O pavão e a galinha d’angola saíram pra passear.
Esse passeio, apesar de parecer inocente, tem uma variedade de consequências.
Benefícios dessa convivência trouxeram a superação de certos traumas antigos.
A galinha d’angola, de fácil convivência com outras aves, é um animal de manejo tranquilo, seus filhotes costumam ser agressivos e por isso ficam separados dos adultos.
O atrito de gerações ocorre logo cedo.
Mas mistérios sempre andam por aí e numa oportunidade literária aconteceu um desafio de experiências que somente o apreço por livros provoca.

Compartilhamentos e descobertas de similaridades surpreenderam pavões e galinhas d’angola, afinal todos são bípedes, tem penas, são pássaros, voam e botam ovos. O pavão com sua beleza estonteante, abrindo sua imensa asa, se exibindo, porém, mudo. O “tô fraco, tô fraco”, apesar do sentido pejorativo e restrito, parece um enigma – uma ave que fala duas palavras, tem uma certa beleza também.
Entre a beleza e a expressão oral, nós humanos, ficamos com as duas.
Hibridade é a mistura de características diferentes em um único organismo ou objeto. Exemplos não faltam na biologia com a reprodução de espécies distintas, na cultura onde manifestações tradicionais se misturam e no nosso sistema de trabalho presencial e online.
Em relação à cultura, o hibridismo é um desafio à criatividade e à inovação ressaltando aqui a dificuldade de preservar as tradições em ambientes tão fragmentados como os atuais.
Sobre as espécies animais, algumas características genéticas mais vantajosas favoreceram nossos antepassados, animais híbridos, mais fortes e resistentes ao trabalho, porém não se reproduziam.
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O tempo dos kungas
Os kungas, os primeiros animais híbridos, existiram há 4.500 anos. Semelhantes aos cavalos, seus esqueletos foram descobertos na Síria no ano 2000.
Essa mistura de burros e jumentos resultou num animal mais robusto, rápido e menos selvagem. Kungas não geravam kungas, duravam somente uma geração.
Essa questão da não continuidade geracional é fatal em todos os âmbitos pois impede a construção e manutenção da tradição e interrompe aprendizados, cada ninhada precisa recomeçar o que a anterior construiu e conquistou. Sem memória genética nem afetiva, ficam condenados a repetir erros históricos e sua evolução é zero.
Resumindo: nascem para serem servos num sistema limitado.
As crias hibridas têm elevado instinto de sobrevivência e se submetem rápido ao seu oficio de obediência, são facilmente dominados.
Entre nós, a mula é híbrida do asno com a égua. Cavalo e jumenta geram o bardoto, zebra e cavalo geram o zebralo e até o golfinho com a baleia geram o wholphin. A verdade é que estamos cercados de cruzamentos híbridos.
O que dizer desse cão hibrido de sucesso, um vira-lata caramelo ousado que invade territórios, conquista corações e está até no TikTok com milhões de likes?
As galinhas d’angola se expressam com a única frase que repetirão por toda sua vida, “tô fraca, tô fraca”. Não chega ser uma frase como os papagaios, periquitos, calopsitas, araras e gralhas que tem estruturas vocais e conseguem emitir frases complexas imitando os humanos. Provavelmente fazem isso em qualquer idioma. Pensemos um papagaio no Japão, na Noruega ou na Inglaterra com aquele sotaque típico.
E como seria o “tô fraco, tô fraco” de uma galinha d’angola na África, seu país de origem?
Curioso que pavões e galinhas d’angola conseguem gerar filhotes. Chamados de pangola, não nascem com as penas maravilhosas e nem cantam tô fraca tô fraca.
Perdem as características mais essenciais de seus genitores e são filhotes mais dóceis.
Restando-lhes os espíritos de cada um, de um lado orgulho e vaidade e do outro cuidado e prosperidade, distribuídos em porcentagens variadas mais igualitárias.
Sem o instinto de fidelidade dos cisnes, pavões e galinhas d’angola literalmente soltaram a franga e nesse passeio inesperado disseminaram pangolas por inúmeras praças, parques, pátios escolares, UPAS, espaços culturais, teatros, museus etc.
Eram lugares com certas características livreiras e que tem palcos devido ao DNA exibicionista do pavão e ao de conexão das galinhas d’angola interessadas em aprender mais palavras e idiomas.
Geração de pangolas
Como sabemos, o meio que estamos inseridos influencia nossas interações sociais, culturais e históricas necessárias para nosso desenvolvimento. A chegada dessa geração de pangolas ativou os sistemas de curiosidade e liberdade criativa que esses locais ainda não haviam experimentado.
Focados inicialmente em usufruir desse contato intenso com os enigmáticos pangolas, esses locais, antigas ilhas isoladas umas das outras, desenvolveram rapidamente habilidades interativas entre seus grupos, aumentando o engajamento e vigor coletivos.
Diante da diversidade de elementos culturais, sociais e econômicos que emergiram, eles se depararam com velhas questões em novas plumagens. Aqueles que não se bicavam por questões estéticas e tantas outras repesavam seus comportamentos.
Sem uma explicação lógica, que não fez falta alguma, todos os grupos se reconheceram beneficiários de um novo sistema hibrido e de processo aberto, colaborativo de culturas diversas que demanda reflexão, conhecimento e elaboração.
Assim a porta de entrada para um sistema cultural local que agrega valores, promove diálogos, conhecimento, reconhece a diversidade e é inclusivo se abriu.
Pangolas continuaram nascendo convivendo com as formigas, capivaras, ratões do Banhado, jaguatiricas, lobos guará, veados, tucanos, antas, jacús etc. Uma imensa janela de evidentes oportunidades criativas.
É provável que algo de improvável possa acontecer?
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