Desde o começo dos tempos o homem curtiu contar histórias. O que hoje chamamos de “romance” surgiu em algum momento entre 323 e 31 a.C. Existem poucas e fragmentadas obras e de outras só os títulos (em papiros ou textos medievais). Sugerem amores, viagens, separações.
A Ilíada (primeira obra literária do mundo ocidental) e a Odisseia foram compiladas por Homero, cuja identidade ainda não é comprovada, no século VIII a.C.

O Satyricon é atribuído a Caius Petrônius (27/66 d.C.) e faz uma crônica da vida na corte de César. O filme (1969), dirigido por Federico Fellini, é um clássico imperdível.
Ninguém sabe como as antigas ficções foram criadas, quem as lia e a quem se dirigiam. Com o desaparecimento do mundo antigo, surgiram outros gêneros literários.
“Romance” designava obras escritas na língua falada (o romanz) não em latim, a partir do século XII. “Novela” (uma pequena história do novo tipo) passou a ser usada no século XVII, com Decameron de Boccaccio.
E a contação de histórias passou por muitas modificações até a modernidade. O filósofo coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), radicado em Berlim, em seu livro A Crise da Narração nos dá uma dimensão exata de como anda a arte de narrar.
Ele diz que quando a própria vida era uma um narrar não se falava em storytelling (ou em narrativas). Apesar de falarmos tanto em narrativas, vivemos numa época pós-narrativa.
Ele distingue narração e informação; os dados se opõem às narrações, eles ativam o entendimento. Storytelling é coisa do marketing. “Postar, curtir e compartilhar, como práticas consumistas, intensificam a crise narrativa, porque hoje estamos muito bem-informados, mas desorientados”. A informação é breve, não deixa rastros. Vivemos acelerados, tudo ao toque mágico dos dedos.
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A narração pressupõe escuta e uma atenção profunda; pressupõe o olhar longo lento e demorado. Hang cita Walter Benjamin (1892/1940) no ensaio O Narrador: “o tédio é o pássaro de sonho, que choca os ovos da experiência”. Quem escuta atentamente esquece de si mesmo e se afunda naquilo que escuta. Ele diz que a fogueira já foi extinta há muito tempo. Eu acho que ainda há esperança.
Aqui talvez exista a diferença entre escrever um livro e fazer literatura. Sim, qualquer pessoa consegue escrever um livro (a biografia, a experiência de vida, a competência profissional).
A literatura é para quem consegue fazer com que “as palavras, às vezes, coincidam com os seus significados e, depois, deixam de coincidir e voltam a coincidir outra vez”. (Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa (1919/2004).
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