
Recentemente, me peguei ouvindo familiares mais velhos falando sobre teorias que, quando eu tinha 10 anos, discutia com colegas de escola. A gente debatia e, no fundo, tinha medo da possibilidade de aquilo ser real.
Lembro de ouvir na escola colegas falando que a rainha Elizabeth, Obama e outros poderosos pertenciam a uma raça de reptilianos que controlava o mundo. Tinha também a teoria da Terra Oca, segundo a qual dinossauros e outros animais do passado continuariam vivos dentro do planeta. E outras coisas igualmente surreais.
O curioso é que hoje alguns adultos e idosos realmente acreditam nesse tipo de coisa que a minha geração ouvia e, muitas vezes, ria quando criança.
A geração Z viveu uma espécie de infância no início da internet. A gente viu muitas dessas teorias nascerem, se espalharem em fóruns, vídeos e correntes de e-mail e, principalmente, aprendeu a desconfiar delas. O problema é que boa parte desse conteúdo voltou, agora turbinado pelo algoritmo infinito das redes sociais e dos celulares.
Os mesmos adultos que diziam para não acreditarmos em tudo que víamos na internet acabaram, se tornando os mesmos que compartilham que o presidente Lula foi clonado, que qualquer morte de causas que sempre existiram são relacinadas às vacinas ou qualquer outra insanidade digital que apareceu no WhatsApp.
E isso me faz pensar que, da mesma forma que essas pessoas nos diziam para não acreditar que o mundo acabaria em 2012, talvez nosso papel agora, como adultos vivendo nossa própria “vintolescência”, seja alertá-las de que boa parte do que aparece na tela não deve ser tomada como verdade.
Uma pesquisa do instituto Meio/Ideia, divulgada no início de agosto, mostrou que 12,5% do eleitorado, aproximadamente uma em cada oito pessoas, acreditam que Lula foi substituído por um sósia. É um número absurdo. Mas o mais assustador é justamente ele não ser zero.
Durante a pandemia de covid-19, o Brasil também viu crescer a circulação de discursos antivacina. Parte desse conteúdo sobreviveu ao fim da emergência sanitária e continua afetando a confiança nas vacinas e, consequentemente, a saúde pública.
Talvez a geração Z tenha recebido, sem perceber, uma espécie de papel civilizacional: ajudar as gerações anteriores a navegar por uma internet que mudou completamente desde que elas aprenderam a usá-la.
Porque aquilo que para nós pode parecer um meme ou uma história absurda pode, para outra pessoa, se transformar em uma mensagem de vida. A rainha Elizabeth com o rosto todo escamoso pode parecer engraçado no começo. Depois pode virar a vacina da gripe com chip da besta. Daí para uma sociedade alienígena controlando a Terra, é só mais um vídeo recomendado pelo algoritmo.
Jovens que assistiam Você Sabia? e outros canais de teoria da conspiração, uni-vos.
Talvez seja nossa vez de explicar aos nossos pais, tios, tias, avôs e avós que nem tudo que aparece no celular é verdade. Por isso, deixo abaixo links de agências de checagem de fatos que podem ser usadas para sanar dúvidas comuns (ou nem tão comuns assim):