“Um pé lá, outro cá
Não saber se orientar numa cidade não significa muito.
Perder-se nela, porém, como nos perdemos numa floresta,
é coisa que devemos aprender a fazer” (Walter Benjamin)
Ir para São Paulo depois de ter saído há mais de dez anos é uma aventura na selva. Durante o trajeto, houve muito tempo para pensar e busquei na memória um livro, do antropólogo italiano Massimo Canevacci, A Cidade Polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. Havia lido uma resenha e sabia que o lançamento seria na Livraria Cultura, da Av. Paulista. Como estaria fora da cidade, no dia, liguei para livraria e perguntei ao gentil Pedro Herz, se ele poderia separar um exemplar, eu iria buscar dois dias depois. Não só o fez, com toda a elegância, como pediu ao autor um autógrafo em meu nome.
Canevacci diz (entre muitas coisas) que o tecido urbano da cidade pode ser conhecido pela alternância de três ritmos: a imobilidade doméstica, a hipervelocidade noturna e a lentidão do passeio solitário. A cidade é compreendida como um organismo subjetivo, cuja polifonia é a substância na metrópole contemporânea.
Nada mais atual.
Estava indo a um lançamento, numa quinta, que já é a nova sexta-feira, duas horas de estrada. Estaciono o carro (bendito Waze), entro e aguardo o autor e convidados. O livro A Babá de Nova Iorque está lindo, o texto é moderno, escrito em linguagem rápida, normalmente em primeira pessoa, traz contos sobre personagens reais na mente de Leo Chacra. É uma autoficção segundo alguns, entretenimento para muitos, pesquisa para outros.
Nova Iorque, São Paulo, 5ª Avenida, Avenida Paulista, Broadway, Jardins. Lugares, cidades, ruas, que se conversam em metadados.
Trinta anos depois de buscar o livro autografado de Canevacci, pego outro autógrafo de um jovem autor, publicado pela Ofício das Palavras (a menina dos meus olhos, no mais deslavado clichê). Desta vez, na Livraria da Vila da Lorena, SP. Lá dentro, o medo passa, as pessoas são alegres, afetuosas.
Saio preocupada com o trânsito e a segurança até chegar a outro bairro. A faixa vermelha que cobre a marginal. Que bom que não chove.
São ruídos, invisibilidades, fragmentos, ausências. A cidade continua multipolifônica como nunca.
Pelo que me consta, Canevacci ainda está vivo, em Roma. A Cultura entrou e saiu da falência algumas vezes, mas está balangando. Pedro, que era meu gêmeo de dia de nascimento, nos deixou no mês passado. Tudo vem, tudo vai, como uma onda…

