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    Crônica

    Supergirl: uma heroína depois do fim

    Em uma aventura que mistura faroeste espacial, luto e amadurecimento, a nova Supergirl encontra sua força justamente nas marcas deixadas pela perda
    Autor: Fabrício Correia28 de junho de 2026Nenhum comentário4 Minutos de Leitura
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    (Créditos: Warnerbros)

    Ao escolher “Supergirl” como segundo movimento de seu novo universo cinematográfico, a DC evita o caminho mais previsível de apenas prolongar o brilho deixado por “Superman” e prefere entrar por uma porta menos confortável, marcada pela perda, pela fuga e por uma espécie de cansaço cósmico que transforma Kara Zor-El em algo bem diferente da imagem limpa e solar que costuma acompanhar os heróis vindos de Krypton.

    Inspirado em “Supergirl: Mulher do Amanhã”, de Tom King e Bilquis Evely, o filme dirigido por Craig Gillespie acerta ao compreender que Kara não pode ser reduzida à condição de prima do Superman, porque sua dor vem de outro lugar, muito menos domesticado pela esperança terrestre. Clark foi criado entre afeto, simplicidade e valores humanos; Kara carrega uma memória mais próxima da destruição, como alguém que não herdou apenas uma tragédia distante, mas atravessou seus escombros e aprendeu a sobreviver com eles.

    A trama acompanha a protagonista em uma jornada pela galáxia ao lado de Krypto, seu cão e confidente, num aniversário que se parece menos com celebração e mais com tentativa de desaparecer de si mesma. A ideia de uma kryptoniana buscando planetas de sol vermelho para beber, brigar e perder temporariamente seus poderes funciona porque dá ao filme uma chave emocional interessante: Kara não quer apenas fugir da responsabilidade de ser heroína, mas encontrar um lugar onde possa existir sem ser imediatamente convocada a salvar alguém.

    Quando a missão de vingança entra em cena, “Supergirl” assume a forma de um faroeste espacial atravessado por luto, raiva e amadurecimento, com bares intergalácticos, mundos hostis, criaturas estranhas e uma galáxia menos limpa do que a fantasia heroica tradicional costuma permitir. O roteiro de Ana Nogueira, americana de ascendência brasileira, não reinventa esse tipo de jornada, mas consegue dar a ela uma honestidade rara, principalmente por não transformar Kara numa anti-heroína fabricada para parecer adulta ou sombria; sua dureza nasce da ferida, não da pose.

    A interpretação de Milly Alcock sustenta o filme justamente por encontrar tristeza onde poderia haver apenas deboche. Sua Kara bebe, provoca, se defende mal e reage antes de pensar, mas há humanidade nesse descontrole, como se cada gesto agressivo escondesse uma dificuldade enorme de aceitar cuidado, vínculo ou pertencimento. O elenco ao redor cumpre bem sua função, embora alguns personagens pareçam existir mais para empurrar a travessia emocional da protagonista do que para ganhar vida própria, algo que se torna mais visível quando o filme precisa abrir espaço para as obrigações de uma franquia em formação.

    Esse é, aliás, o ponto mais frágil da produção. “Supergirl” quer ser uma história fechada sobre trauma, vingança e reencontro, mas também precisa lembrar que há um universo maior sendo montado ao redor, com aparições, sugestões de futuro e peças cuidadosamente colocadas no tabuleiro da DC. Gillespie consegue impedir que essa engrenagem devore o coração do filme, mas não a esconde por completo, e em alguns momentos a aventura parece negociar entre seguir a solidão de Kara e atender ao calendário industrial do estúdio.

    Visualmente, o longa cresce quando abraça sua natureza de road movie espacial, com cenários gastos, figurinos com aparência de uso e uma galáxia que parece ter vivido antes da chegada da câmera. As cenas de ação, porém, oscilam entre boas ideias e o barulho conhecido dos blockbusters atuais, com explosões, corpos arremessados e cortes que nem sempre deixam impacto. Falta, em certos trechos, uma invenção visual capaz de transformar a pancadaria em extensão da dor da personagem.

    Ainda assim, “Supergirl” se sustenta porque entende a diferença essencial entre Kara e Clark. O filme não tenta repetir “Superman” com uma heroína feminina, e sim construir o retrato de alguém que chega à esperança por outro caminho, muito menos luminoso, mais torto e mais ferido. No saldo final, é uma boa estreia para a personagem dentro do novo DCU: irregular, às vezes presa demais à lógica da franquia, mas forte quando confia na imagem de uma sobrevivente que, mesmo cambaleando, ainda consegue reconhecer a dor alheia e escolher agir como heroína.

    “Supergirl” — EUA, 2026
    Direção: Craig Gillespie
    Roteiro: Ana Nogueira
    Elenco: Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham, David Corenswet e Jason Momoa
    Duração: 108 minutos

    supergirl
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