Escrevo aqui da exposição Fina Estampa que acontece no Vicentina Aranha até 30 de maio. Hoje é meu plantão, abro as 13h e fecho às 19h, no Salão Verde. Apresentamos quatro artistas que trabalham a estampa — xilogravura, serigrafia, carimbo e matriz perdida.
A estampa traz tantas possibilidades gráficas e relações com objetos e vestuário do nosso cotidiano que muitos visitantes rapidamente associam os trabalhos expostos com algo conhecido. Percebo nesses diálogos que demonstram entusiasmo ao relacionar o que estão apreciando com algo da sua própria história. É fascinante confirmar que a arte abre canais de percepção estética individuais.
A mesa com vários tipos de matrizes para imprimir chama atenção pois revela as possibilidades deste processo infinito de reprodução de imagens. A pedra calcária da litogravura tem uma presença quase ancestral ao lado das outras matrizes. Nos primórdios, xilo e os tipos gráficos se juntaram criando textos e imagens.

A prensa de tipos móveis de Johannes Gutenberg (século 15) possibilitou a reprodução em série de textos, imagens, cartazes, desenhos de pesquisas botânicas que passaram a circular e a conexão de conhecimentos deu um grande salto na evolução humana. Através da tecnologia de estampar nasce a cultura de massa.
Inúmeras outras tecnologias permitiram saltos na nossa evolução e marcaram nossa história e cultura — pedra lascada, fogo, a roda etc. A arte sempre se apropria de novos recursos, afinal, os artistas são constantes pesquisadores ávidos por experimentar e realizar conexões criativas.
Um exemplo bastante curioso de tecnologia que transitou entre ciência e arte foi a câmara escura. Mencionada na China do século 5 a.C., passa pela Grécia clássica, é usada pelos ingleses para observação segura do eclipse solar, chega no século 17 para aplicação em microscópios.
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Os modelos portáteis foram usados no renascimento por pintores como Johannes Vermeer. No filme “Moça com brinco de pérolas” podemos acompanhar o pintor em seu ofício. Dispositivo óptico que consistia em uma caixa fechada ou um quarto fechado com apenas um orifício para deixar passar a luz externa para o espaço escuro resultando na projeção de uma cena externa invertida. Mais tarde este orifício será substituído por lentes e surgirá a fotografia, depois o cinema.
Hoje quando pensamos em tecnologia o primeiro que vem a nossa mente são os celulares, parentes das ancestrais câmaras escuras. Veemer e tantos outros pintores do renascimento estavam interessados em pintar realisticamente e se utilizaram do dispositivo câmara escura com lentes e espelhos adaptados.
Lentes côncavas até aparecem em algumas pinturas deste período. Procedimento amplamente debatido a partir da investigação do pintor inglês David Hockney que escreveu “O Conhecimento Secreto – Redescobrindo as Técnicas Perdidas dos Grandes Mestres”, lançado em 2001. Segundo ele, os pintores conheciam esses instrumentos desde o século XV, pouco divulgado pois aqueles que pintassem mais realisticamente reis, rainhas e a corte teriam mais benefícios.
David Hockney em 2008 começou explorar desenhos e pinturas em seu ipad, o dedo era seu pincel. Atualmente com 88 anos de idade o artista expõe uma pintura de 90 metros lineares resultado de mais de 100 pinturas feitas em seu ipad.
A prensa de Gutenberg socializou o conhecimento antes restrito aos padres que copiavam a mão os textos mantendo o poder de salvaguardá-los, portanto, quem tinha o conhecimento tinha o poder. Os celulares nos deram comunicação, informação, imagens, capacidade de manipular, fotografar, criar vídeos, contar histórias na palma da mão.
Os acessos a informações e imagens são infinitos, porém, capturados por um sistema que guia nossos desejos nos aprisionando ao consumo de experiencias repetitivas ao deslizar dos dedos. Novamente o conhecimento disputa poder, vivemos mais um salto na história humana causado pela tecnologia.
“Esse celular que usamos todos os dias um dia foi montanha. Qual montanha? Não sabemos, o processo não nos deixa saber. É diferente de quando você vai comprar um café e sabe de qual região ele veio. O celular veio de terras raras, talvez lá da Índia, o minério de ferro veio de Minas Gerais, e aquilo que um dia foi montanha hoje é um buraco no meio da paisagem.”
Motivados por essas discussões do historiador ambiental Jason W. More, dois artistas de países diferentes, Brasil e Estados Unidos, ultrapassam distâncias geográficas e culturais através de suas afinidades criativas com processos artísticos híbridos. O coletivo Cesar & Lois instala em São José dos Campos A Floresta é o Mundo. Obra desenvolvida pelo projeto ARCO na mata do CAEB (Centro Ambiental e Artístico-Cultural Edoardo Bonetti). Para visitar, acompanhe a agenda no Instagram @caebsjc.
Cesar & Lois investigam intrigantes sistemas da natureza, interagem com esses organismos vivos e criam engenhocas que nossos códigos humanos limitados necessitam para perceber as barreiras que criamos com nosso ecossistema. Obra provocativa que desafia nossa curiosidade e repertório ao nos revelar a inteligência e sensibilidade das plantas que interagem o tempo todo com o nosso ambiente e entre elas.

A Floresta é o Mundo pousa na natureza de maneira singela com suas evidências tecnológicas deslocando nossa percepção para o inusitado. Um intrigante toque entre energias antagônicas que se complementam — natureza, tecnologia e arte.
A história da tecnologia acompanha os marcos históricos humanos. Nossa cidade é um grande exemplo disso. Um território marcado por ondas de migrantes vindos de todas as regiões do Brasil desenvolveu centros de pesquisas tecnológicos de grande relevância nacional e internacional. Ganhamos o apelido de “cidade tecnológica”.
Mais de Pitiu Bomfin:
A tecnologia tem como objetivo transformar o ambiente ao redor e melhorar a qualidade de vida sendo a “arte de transformar” ou o “saber fazer” para atender necessidades humanas e produzir bens e serviços.
A intersecção entre tecnologia, arte e cultura é deficiente em nossa cidade seja na pesquisa e produção de obras, no incentivo de conexões com estruturas tecnológicas existentes como na sua inserção no cotidiano da cidade. Um desperdício criativo pleno de potencial que começa a mudar com A Floresta é o Mundo.