
Você entra no supermercado com a lista na mão e sem perceber já começa a fazer escolhas de ESG. É a embalagem marrom que parece reciclada. É a palavra natural na fonte verde. É o selo pequeno no canto que promete um mundo mais sustentável. Você coloca no carrinho pensando que está fazendo a sua parte. Mas será que está mesmo?
Esse fenômeno tem nome: Greenwashing. É quando uma empresa usa cor, palavra e imagem para parecer sustentável sem necessariamente mudar o que importa de verdade, como produz, o que descarta, como trata quem trabalha para ela. A embalagem muda, o discurso muda, mas o processo por trás segue o mesmo de sempre.
Um exemplo real ajuda a entender o tamanho do problema. Por décadas, latas de atum trouxeram o selo “dolphin safe”, a promessa de que nenhum golfinho havia sido ferido na pesca daquele peixe. O documentário “Seaspiracy”, sucesso na Netflix em 2021, foi atrás de saber o que sustentava esse selo.
Um dos responsáveis pela certificação, ao ser perguntado se conseguia garantir que nenhum golfinho havia morrido em qualquer pesca de atum no mundo, respondeu que não, que ninguém consegue. A entidade responsável pelo selo contestou a forma como a fala foi usada no documentário e defende que o programa reduziu de forma real a morte de golfinhos desde 1990. De um lado ou de outro, o episódio mostra como um selo que parece garantia absoluta pode, na prática, ser bem mais frágil do que o consumidor imagina.
(Estima-se que cerca de 300.000 golfinhos e baleias mortos por ano como bycatch (captura acidental) em redes de pesca no mundo todo, não só na pesca de atum).
Então como o consumidor comum, sem tempo para investigar relatório de empresa nenhuma, consegue diferenciar o que é real do que é só embalagem bonita?
Um caminho é desconfiar de frases vagas. Quando o rótulo diz apenas natural ou sustentável sem explicar o quê, como e quanto, geralmente é só discurso. Empresas que fazem de verdade costumam mostrar número, mostrar processo, mostrar prova. Não porque são perfeitas, mas porque têm o que mostrar.
Outro caminho é olhar para além da embalagem. Uma empresa que trata bem seus funcionários, que paga fornecedor pequeno em dia, que se importa com a água e o solo da região onde opera, geralmente também se importa com o restante. Sustentabilidade de verdade raramente vem em pacote isolado, ela aparece espalhada em vários pontos da operação, não só no rótulo do produto na prateleira.
Você também é parte dessa equação.
Quando o consumidor exige mais clareza, faz mais pergunta, presta mais atenção, o mercado responde. Empresa muda comportamento quando percebe que o discurso vazio já não convence ninguém.
ESG não é assunto só de sala de reunião ou relatório corporativo. Ele está no supermercado, na escolha de compra, na atenção que você dá ao que está levando para casa. Não é preciso entender de sigla nem de regulação para participar dessa conversa. Basta parar um segundo antes de colocar o produto no carrinho e se perguntar se isso é real ou é só embalagem?
Essa pausa, pequena e simples, já é ESG na prática. É o tipo de mudança que, multiplicada por milhões de consumidores fazendo a mesma pergunta todos os dias, tem o poder de transformar de verdade o que as empresas colocam nas prateleiras.
No fim, a prateleira do supermercado é só um espelho. Ela mostra de volta o que o mercado acredita que você aceita engolir. Mude o que você aceita, e a prateleira muda com você.
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