
O tradicional Armazém da Pizza, em São José dos Campos, tem servido um mesmo merlot da Vinícola Pizzato com quatro rótulos diferentes. Esse merlot já é rei desfilando naquelas mesas com impecáveis toalhas xadrez da Vila Guaianazes, colada à Vila Ema. Se um rótulo personalizado já é coisa pra se comemorar, imagine quatro!
Foram criados especialmente para a casa pelo designer joseense (um mineiro de São Pedro dos Ferros!) Magno Silveira, que aprecia vinho com pizza (e não se trata de exigência contratual), mas não dispensa uma harmonização de queijos azuis com vinho do porto.
Magno tem no portfólio o desenvolvimento de marcas e embalagens para dezenas de empresas da cidade e região, além de ser o maior conhecedor dos ilustradores da obra do escritor Monteiro Lobato. Agora, debruçou-se nos rótulos.
A ideia do Armazém foi ampliar a atmosfera de hospitalidade, com desenhos bem-humorados que, de várias maneiras, aproximam os clientes do Armazém da rotina dos funcionários da casa e do clima generoso do mundo do vinho.
São ilustrações leves e criativas que enaltecem e brincam com as tarefas levadas em uma pizzaria. Marcos Gavião e Heitor Serra, os proprietários do Armazém, queriam que o vinho unisse todos os traços afetivos da premiada casa, nascida em 1999. Reforçaram então uma boa parceria com a vinícola Pizzato, da Serra Gaúcha.
Já tinham certificada a tradição italiana da “massa aberta à mão, do forno sempre aceso, da mesa compartilhada”. Precisavam integrar a bebida ao conceito geral do estabelecimento, depois do casamento sacramentado com os bons vinhos ao longo de décadas (quem se lembra da excepcional seleção de sicilianos da casa?).
Após boas conversas com Magno, conseguiram aprovar esse presente e marco da boa convivência: um rótulo especial que funciona como abertura de uma experiência enogastronômica. Magno não se conteve, como já escrevi. Não criou somente um rótulo, como previa o plano inicial; criou quatro desenhos, algo que, pela grandeza, assustou não só os contratantes, mas a própria vinícola. Armazém e a Pizzato compraram a ideia.
É que a cultura dos quadrinhos e das charges estava quicando e não podia ser desperdiçada. Os desenhos têm traços próprios do Magno também ilustrador, inspirados em vários artistas, de Jaguar e Millôr a Steinberg. Eu acrescentaria nessa lista o britânico Ronald Searle, autor do clássico “Winespeak”.
Um dos desenhos, por exemplo, mostra um pedaço de pizza espetada numa garrafa como um saca-rolhas, tendo como pano de fundo elementos que evocam características arquitetônicas do próprio prédio do Armazém. Os rótulos bem impressos têm o sofisticado recorte emulando a fachada rústica.
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Tutancâmon
O rótulo de uma garrafa de vinho sempre serviu, prioritariamente, para identificar a bebida que está ali engarrafada: é um RG daquele vinho. E não é de hoje…
Quando arqueólogos começaram a investigar as ânforas encontradas na tumba do faraó-menino Tutancâmon, depois da descoberta fantástica do inglês Howard Carter, em 1923, no Vale dos Reis (Egito), perceberam “rótulos ancestrais” calcados na argila: o dono da propriedade, localização, safra e até o nome do vinhateiro a serviço do faraó. Tudo naturalmente “hieroglifado”… Era o primeiríssimo “rótulo”, da XVIII dinastia, usado numa nação muito mais afeita à cerveja.
Pois a evolução dos rótulos ao longo da história do vinho foi constante, com mais ou menos detalhes. As práticas mais recentes, criativas e heterodoxas, foram reunidas no livro “The Art and Design of Contemporary Wine Labels”, da escritora canadense Tanya Scholes. Ela defende o rótulo artístico como homenagem aos vinhos de qualidade.

Hoje sabemos que, dependendo do vinho e das legislações dos países pelos quais trafegam, os rótulos precisam trazer uma longa e variada lista de informações: nome do vinho, uvas trabalhadas pelo enólogo, tamanho da garrafa, safra, teor alcoólico, uso de conservantes, nome do viticultor e seu endereço, engarrafador, Identificação do importador, endereço, nome do importador… e a bula cresce.
E com ela fica fortalecida a ideia de que é possível usar o espaço da garrafa também como galeria, estimulando o apreciador de vinhos antes do primeiro gole, ou antes mesmo da compra, em prateleiras cada vez mais diversas e complicadas.
Chagall, Andy Warhol, Haring…
Até as abordagens mais criativas, coloridas e piadistas das vínícolas contemporâneas (como os três porquinhos em ação da Jim Barry Wine, do Sul da Austrália), houve tempo em que a estampa dos chatêaux predominaram com elegância clássica nos rótulos de estirpe francesa.
Mais tarde, outros requintes: o Château Mouton Rothschild, no Médoc, por exemplo, usa sua garrafa como uma “galeria de vidro” desde 1945. Convida artistas para ilustrarem seus rótulos: Picasso, Salvador Dali, Marc Chagall, Miró, Andy Warhol, Keith Haring já estiveram nesse campo encharcado de vinho e história.
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Na “galeria” do Armazém, estão também um distinto freguês flutuando em clima de amor entre vinho e pizza. E um pizzaiolo fazendo divertido malabarismo com a massa redonda. Um deles abre a massa com uma garrafa de vinho: que simbiose de elementos! Bom-humor presente.
Na Itália, na região Trentino-Adige, a The Amazing Food Wine Company tem uma linha de vinhos batizada de Wine That Loves. Há um rótulo já com o complemento definitivo: “Wine that loves pizza”. Na vibração de uma pegada mais pop.

Já leu essa? Ai que saudades do sagu da minha mãe!