
O filho quer ir ao show de um desconhecido pelos pais, que não se opõem. A tia pergunta que tipo de música ele faz. “Acho que é trap” [1], responde o jovem.
A tia pede, coloca alguma música, quero conhecer. Depois de alguma insistência, ele abre o aplicativo.
Vem a mãe, lá de dentro e diz que a música é horrível, que “isso nem é música”. O filho desliga o aplicativo, coloca o fone de ouvido e vai para o quarto.
Os meninos se reúnem no quarto de algum deles. Dão risadas, gritam refrãos desconhecidos pelos pais.
A mãe pergunta se querem pipoca. Eles dizem que “não, estamos vendo um vídeo do Andrew Tate”. A mãe não faz ideia de quem seja a pessoa, mas acha que deve ser “coisa de meninos”.
São apenas dois exemplos de como estamos distantes dos jovens do mundo pós-digital. De como não conseguimos acertar a fala. Não existe sintonia fina.
Os adolescentes são por regra difíceis, contrários, fechados e tudo pelo qual já passamos. Sempre houve a necessidade do grupo, o local de pertencimento.
Na falta de ambientes favoráveis a encontros presenciais (vale lembrar o medo da violência), hoje, eles se encontram no mundo virtual (ninguém acha que estar no próprio quarto possa ser violento).
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Quanto mais movimentos feministas contra abusos, mais aumenta o número de feminicídios e agressões (todos os dias recebemos os relatórios alarmantes).
Se o menino não entende o básico do que acontece com a menina (hormônios, tpm), como poderão se encontrar e conversar?
Se os pais, professores, amigos, não conhecem os códigos que usam entre eles, como poderão saber o que pensam? Você sabe o que é skin [2]? Eu não sabia. O que é incel [3]? Você já ouviu falar de Andrew Tate [4]?
A série britânica Adolescência está entre as dez mais vistas nos últimos quinze dias, na Netflix, uma febre contagiosa.
Você deve ter lido ou ouvido sobre a ótima utilização de plano-sequência nos episódios, o primor na escalação dos atores, a direção precisa e o show de interpretação do garoto.
A proposta da série não é dar respostas, é possibilitar perguntas. A ideia, aqui, não é falar sobre a série. É compartilhar o medo de uma avó que quer entender o que se passa na cabeça dos netos.
Uma avó que pegou grandes mudanças na sociedade (sutiãs na fogueira, pílulas anticoncepcionais, divórcio no Brasil, casamento gay, aids, covid) e nunca esteve tão incapaz de acelerar a compreensão sobre o mundo cibernético.
Nosso sistema de prevenção é falho, não existem limites no mundo irreal. Não se engane, a culpa não é dos pais.
É também dos pais. Da escola. É da sociedade como um todo. O que fazemos com os bullyings? O que fazemos com os casos de violência contra os menores, contra meninas?
São tantos questionamentos que não me aventuro a nenhuma resposta. Se você também se sente assim, dê um alô!
Série: Adolescência (Netflix, 4 episódios)
Direção: Philip Barantini
Criadores: Stephen Graham (que faz o pai) e Jack Thorne. Elenco: Owen Cooper, Ashley Doherty
[1] subgênero do rap que combina batidas lentas e pesadas com sintetizadores. As letras costumam abordar temas como drogas, dinheiro, sexo e violência.
[2] usado nas redes sociais para falar sobre as características físicas das pessoas.
[3] abreviação de celibatários involuntários (involuntary celibates), pessoas que se descrevem como incapazes de ter um relacionamento ou uma vida sexual, embora desejem.
[4] se autoproclama misógino e divulga a ultramasculinidade.