
Toda empresa fala em legado. Poucas param para definir o que essa palavra realmente significa. Legado não é o que fica gravado numa placa, numa ata de reunião ou num relatório de sustentabilidade guardado numa gaveta digital. Legado é o que continua funcionando, gerando valor e cuidando de gente, mesmo depois que quem construiu já não está mais lá para supervisionar.
O Harvard Study of Adult Development, o estudo mais longo já feito sobre desenvolvimento humano, acompanha vidas desde 1938. Quase noventa anos de dados, geração após geração. A conclusão central, resumida pelo atual diretor da pesquisa, Robert Waldinger, é desconcertantemente simples: o que determina uma vida boa, saudável e longa não é patrimônio, cargo ou reconhecimento profissional. É a qualidade dos vínculos cultivados ao longo do caminho.
Os dados mostram algo ainda mais provocador para quem pensa em ESG, a qualidade dos relacionamentos aos cinquenta anos prevê melhor a saúde física e mental aos oitenta do que boa parte dos indicadores médicos tradicionais. Vínculo, no fim das contas, é infraestrutura de longo prazo. Assim como uma bacia hidrográfica bem cuidada ou um sistema de governança bem desenhado, são perenes se bem executados.
Agora, transponha esse achado para dentro de uma organização. O que faz uma empresa sobreviver ao fundador que sai, à liderança que se aposenta, ao colega que parte antes da hora? Não é o organograma. É a cultura entranhada nas pessoas que continuam. É o jeito de decidir que virou hábito coletivo, mesmo sem ninguém cobrando.
O verdadeiro teste de governança não é o que a empresa faz quando todos estão olhando, é o que ela continua fazendo quando quem ensinou o caminho já não está mais na sala.
Isso muda a forma de medir impacto. Relatório de ESG geralmente lista o que a empresa fez neste ano. Poucos perguntam o que ela deixou de sementeira para o ano em que, como organização, também não estiver mais lá para contar a própria história.
Método de trabalho que virou cultura. Parceria que gerou outras parcerias sem precisar de intermediação. Pessoa formada que formou outras pessoas. Isso é o “S” do ESG na sua versão mais honesta, porque não cabe em planilha e não aparece em auditoria, mas sustenta tudo o resto.
Perdi recentemente um amigo querido, parceiro de trabalho, alguém que construiu comigo esse espaço para essas ideias circularem. E o que fica claro, na prática e não na teoria, é que o impacto de uma pessoa se mede pelo tamanho da ausência que ela deixa funcionando.
Talvez essa seja a métrica mais subjetiva e mais precisa que o ESG ainda não aprendeu a medir, não o que registramos, mas o que continua de pé quando a gente solta a mão.
Mauricio, Gabriel, Rodrigo, Gabrielzinho, Mazzoni, o legado continua…
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