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    A ‘cidade tecnológica’ merece conexões mais intensas entre arte, cultura e tecnologia

    A Floresta é o Mundo, instalação imersiva do coletivo César & Lois em São José dos Campos, mostra por que essas três áreas podem (e devem) andar juntas com maior frequência
    26 de maio de 2026Updated:26 de maio de 2026Nenhum comentário6 Minutos de Leitura
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    Escrevo aqui da exposição Fina Estampa que acontece no Vicentina Aranha até 30 de maio. Hoje é meu plantão, abro as 13h e fecho às 19h, no Salão Verde. Apresentamos quatro artistas que trabalham a estampa — xilogravura, serigrafia, carimbo e matriz perdida.

    A estampa traz tantas possibilidades gráficas e relações com objetos e vestuário do nosso cotidiano que muitos visitantes rapidamente associam os trabalhos expostos com algo conhecido. Percebo nesses diálogos que demonstram entusiasmo ao relacionar o que estão apreciando com algo da sua própria história. É fascinante confirmar que a arte abre canais de percepção estética individuais.

    A mesa com vários tipos de matrizes para imprimir chama atenção pois revela as possibilidades deste processo infinito de reprodução de imagens. A pedra calcária da litogravura tem uma presença quase ancestral ao lado das outras matrizes. Nos primórdios, xilo e os tipos gráficos se juntaram criando textos e imagens.

    Abertura da exposição Fina Estampa (Créditos: Paullo Amarall/@amarallpaullo)

    A prensa de tipos móveis de Johannes Gutenberg (século 15) possibilitou a reprodução em série de textos, imagens, cartazes, desenhos de pesquisas botânicas que passaram a circular e a conexão de conhecimentos deu um grande salto na evolução humana. Através da tecnologia de estampar nasce a cultura de massa.

    Inúmeras outras tecnologias permitiram saltos na nossa evolução e marcaram nossa história e cultura — pedra lascada, fogo, a roda etc. A arte sempre se apropria de novos recursos, afinal, os artistas são constantes pesquisadores ávidos por experimentar e realizar conexões criativas.

    Um exemplo bastante curioso de tecnologia que transitou entre ciência e arte foi a câmara escura. Mencionada na China do século 5 a.C., passa pela Grécia clássica, é usada pelos ingleses para observação segura do eclipse solar, chega no século 17 para aplicação em microscópios.

    Veja também: Do açaí com castanhas ao macarrão chinês: um guia do que provar no festival Mais Gastronomia, em SJC

    Os modelos portáteis foram usados no renascimento por pintores como Johannes Vermeer. No filme “Moça com brinco de pérolas” podemos acompanhar o pintor em seu ofício. Dispositivo óptico que consistia em uma caixa fechada ou um quarto fechado com apenas um orifício para deixar passar a luz externa para o espaço escuro resultando na projeção de uma cena externa invertida. Mais tarde este orifício será substituído por lentes e surgirá a fotografia, depois o cinema.

    Hoje quando pensamos em tecnologia o primeiro que vem a nossa mente são os celulares, parentes das ancestrais câmaras escuras. Veemer e tantos outros pintores do renascimento estavam interessados em pintar realisticamente e se utilizaram do dispositivo câmara escura com lentes e espelhos adaptados.

    Lentes côncavas até aparecem em algumas pinturas deste período. Procedimento amplamente debatido a partir da investigação do pintor inglês David Hockney que escreveu “O Conhecimento Secreto – Redescobrindo as Técnicas Perdidas dos Grandes Mestres”, lançado em 2001. Segundo ele, os pintores conheciam esses instrumentos desde o século XV, pouco divulgado pois aqueles que pintassem mais realisticamente reis, rainhas e a corte teriam mais benefícios.

    David Hockney em 2008 começou explorar desenhos e pinturas em seu ipad, o dedo era seu pincel. Atualmente com 88 anos de idade o artista expõe uma pintura de 90 metros lineares resultado de mais de 100 pinturas feitas em seu ipad.

    A prensa de Gutenberg socializou o conhecimento antes restrito aos padres que copiavam a mão os textos mantendo o poder de salvaguardá-los, portanto, quem tinha o conhecimento tinha o poder. Os celulares nos deram comunicação, informação, imagens, capacidade de manipular, fotografar, criar vídeos, contar histórias na palma da mão.

    Os acessos a informações e imagens são infinitos, porém, capturados por um sistema que guia nossos desejos nos aprisionando ao consumo de experiencias repetitivas ao deslizar dos dedos. Novamente o conhecimento disputa poder, vivemos mais um salto na história humana causado pela tecnologia.

    “Esse celular que usamos todos os dias um dia foi montanha. Qual montanha? Não sabemos, o processo não nos deixa saber. É diferente de quando você vai comprar um café e sabe de qual região ele veio. O celular veio de terras raras, talvez lá da Índia, o minério de ferro veio de Minas Gerais, e aquilo que um dia foi montanha hoje é um buraco no meio da paisagem.”

    Motivados por essas discussões do historiador ambiental Jason W. More, dois artistas de países diferentes, Brasil e Estados Unidos, ultrapassam distâncias geográficas e culturais através de suas afinidades criativas com processos artísticos híbridos. O coletivo Cesar & Lois instala em São José dos Campos A Floresta é o Mundo. Obra desenvolvida pelo projeto ARCO na mata do CAEB (Centro Ambiental e Artístico-Cultural Edoardo Bonetti). Para visitar, acompanhe a agenda no Instagram @caebsjc.

    Cesar & Lois investigam intrigantes sistemas da natureza, interagem com esses organismos vivos e criam engenhocas que nossos códigos humanos limitados necessitam para perceber as barreiras que criamos com nosso ecossistema. Obra provocativa que desafia nossa curiosidade e repertório ao nos revelar a inteligência e sensibilidade das plantas que interagem o tempo todo com o nosso ambiente e entre elas.

    A Floresta é o Mundo, no CAEB (Créditos: Paullo Amarall /@amarallpaullo)

    A Floresta é o Mundo pousa na natureza de maneira singela com suas evidências tecnológicas deslocando nossa percepção para o inusitado. Um intrigante toque entre energias antagônicas que se complementam — natureza, tecnologia e arte.

    A história da tecnologia acompanha os marcos históricos humanos. Nossa cidade é um grande exemplo disso. Um território marcado por ondas de migrantes vindos de todas as regiões do Brasil desenvolveu centros de pesquisas tecnológicos de grande relevância nacional e internacional. Ganhamos o apelido de “cidade tecnológica”.

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    A tecnologia tem como objetivo transformar o ambiente ao redor e melhorar a qualidade de vida sendo a “arte de transformar” ou o “saber fazer” para atender necessidades humanas e produzir bens e serviços.

    A intersecção entre tecnologia, arte e cultura é deficiente em nossa cidade seja na pesquisa e produção de obras, no incentivo de conexões com estruturas tecnológicas existentes como na sua inserção no cotidiano da cidade. Um desperdício criativo pleno de potencial que começa a mudar com A Floresta é o Mundo.

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    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Pitiu Bomfin

    Pitiu Bomfin

    Artista plástica, curadora e educadora. Formada em Desenho Industrial pela FAAP / SP com pós graduação em Artes Plásticas pela ECA/USP e estudos em Arquitetura.
    Realiza trabalhos de curadoria além de cenografias e figurinos para grupos de teatro.
    Sua pesquisa artística envolve a fotografia, a pintura e processos gráficos muitas vezes utilizando referencias icônicas da historia da arte.
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