na educação; optamos por dissociar a unidade que existia e separamos o humano das “exatas”. Precisamos reconectar.