Muito vamos ouvir falar sobre o fardão verde com ramaria dourada com que Ailton Krenak tomou posse na Academia Brasileira de Letras, no Rio, na sexta-feira (5 de abril) – o primeiro indígena a ter cadeira e voz na tradicional casa de Machado de Assis. Foi eleito com 23 votos e ocupará a cadeira número 5, cujo antecessor foi o historiador José Murilo de Carvalho.
É preciso apreender que sua eleição coroa o reconhecimento do pensamento dos povos originários. O jeito próprio de ver o mundo desses povos visceralmente ligados à natureza, com suas tradições e cosmogonias, ajuda na compreensão e enfrentamento das questões do Antropoceno, esse “novo” período caracterizado pelo impacto do homem sobre a Terra.
“O aquecimento global, as mudanças climáticas, deixaram de ser assunto exclusivo de ambientalistas. Há um novo pensamento filosófico e mesmo literário sendo construído a partir da experiência indígena na Amazônia”, escreveu Enio Vieira na revista Bula, um levantamento precioso sobre essa nova onda filosófica.

Krenak, Munduruku, Kopenawa
Esse movimento de afirmação dessas culturas nativas é detectável com o lançamento de livros, a presença constante desses indígenas em universidades e nas tevês. Não é essa mesma disposição a vista nas candidaturas dos indígenas à ABL? Além de Krenak, Daniel Munduruku, indígena do povo do Vale do Tapajós, também concorreu à vaga na ABL.
Munduruku é formado em Filosofia, passou pela Pós-Graduação em Antropologia da USP, foi professor na Pastoral do Menor, em São Paulo. Trabalha, entretanto, em outra frente de conscientização, pregando tolerância; é autor de mais de 60 livros infanto-juvenis sobre o papel da cultura indígena na formação da sociedade.
Um “trio filosófico” se completa com Davi Kopenawa, pensador e xamã yanomami, cujas ideias ganham o mundo, principalmente as expressas no livro A Queda do Céu, escrito a quatro mãos com o antropólogo francês Bruce Albert. É um livro de peso etnográfico, mas também com abordagem questionando os conceitos de progresso e desenvolvimento. O título indica uma mensagem apocalíptica: os brancos destroem as florestas, que perdem seus “protetores” naturais, e tudo desaba.
Krenak do Rio Wátu
Para segurar a vistosa cabeleira durante sua posse na ABL, o escritor, filósofo e líder indígena Krenak não deixou de lado a larga bandana. Que motivos gráficos são aqueles? A pulseira de miçangas coloridas, a escorrer da manga do fardão, foi registrada por fotógrafos mais atentos.
Krenak, entretanto, veste os adornos naturalmente, com ou sem gala, para mostrar que ainda pertence à tribo dos Krenak: nasceu na pequena Itabirinha (MG), em território do povo Krenak, aquele cravado às margens do rio Watú (o Rio Doce), motivo de tantas alegrias de criança da floresta e, mais recentemente, de extrema desolação, integrado aos homens da lama.
O rompimento da barragem da mineradora Samarco em Mariana, em novembro de 2015, poluiu o Rio Doce e prejudicou o acesso do povo Krenak à água.
Pintado com tinta de jenipapo
O Krenak de hoje guarda muito do jovem impetuoso que subiu à tribuna do Congresso Nacional em 4 de setembro de 1987, vestindo terno claro e gravata. Falava aos constituintes ao mesmo tempo em que tingia o rosto com tinta preta de jenipapo, em defesa arrebatadora das causas indígenas. Os índios foram “reconhecidos” um ano depois na chamada “Constituição Cidadã”. Foi um sonho momentâneo. É preciso ainda falar e falar; é preciso escrever.
Nos últimos tempos, performer mais sereno, irônico e alegre, Krenak está presente em toda mídia. Conversa tanto com Pedro Bial como Emicida, enfrenta o Roda Viva, é entrevistado por comunidades alternativas, com abordagens que fazem os olhos dos ouvintes brilhar. Por trás de tudo uma ideia contextual: “A mentira e a manipulação colocam a vida das pessoas íntegras em risco”.
Nunca se esqueçam que Krenak é um cativante contador de histórias e não conseguirá ficar preso às letrinhas.
Espaço para 170 línguas
Ao ser entrevistado no dia da posse, Krenak alinhavou os objetivos dessa empreitada em território (eminentemente) de brancos: é preciso que a ABL inclua em seu dia a dia, além do português, o falar de outras 170 línguas de povos originários.
Defende o uso de plataformas (e elas, segundo ele, já existem) com imagens, textos filmes e documentos sobre todas as línguas nativas. “O Museu do Índio tem um acervo muito antigo de registros de narrativas, algumas delas só na língua materna. Vamos traduzi-las, com uma tradução simultânea, e as pessoas vão poder ouvir. Podemos fazer isso junto com todas as etnias que estão envolvidas no resgaste linguístico”, disse Krenak.
Apesar de sua vocação oral, Krenak escreve livros e isso certamente pesou na sua votação à Academia (apesar de esse já não ser um critério rígido da entidade!). Já escreveu, entre outros, Ideias para Adiar o fim do mundo (2019), A vida não é útil (2020), O amanhã não está à venda (2020), livros frutos de reflexões em tempos de Covid, como podemos ver pelas datas de publicação.
A vida não é útil provocou muita polêmica ao tratar das tendências destrutivas da chamada “civilização”. Ele teve de se explicar: é contra a “vida utilitária”, de uma economia que não pode parar, ou da máquina capitalista que não dá espaço para a contemplação, por exemplo.
O amanhã não está à venda reúne entrevistas de Krenak, onde traça paralelos entre o confinamento vivido pelos povos indígenas, na luta pela sobrevivência diária, e a imposição do confinamento da Covid-19, em cenas urbanas igualmente devastadoras.
Para Krenak, o homem branco tem insistido na extração desenfreada dos recursos naturais (usa a metáfora “comer a Terra” signficando a voracidade do garimpo). Fome também da acumulação monetária (“comer dinheiro”) e do consumo desenfreado.
Uma outra boa leitura: Food Design: a cadeia de alimentos como prato principal
Em Lugares de origem, coautoria com Yussef Campos, fez uma reflexão sobre a vida do planeta. “A obra é uma forma de enfrentamento à monocultura simbólica que as culturas hegemônicas tentam impor ao ser humano e à natureza”.
Um dos maiores pensadores da atualidade, o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro tem mantido diálogo profícuo com Krenak, com ideias de “perspectivismo ameríndio”, ou seja, a Antropologia incorporando de maneira ampla a sapiência dos homens da floresta.
Vale a pena conferir uma das “Conversas na Rede” (o título do podcast é literal), quando Krenak bateu-papo-cabeça com Viveiros de Castro. O antropólogo fez uma abordagem poética da cultura indígena ao comparar uma maraca com um acelerador de partículas (têm até desenho semelhante). O acelerador tentando desvendar os segredos da matéria. O chocalho, com suas pedrinhas escondidas, os movimentos da alma.
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