
A 25ª edição do Prêmio Grande Otelo revelou um cinema brasileiro forte, plural e consciente da própria grandeza. Como membro da Academia Brasileira de Cinema, integrante de seu Conselho Deliberativo e participante da votação, acompanhei uma cerimônia que ultrapassou a simples disputa entre títulos. A noite celebrou a diversidade de uma cinematografia capaz de reunir diferentes gerações, regiões, linguagens e formas de compreender o Brasil.
A divisão inédita do prêmio de Melhor Longa-Metragem de Ficção entre Manas, de Marianna Brennand, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, foi uma decisão madura. O resultado não enfraqueceu o prêmio. Ao contrário, reconheceu que duas obras muito distintas poderiam ocupar, com igual legitimidade, o centro daquela celebração.
Manas demonstrou uma força impressionante. Venceu também nas categorias de Direção, Roteiro Original, Montagem e Atriz Coadjuvante, com Dira Paes. O filme de Marianna Brennand nasce de um olhar feminino firme, sensível e profundamente comprometido com as meninas e mulheres da Amazônia. A direção evita excessos, respeita suas personagens e transforma uma realidade brutal em cinema de grande delicadeza.
A vitória de Marianna como melhor diretora possui enorme significado. Não se trata apenas do reconhecimento de um trabalho individual, mas da afirmação de um cinema que abre espaço para novos olhares e compreende que a realidade brasileira não pode ser narrada por uma única voz.
O Agente Secreto é uma produção importante, realizada por um cineasta de projeção internacional e reconhecida em categorias técnicas fundamentais. Porém, a cerimônia mostrou que ele é um filme dentro de uma cinematografia muito maior, diversa e poderosa. Nenhuma obra, nenhum realizador e nenhuma campanha podem representar sozinhos toda a extensão do cinema brasileiro.
Essa talvez tenha sido a grande mensagem do Grande Otelo de 2026: nosso cinema não possui um único centro, um único nome ou uma única estética. Sua riqueza está justamente na multiplicidade.
O maior vencedor em número de troféus foi Homem com H, de Esmir Filho, que conquistou seis prêmios, entre eles o voto popular e Melhor Ator para Jesuíta Barbosa. A cinebiografia de Ney Matogrosso encontrou um equilíbrio raro entre invenção artística, emoção e comunicação com o público.
Jesuíta não procura apenas reproduzir os gestos ou a voz de Ney. Sua interpretação alcança a essência de um artista que fez do próprio corpo uma linguagem de liberdade. O prêmio reconhece uma atuação corajosa, física e emocionalmente complexa.
O voto popular concedido a Homem com H também possui força simbólica. Mostra que o público brasileiro deseja encontrar sua história, seus artistas e suas contradições nas telas. O cinema de qualidade não precisa estar distante da plateia. Pode emocionar, provocar e estabelecer diálogo com diferentes públicos.
Outro momento fundamental da noite foi a vitória de Denise Weinberg como Melhor Atriz por O Último Azul. Uma das fundadoras do Grupo TAPA, Denise carrega uma das trajetórias mais sólidas do teatro brasileiro. Sua formação está ligada ao teatro de repertório, à disciplina do palco e à convivência com grandes textos e personagens.
Em O Último Azul, essa experiência aparece sem ostentação. Denise constrói uma mulher inteira por meio dos silêncios, dos gestos e de uma presença que parece conter muitas vidas. É uma interpretação de enorme precisão, na qual a técnica se transforma em humanidade. Seu prêmio aproxima o cinema brasileiro da melhor tradição de nossos palcos e reconhece uma artista que dedicou a vida ao ofício de interpretar.
Rodrigo Santoro, premiado como Melhor Ator Coadjuvante pelo mesmo filme, apresentou uma atuação contida, generosa e madura. Depois de consolidar uma carreira internacional, Santoro retorna ao cinema brasileiro sem qualquer necessidade de protagonismo absoluto. Coloca sua experiência a serviço da narrativa e de sua parceira de cena. O resultado revela um ator seguro, capaz de compreender que a grande interpretação também nasce da escuta.
O Último Azul, de Gabriel Mascaro, representa esse cinema brasileiro que encontra poesia em temas urgentes. Ao imaginar uma sociedade que pretende afastar os idosos da vida comum, o filme discute envelhecimento, autonomia e liberdade sem abandonar a dimensão humana.
A cerimônia também foi marcada pela condução elegante e soberana de Renata Almeida Magalhães, presidente da Academia Brasileira de Cinema. Em uma noite cercada por expectativas, paixões e inevitáveis tensões, Renata preservou o sentido institucional da premiação e manteve o cinema brasileiro acima das vaidades individuais.
Sua atuação revela equilíbrio, conhecimento do setor e capacidade de diálogo. Renata compreende que presidir a Academia não significa favorecer uma obra ou um grupo, mas criar condições para que toda a diversidade do audiovisual seja reconhecida. Sua elegância diante das circunstâncias confirmou a força de uma liderança que não precisa elevar a voz para afirmar sua autoridade.
O Grande Otelo de 2026 foi um prêmio maduro para um cinema brasileiro em expansão. Uma cerimônia capaz de reconhecer a potência amazônica de Manas, a construção técnica de O Agente Secreto, a comunicação popular de Homem com H e a delicadeza de O Último Azul.
Não existiu um único vencedor porque o cinema brasileiro não cabe em uma única obra.
Venceram as mulheres, o teatro, os novos realizadores, os profissionais técnicos, os artistas consagrados e o público. Venceu uma cinematografia que se recusa a ser reduzida a um nome, a uma estética ou a um filme.
Venceu o cinema brasileiro.
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