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    Você está em:Início » Você já conversou sobre Adolescência?
    Ofício das Palavras

    Você já conversou sobre Adolescência?

    28 de março de 2025Updated:28 de março de 2025Nenhum comentário3 Minutos de Leitura
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    Você já conversou sobre Adolescência?
    (Créditos: Pexels)

    O filho quer ir ao show de um desconhecido pelos pais, que não se opõem. A tia pergunta que tipo de música ele faz. “Acho que é trap” [1], responde o jovem.

    A tia pede, coloca alguma música, quero conhecer. Depois de alguma insistência, ele abre o aplicativo.

    Vem a mãe, lá de dentro e diz que a música é horrível, que “isso nem é música”. O filho desliga o aplicativo, coloca o fone de ouvido e vai para o quarto.

    Os meninos se reúnem no quarto de algum deles. Dão risadas, gritam refrãos desconhecidos pelos pais.

    A mãe pergunta se querem pipoca. Eles dizem que “não, estamos vendo um vídeo do Andrew Tate”. A mãe não faz ideia de quem seja a pessoa, mas acha que deve ser “coisa de meninos”.

    São apenas dois exemplos de como estamos distantes dos jovens do mundo pós-digital. De como não conseguimos acertar a fala. Não existe sintonia fina.

    Os adolescentes são por regra difíceis, contrários, fechados e tudo pelo qual já passamos. Sempre houve a necessidade do grupo, o local de pertencimento.

    Na falta de ambientes favoráveis a encontros presenciais (vale lembrar o medo da violência), hoje, eles se encontram no mundo virtual (ninguém acha que estar no próprio quarto possa ser violento).

    Leia mais: Sobre solidão e finitude

    Quanto mais movimentos feministas contra abusos, mais aumenta o número de feminicídios e agressões (todos os dias recebemos os relatórios alarmantes).

    Se o menino não entende o básico do que acontece com a menina (hormônios, tpm), como poderão se encontrar e conversar?

    Se os pais, professores, amigos, não conhecem os códigos que usam entre eles, como poderão saber o que pensam? Você sabe o que é skin [2]? Eu não sabia. O que é incel [3]? Você já ouviu falar de Andrew Tate [4]?

    A série britânica Adolescência está entre as dez mais vistas nos últimos quinze dias, na Netflix, uma febre contagiosa.

    Você deve ter lido ou ouvido sobre a ótima utilização de plano-sequência nos episódios, o primor na escalação dos atores, a direção precisa e o show de interpretação do garoto.

    A proposta da série não é dar respostas, é possibilitar perguntas. A ideia, aqui, não é falar sobre a série. É compartilhar o medo de uma avó que quer entender o que se passa na cabeça dos netos.

    Uma avó que pegou grandes mudanças na sociedade (sutiãs na fogueira, pílulas anticoncepcionais, divórcio no Brasil, casamento gay, aids, covid) e nunca esteve tão incapaz de acelerar a compreensão sobre o mundo cibernético.

    Nosso sistema de prevenção é falho, não existem limites no mundo irreal. Não se engane, a culpa não é dos pais.

    É também dos pais. Da escola. É da sociedade como um todo. O que fazemos com os bullyings? O que fazemos com os casos de violência contra os menores, contra meninas?

    São tantos questionamentos que não me aventuro a nenhuma resposta. Se você também se sente assim, dê um alô!

    Série: Adolescência (Netflix, 4 episódios)

    Direção: Philip Barantini

    Criadores: Stephen Graham (que faz o pai) e Jack Thorne. Elenco: Owen Cooper, Ashley Doherty


    [1] subgênero do rap que combina batidas lentas e pesadas com sintetizadores. As letras costumam abordar temas como drogas, dinheiro, sexo e violência.

    [2]  usado nas redes sociais para falar sobre as características físicas das pessoas.

    [3]  abreviação de celibatários involuntários (involuntary celibates), pessoas que se descrevem como incapazes de ter um relacionamento ou uma vida sexual, embora desejem.

    [4] se autoproclama misógino e divulga a ultramasculinidade.

    adolescencia adolescentes brasil netflix pais serie

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Tati Iaconelli e May Parreira

    Tati Iaconelli e May Parreira

    May Parreira é psicóloga, professora, supervisora e terapeuta há 25 anos. Sua filha, Tati Iaconelli, é formada em propaganda e marketing. Juntas, comandam o Ofício das Palavras, editora e estúdio literário que tem como objetivo lançar novos talentos da língua portuguesa.
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