Depois de passar o feriado de Carnaval nas montanhas azuis, fui mandada ao trigésimo quinto círculo do inferno, conduzida pelo bico de um mosquito.
Anotações da beira de cama.
Primeiro dia, acordei com febre. Um martelinho batia nos ossos da cabeça, quebrava sobrancelhas, nariz, queixo, ombros, bacia, joelhos, pés, dedos. Não há osso que segure os óculos. A leitura é impossível.
Segundo dia, quem pode dormir com dor? Dor no abdômen, uma só, cá e lá, espasmo. A cabeça repele dedos e escovas. O esôfago fechado. Pequenas manchas vermelhas nas axilas.

Terceiro dia, febre, cansaço, fraqueza. Vamos ao hospital. Tira sangue, pressão vai para os pés, sudorese intensa. Hidratação. Teste positivo. Setenta mais + pressão baixa = observação para os sinais de alerta. Mais uma noite sem dormir.
Quarto dia, a pele se transforma num abacaxi mal descascado. Tudo coça. Amanhã, garantem, vai melhorar. Tomar muita água. A boca tem o amargo do fígado sofrendo. Batata cozida, azeite e sal.
Quinto dia, hoje é o dia alardeado. Se piorar, volta pro hospital. Se piorar, o fígado entra em falência. Medo. Tenho pavor de ficar doente, pânico, mesmo. Sonhos. Controle zero sobre a minha saúde. Desmarco o #clubedolivrodaofício.
Leia mais de Ofício das Palavras: Quem diria que a IA já está em crise?
Sexto dia, me assusto com a imagem do espelho. Pareço uma lhama zumbi. Olhos vermelhos, pele acinzentada, boca transparente. Pele manchada de surra de urtiga. Volta a febre. Desmarco a live de pré-lançamento de Meu Feminino Está de Prosa, de @dra.irisbuono.
Sétimo dia, acordei sem febre e consegui tomar leite. Uma semana saída mim. Uma semana imersa num esboço de dor e angústia. Consigo sentir o ar da superfície. Deus proteja os cães perdidos, as crianças e as velhinhas que têm medo de morrer de dengue.
Desmarco um final de semana na praia, com amigas. O fígado vai me agradecer no futuro.
Parece que meu corpo começa a se juntar depois de uma semana de desconexão. Cabeça, tronco e membros andam coordenados, pela primeira vez, embora ainda hesitantes. Longe de estar bem. Bem mais longe de estar péssima.
Indicação de Leitura: “Flávia, Cabeça, Troncos e Membros”

Autor: Millôr Fernandes
Editora: L & Pm Pocket
Gênero: Teatro
Ano: 2001