
O SARS-CoV-2, vírus da covid-19, não é o primeiro a causar uma pandemia. No entanto, especialistas afirmam que ele é o mais desafiador que a humanidade já viu em uma, e isso por uma série de fatores.
Em um passado recente, dois outros vírus causaram pandemias ao redor do mundo, mas mesmo sem vacinas, as doenças foram controladas de forma rápida, ao contrário do que se vê desde 2020.
Em 2003, o SARS-CoV-1 (um vírus mais letal, causador da Síndrome Respiratória Aguda por Coronavírus 1) se espalhou por 26 países, em uma pandemia que durou nove meses. Já em 2012, outro coronavírus conhecido como MERS-CoV (responsável pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio) atingiu 27 países ao todo.
Embora sejam da mesma família (Coronaviridae), os três vírus são bastante diferentes. Os coronavírus anteriores causavam doenças muito mais graves, que eram facilmente diagnosticadas e assim permitiam um isolamento mais eficiente dos infectados, ajudando na contenção do vírus. No caso atual, do vírus da covid-19, como muitos dos contaminados ficam assintomáticos, o vírus teve mais vantagens para se disseminar sem ser percebido.
Outra característica importante dos vírus são os receptores que eles usam para infectar as células. O vírus influenza (gripe), por exemplo, reconhece o receptor ácido siálico, que é encontrado em células da mucosa (boca e nariz), traqueia, brônquios, bronquíolos e pulmão. Por isso, ele causa uma infecção exclusivamente respiratória, que em casos graves pode invadir o pulmão e evoluir para uma pneumonia.
Já o SARS-CoV-2 é diferente: ele reconhece o receptor ACE-2, que é uma proteína presente não só nas vias respiratórias, mas também no tecido endotelial que reveste as veias e também nas células do coração, do rim e do fígado. Dessa forma, ele tem potencial para se espalhar para todo o corpo e causar uma infecção generalizada.
“Essa infecção induz uma grande quantidade de anticorpos e citocinas que combatem o vírus. Mas a resposta intensa acaba causando uma inflamação, gerando uma doença inflamatória sistêmica”, afirma o virologista Edison Durigon, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).
Além disso, o coronavírus tem alta capacidade de mutação, assim como o vírus influenza. No caso da gripe, a solução encontrada para combater essa característica é atualizar a vacina com as cepas mais circulantes, trabalho feito anualmente pelo Instituto Butantan seguindo o acompanhamento das variantes realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para o vírus da covid-19, ainda não há uma vacina disponível que seja específica contra as variantes, mas a farmacêutica chinesa Sinovac está trabalhando em uma versão da CoronaVac contra a ômicron, que já se encontra em ensaios clínicos.
Vírus da covid-19: por que vacinados ainda se infectam
Segundo o virologista Edison Durigon, todas as vacinas que conhecemos protegem da manifestação da doença, mas não protegem da infecção – isso vale até mesmo para imunizantes como sarampo ou poliomielite, recebidos na infância.
“Nós temos a falsa impressão de que a vacina protege contra a infecção porque não pegamos essas doenças. Mas se eu entrar em contato com o vírus do sarampo, por exemplo, eu posso ser infectado. A diferença é que, por estar vacinado, o sistema imune reconhece e começa a combater o patógeno rapidamente, antes da doença se desenvolver.”
Como a doença do sarampo pode levar até 14 dias para se instalar, o vírus é eliminado antes mesmo de causar algum sintoma. O mesmo acontece com o vírus da poliomielite, por exemplo. Ele se instala e se multiplica no intestino, em um processo que leva cerca de 10 dias. Portanto, a criança vacinada que for infectada tem tempo de eliminar o vírus antes de desenvolver a doença.
No caso da covid-19, os sintomas começam em até 2 dias, por isso ainda vemos casos sintomáticos da doença em vacinados – mas que dificilmente evoluem para quadros graves.
Vírus da covid-19: vacinados x não vacinados
A infecção generalizada pelo novo coronavírus não acontece em pessoas imunizadas porque os anticorpos não deixam o vírus chegar ao pulmão e ao endotélio.
“A diferença entre vacinados e não vacinados está no tempo de resposta. O coronavírus leva de 3 a 4 dias para alcançar o pulmão. Nesse tempo, o indivíduo vacinado já produziu anticorpos para barrar a infecção, devido à memória imunológica induzida pela vacina”, explica Edison.
Já em não vacinados, o sistema imune leva cerca de 7 a 10 dias para produzir anticorpos, já que não reconhece o vírus de forma imediata. Nesse tempo, o vírus já atingiu o pulmão e pode cair na circulação, aumentando as chances de desenvolver uma doença mais grave.
O cientista ressalta que os imunizantes cumpriram o seu papel em reduzir a mortalidade e os casos críticos.
“Na primeira onda da variante ômicron, a mais recente, 90% dos óbitos foram de pessoas não vacinadas. As vacinas foram muito importantes. Sem elas, nós teríamos hoje três vezes mais mortes do que tivemos”, finalizou.