
Freddie Mercury completaria oitenta anos neste 5 de setembro e talvez celebrar a data apenas pela extensão vocal, pelos discos monumentais ou pela presença arrebatadora diante das multidões seja pouco para alguém cuja passagem pelo século XX reuniu imigração, sexualidade, preconceito, transformação dos costumes, epidemia de AIDS, cultura de massa e uma extraordinária capacidade de converter a própria diferença em linguagem universal.
Nascido Farrokh Bulsara, em Zanzibar, em 1946, criado durante parte da infância na Índia e levado pela família à Inglaterra na juventude, carregava uma biografia improvável para o centro do rock britânico, então profundamente marcado por códigos masculinos, referências ocidentais e convenções sociais que dificilmente reservavam protagonismo a um jovem parsi vindo de outra geografia, circunstância que torna ainda mais fascinante a construção daquela figura capaz de transformar deslocamento em personalidade e inadequação em potência.
Quando assumiu o nome pelo qual seria conhecido, não realizou simplesmente uma troca de assinatura, criou uma persona que permitia reunir elementos aparentemente incompatíveis, fazendo conviver teatralidade, virilidade, delicadeza, erotismo, humor, ópera, cabaré, hard rock e uma elegância deliberadamente excessiva, enquanto Brian May, Roger Taylor e John Deacon davam ao Queen a arquitetura sonora necessária para que tamanha exuberância jamais se reduzisse à extravagância vazia.
“Bohemian Rhapsody” permanece como o exemplo perfeito dessa ousadia, pois aquilo que parecia comercialmente absurdo em 1975, uma composição longa, fragmentada, sem refrão convencional e atravessada por balada, passagens operísticas e guitarras pesadas, acabou demonstrando que a invenção podia derrotar as fórmulas da indústria quando encontrava inteligência suficiente para transformar risco em acontecimento.
No palco ocorreu algo ainda mais raro, especialmente naquela apresentação do Live Aid em Wembley, em 1985, quando milhares de pessoas deixaram de constituir plateia para se tornarem parte da execução, conduzidas por gestos, palmas, pausas e vocalizações de um intérprete que compreendia o espetáculo como experiência coletiva e parecia capaz de reduzir a distância entre um homem e um estádio inteiro a poucos movimentos de braço.
Por trás daquela exuberância existia, entretanto, uma sociedade muito menos aberta do que a memória nostálgica costuma sugerir, sobretudo para homens cuja afetividade escapava do padrão dominante, e sua trajetória atravessou justamente os anos em que homossexualidade, bissexualidade e outras formas de existência ainda eram cercadas por silêncio, hostilidade e caricatura, até encontrar a epidemia de AIDS, quando enfermidade e intolerância passaram a caminhar juntas numa das páginas mais dolorosas da cultura contemporânea.
Sua morte, em 24 de novembro de 1991, aos 45 anos, apenas um dia depois do anúncio público de que vivia com AIDS, encerrou uma vida curta sem conseguir interromper aquilo que ela havia colocado em movimento, enquanto o concerto realizado no ano seguinte em Wembley transformou o luto em conscientização e a Mercury Phoenix Trust prolongou essa dimensão humanitária no combate ao HIV/AIDS.
Chegar a 2026 olhando para essa trajetória produz uma sensação curiosa, porque quase toda a engrenagem que sustentava a indústria fonográfica de sua época desapareceu ou mudou radicalmente, o disco perdeu centralidade, a televisão deixou de controlar o videoclipe, plataformas passaram a organizar o consumo, algoritmos aprenderam a disputar segundos de atenção e celebridades podem nascer pela manhã e desaparecer antes que uma geração consiga guardar seus nomes.
Mesmo assim, “Somebody to Love”, “Love of My Life”, “Don’t Stop Me Now”, “We Are the Champions”, “Under Pressure” e “Bohemian Rhapsody” continuam circulando entre pessoas que jamais estiveram próximas de 1975, 1985 ou 1991, prova de que certas criações escapam da nostalgia quando conseguem tocar solidão, desejo, medo, amor, abandono, euforia e necessidade de pertencimento sem depender da época que lhes deu origem.
Talvez seja essa a verdadeira dimensão de seus oitenta anos, porque Farrokh nasceu num território colonial, atravessou continentes, chegou como imigrante à Inglaterra, tornou-se protagonista de uma manifestação cultural que aparentemente não havia sido desenhada para alguém com sua origem, desafiou códigos de comportamento sem transformar a própria intimidade em manifesto obrigatório e terminou convertido numa referência para gerações que conquistariam depois espaços de expressão muito maiores do que aqueles disponíveis durante sua juventude.
O homem morreu cedo, a voz permaneceu, as convenções mudaram, os suportes desapareceram, novas tecnologias chegaram e sucessivas juventudes continuaram apertando o play, talvez porque aquilo que realmente sobrevive não seja uma imagem congelada dos anos 1970 ou 1980, mas a sensação profundamente humana de que existir plenamente também significa recusar o tamanho que os outros escolheram para nós.
Aos oitenta, Mercury não precisa ser ressuscitado pela memória, porque nunca chegou verdadeiramente a partir da cultura, e cada geração que o encontra confirma uma espécie de paradoxo reservado aos gigantes: quanto maior a distância de sua época, mais próxima parece sua presença.
Fabrício Correia é escritor, historiador com especialização em Musicoterapia e Vibroacústica. Apresentou o programa “Canções Essenciais” na Cidade AM 1120 e é membro da União Brasileira de Compositores, UBC.