
Essa semana fui palestrante no evento Water.Regen Summit 2026 em um painel sobre regeneração hídrica no Brasil, com foco voltado para a realidade, menos conversa e mais resultado.
E uma constatação atravessou todo o debate, de forma direta e sem eufemismos: o Brasil tem soluções. O que falta é a velocidade institucional para permitir que elas funcionem.
Estamos a sete anos do prazo estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento Básico. A meta: 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.
A realidade, segundo os dados mais recentes do SINISA: 33 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto. Apenas 51,8% do esgoto gerado no país é efetivamente tratado.
Leia de novo. Metade.
O problema não é ausência de inovação. A velocidade da inovação e a velocidade das instituições raramente coincidem. Não por má vontade, mas porque os marcos regulatórios foram desenhados para tecnologias que já existiam quando foram escritos.
Não é uma crítica; é uma realidade estrutural que se repete em setores estratégicos, do saneamento à gestão de corpos hídricos, da despoluição de rios ao tratamento de lodo industrial.
Para que uma solução saia do piloto e chegue à escala real, três pilares precisam atuar juntos: iniciativa privada, poder público e regulação. Quando um deles falha, a inovação para. E, no Brasil, esse equilíbrio ainda está em construção.
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Órgãos que analisam dezenas de processos simultâneos, com equipes enxutas e marcos legais em transição, enfrentam um desafio real de capacidade institucional. É um problema de estrutura. E reconhecer isso é o primeiro passo para mudar.
A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovada em 2025, reorganizou décadas de procedimentos fragmentados e trouxe um sinal relevante para quem inova. São tecnologias que comprovadamente superam os padrões ambientais e podem ter priorização de análises e condições especiais de licenciamento.
Mas a mesma lei está sob escrutínio no STF, questionada por ambientalistas e juristas que apontam retrocesso na proteção ambiental, especialmente para empreendimentos classificados politicamente como “estratégicos”. O avanço procedimental existe; o risco de ser usado como atalho para flexibilização também.
Em outras palavras, o Estado parece começar a reconhecer que inovar bem deveria abrir portas, não criar filas.
Mas reconhecer não é suficiente. Para cada R$ 1 investido em saneamento, entre R$ 4 e R$ 5 são economizados em saúde. Se esse retorno já está comprovado, a pergunta que fica no ar é incômoda: por que ainda tratamos a universalização como um projeto do futuro, e não como uma urgência do presente?
O Brasil possui tecnologia validada em campo, empresas com resultados documentados e um mercado que precisa desesperadamente de soluções escaláveis. O que ainda nos separa do impacto real é a capacidade de construir pontes entre quem cria e quem aprova, entre quem entrega e quem regula.
Inovação sem escala é um protótipo bonito. Escala sem inovação é mais do mesmo. O que o Brasil precisa, agora, é das duas coisas ao mesmo tempo, andando juntas.
A pergunta não é se temos boas soluções.
A pergunta é: estamos preparados para deixá-las funcionar?