
Segundo um estudo publicado na revista científica Science Advances e repercutido pela Folha de S.Paulo, na reportagem de Reinado Lopes, algumas regiões brasileiras já não conseguem repor naturalmente a água subterrânea que retiram para abastecimento humano, agricultura e atividade econômica.
Traduzindo para a linguagem que costuma mover decisões, estamos sacando mais do que a natureza consegue depositar. Ou seja, é como viver de cheque especial acreditando que a conta nunca chegará.
E ela sempre chega.
Quando falamos de ESG, existe uma tendência de imaginar o “E” apenas como florestas, animais ou emissões de carbono. Mas a água ainda é o mais importante, talvez o recurso mais negligenciado, e seja o melhor exemplo de como os três pilares estão conectados.
O “E” aparece de forma evidente.
Sem recarga dos aquíferos, nascentes desaparecem, rios perdem vazão, ecossistemas entram em desequilíbrio e secas se tornam mais severas.
Mas a história não termina aí.
O “S” começa exatamente onde a água termina.
Sem água não existe saúde pública.
Não existe agricultura, não existe segurança alimentar, não existe desenvolvimento regional. Portanto, não existe qualidade de vida.
A água talvez seja o recurso mais democrático da Terra. Quando abundante, sustenta igualmente ricos e pobres, cidades e campos, empresas e famílias. Quando escassa, distribui suas consequências com a mesma imparcialidade, embora os mais vulneráveis sintam seus efeitos primeiro.
E então chegamos ao “G”, o pilar menos lembrado e talvez o mais decisivo.
Porque uma crise hídrica raramente nasce da falta de chuva apenas.
Ela nasce da falta de planejamento, da ausência de dados, da ocupação inadequada do solo, da gestão fragmentada das bacias hidrográficas.
Da incapacidade de enxergar além do próximo ciclo eleitoral ou do próximo trimestre financeiro. Governança é justamente a arte de tomar decisões estratéficas hoje para evitar problemas amanhã.
Quando a governança falha, os reservatórios secam, os rios adoecem e as consequências são quase que incalculáveis. Não porque a natureza falhou, mas porque nós falhamos com ela.
O Brasil já possui mais de 114 mil quilômetros de rios com qualidade comprometida, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).
Na Mata Atlântica, bioma que abriga mais de 120 milhões de brasileiros, cerca de 20% dos rios monitorados apresentam qualidade incompatível com usos importantes para a sociedade e para a economia.
Agora descobrimos que nem mesmo a reserva subterrânea é infinita.
Talvez a grande reflexão deste Dia Mundial do Meio Ambiente seja simples.
A natureza sempre nos enviou extratos da conta.
Os rios eram um aviso, as secas eram outro, as enchentes também.
Até quando vamos continuar tratando esses sinais como eventos isolados ou se finalmente entenderemos que o meio ambiente está tentando nos contar uma história.
E, como toda boa história, ela não fala apenas sobre o meio ambiente.
Ela fala sobre vidas, ela fala evolução, ela fala sobre o futuro.
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