Das fotos que cobriam a parede de meu estúdio, uma em especial, já amarelada pelo tempo, vovó no jardim. Sua companhia me conforta, estranha maneira de manter os ausentes no presente. Um dia foi ela, num outro foi mamãe, hoje sou eu a dona da casa, a mantenedora afetiva, a que cuida para que tudo esteja bem.
Através da janela, vejo a Bá sair, abrindo o portão da casa. Lá vai ela, a aia de minha mãe. É assim todo dia. Uma vez, duas, três. Ela sai para buscar o pão, a carne, o leite. Cabelos brancos e escassos, presos em coque baixo. Vestido amarelo com pequenas florinhas brancas. Meias de um rosa clarinho, sapatos fechados bem presos aos pés. O agasalho turquesa arremata o delicado arco-íris andante.
Pé aqui, pé ali. Devagar, ela vai até a farmácia. Um dois, um dois, um pé puxando o outro. Figura singular minha ama-seca. Meus olhos procuram a foto da avó, serenidade na expressão. Passo as mãos por meus cabelos, quanto faltará para grisalharem? Sinto a pele de meu rosto, agora cheia de cicatrizes. Escorre o tempo e o pensamento cria boas formas de abstraimentos.
Quero ver meus netos crescerem, fazer biscoitos, tecer meias de lã e contar histórias, muitas histórias. A Bá chega e se acomoda na poltrona ao meu lado, precisa tomar fôlego. É assim mesmo, a gente nasce, cresce e depois fica cansada. Faltará quanto para eu me sentir cansada?
No andar de cima, motor de máquina de costura. As mãos ágeis de minha mãe, em roupas de estações passadas. Ponto aqui e ali, uma peça nova a caminho. Agitada, mamãe desce, toma um cafezinho bem doce e descansa fazendo o jardim, lavando o quintal, tratando dos passarinhos. Não precisa de energético, mulher como as que se faziam antigamente, machado em punho, a lenha, do terreiro para o fogão. Quanto ânimo, sangue direto da avozinha portuguesa que ordenhava vacas, moqueava as carnes e cuidava dos nove filhos sem enceradeira, sem micro-ondas, sem liquidificador. Os tempos mudam mais depressa do que os genes.
Os saltos dos sapatos de minha filha, na escada, me informam que ela está de saída. Não volte tarde, eu sei mãe, mesmo assim é bom dizer. Lá vai ela. Daqui eu vejo. O portão, o carro, e foi. Agilidade e frescor, aprendendo aos poucos.
A casa em seus sons e movimentos é um organismo vivo, corpo humano feito de humores, grande matriz acolhedora. A Bá, ao alcance de minha vista, fazendo as cruzadinhas de costas para o sol do começo do inverno. A cachorra esparramada na réstia brilhante de luz, a gata soberana aninhada no cesto. Diferentes seres femininos, diferentes gerações, numa convivência harmônica, quase pacífica, quando os úteros não se chocam ululando pelos tetos. Dia futuro e alguém lembrará, a bisneta talvez, esse tempo redondo que vai, que segue e nunca volta.

Acompanhe também: