
Toda semana, uma nova casa de apostas esportivas anuncia um patrocinador. Um jogador famoso sorri na propaganda. Uma celebridade promete emoção. E milhões de brasileiros abrem o celular acreditando que a próxima aposta pode mudar suas vidas.
Não vim discutir moral. Vim discutir prioridades. Porque toda aposta revela aquilo que uma sociedade escolhe financiar.
Em abril de 2026, o Governo Federal anunciou R$ 1,04 bilhão para revitalizar bacias hidrográficas estratégicas do Nordeste, incluindo trechos dos rios São Francisco e Parnaíba. O programa reúne dezenas de obras e foi apresentado como um investimento histórico.
E é.
Agora, compare esse número.
As estimativas para o mercado brasileiro de apostas variam conforme a metodologia utilizada, mas para você entender o mercado de apostas esportivas no Brasil movimenta cerca de R$ 30 bilhões mensais. Entre janeiro de 2023 e março deste ano, o endividamento gerado por esse comportamento retirou R$ 143 bilhões do consumo no varejo nacional.
Três em cada dez apostadores desembolsam mais de R$ 1.000 por mês em plataformas de apostas, recursos que deixam de circular em categorias essenciais como alimentação, educação e entretenimento. O vício em apostas já ocupa o primeiro lugar entre as causas de desequilíbrio financeiro nas famílias brasileiras.
Mas a comparação revela algo desconfortável.
Somos extraordinariamente eficientes para mobilizar recursos quando existe entretenimento, marketing e retorno imediato.
Quando o retorno é água limpa, rios vivos e segurança hídrica, a velocidade muda completamente.
O custo também não é apenas financeiro. O crescimento das apostas vem acompanhado de um aumento do endividamento das famílias brasileiras, especialmente entre as de menor renda, segundo estudos recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e de instituições financeiras. Não se trata apenas do dinheiro perdido em uma aposta. Trata-se do efeito acumulado sobre o consumo, a estabilidade financeira e o bem-estar de milhares de famílias.
É aqui que deveria começar o verdadeiro ESG.
ESG não mede apenas quanto uma atividade produz de riqueza. Mede também quem paga pelos efeitos que essa riqueza deixa para trás. E deixar esse ciclo se perpetuar por falta de Governança, que é justamente o pilar mais importante de uma sigla que dizem estar batida, mas cujos valores nunca vão deixar de existir, é uma contradição que nenhum gestor responsável pode ignorar
Quando famílias se endividam, quando a saúde mental se deteriora, quando recursos naturais permanecem degradados e quando o poder público precisa reparar consequências que nunca entraram no balanço das empresas, existe um custo invisível.
É justamente esse custo que o ESG procura tornar visível, tornam obrigatória a divulgação de impactos socioambientais materiais.
O debate não é contra uma indústria. Mercados regulados existem no mundo inteiro. A questão é outra: quais incentivos estamos construindo como sociedade?
Conseguimos criar, em poucos anos, um dos maiores mercados de apostas do planeta. Desenvolvemos plataformas sofisticadas, campanhas publicitárias altamente eficientes, meios de pagamento instantâneos e estratégias de marketing capazes de mobilizar bilhões de reais.
Imagine se aplicássemos essa mesma criatividade, essa mesma tecnologia e essa mesma capacidade de mobilização para regenerar rios, proteger nascentes, recuperar aquíferos e ampliar a segurança hídrica do país.
Talvez o maior risco que o Brasil esteja correndo não seja apostar demais. Seja apostar nas prioridades erradas.
Mas ainda há tempo de corrigirmos isso.
Veja também: A inovação brasileira está pronta. O sistema está?