
Nenhuma empresa quebra de um dia para o outro. Antes do rombo financeiro, existe quase sempre um silêncio. O silêncio das perguntas que deixaram de ser feitas.
Quem acompanha minhas reflexões sobre ESG sabe que sempre volto ao mesmo ponto: dos três pilares, o que considero mais decisivo é a governança. Não porque o ambiental ou o social sejam menos importantes, mas porque é ela que torna os outros dois possíveis.
Sem uma boa governança, sustentabilidade vira discurso; responsabilidade social vira campanha; e confiança vira aposta.
Essa reflexão voltou à tona com os novos desdobramentos do caso Americanas. Em junho de 2026, uma nova etapa das investigações apontou supostas fraudes contábeis estimadas em cerca de R$ 54 bilhões, envolvendo operações financeiras sem lastro econômico.
Os investigados têm direito à presunção de inocência e as apurações seguem em andamento. Mas Americanas não está sozinha nessa história. Enron, Theranos, Volkswagen e Wells Fargo mostram que, em diferentes países e setores, grandes crises costumam ter a mesma origem: são falhas de governança.
Na prática, governança responde a perguntas simples: quem decide, quem executa, quem fiscaliza, quem presta contas e quem responde quando algo dá errado. Parece básico, mas é justamente a falta dessas respostas que abre espaço para incentivos desalinhados, metas acima da realidade e decisões que deixam de ser questionadas.
E isso não é um problema exclusivo de grandes empresas. Startups, pequenas empresas e até negócios familiares enfrentam os mesmos riscos. Toda organização já viveu uma decisão importante que ninguém questionou ou um indicador “bom demais” aceito sem a curiosidade necessária. É assim que pequenas falhas se transformam em grandes problemas.
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Quando a governança enfraquece, o impacto vai muito além das finanças. Projetos ambientais perdem consistência, iniciativas sociais deixam de gerar valor e relatórios passam a refletir mais narrativa do que realidade. Afinal, o “E” e o “S” dependem da qualidade das decisões tomadas diariamente.
Existe uma ironia recorrente no mundo corporativo que muitas empresas que desmoronam eram, até pouco antes do escândalo, referência em premiações, rankings e relatórios de sustentabilidade. O problema quase nunca está apenas nos números apresentados, mas nos números que deixaram de ser questionados e na sua transparência.
Toda empresa mantém um extintor de incêndio na parede. Poucas lembram de verificar se ele funciona antes da fumaça aparecer. Governança não é o heroísmo da última hora; é a disciplina silenciosa que evita que o incêndio comece.
Da próxima vez que surgir um novo escândalo corporativo, talvez a pergunta mais importante não seja quem errou. Seja quem deveria ter percebido antes. Porque, na maioria das vezes, empresas não fracassam apenas por decisões erradas, mas pela ausência de quem deveria questioná-las.
Afinal, a Governança não impede apenas fraudes. Ela impede que a omissão se torne estratégia e que o silêncio custe bilhões.