
Você acorda numa quinta-feira e descobre que uma floresta do tamanho de São Paulo mudou de categoria legal. Não foi notícia grande. Não teve debate. Aconteceu porque alguém votou rápido. Isso é exatamente o que ocorreu na noite de 20 de maio de 2026.
A Câmara aprovou o PL 2.486/2026, que reduz a Floresta Nacional do Jamanxim de 1,3 milhão de hectares para 814 mil hectares — uma perda de 486 mil hectares. Para você entender, é como se desaparecesse toda a região metropolitana de São Paulo. Mas agora vem o número que dói de verdade.
Enquanto isso acontecia, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a maior agência climática do mundo, está alertando que temos menos de 10 anos para limitar o aquecimento a 1,5°C. Depois disso, o perigo climático máximo vira inevitável. Não é previsão pessimista. É modelagem científica das maiores entidades climáticas do planeta: NASA, NOAA e Organização Meteorológica Mundial.
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E, numa noite, sem debate, a Câmara aprova reduzir uma floresta legal que é exatamente o que essa ciência pede para proteger. Florestas como o Jamanxim absorvem carbono, geram nascentes, chuva e regulam a temperatura. São o freio que temos para o superaquecimento.
Você bebe água que vem de florestas assim. Você respira o ar que florestas assim produzem. E a decisão de potencialmente reduzir aquela floresta, contradizendo as maiores agências climáticas do mundo, foi tomada sem você saber, sem debate, no meio da noite.
Segundo o MapBiomas, o Brasil perdeu mais de 1,8 milhão de hectares de vegetação nativa apenas em 2024. Enquanto isso, eventos extremos aumentam em frequência e intensidade: enchentes históricas no Sul, secas severas na Amazônia, ondas de calor acima de 40°C e impactos bilionários na agricultura, infraestrutura e saúde pública.
E aqui existe uma contradição difícil de ignorar. Enquanto o mundo inteiro discute descarbonização, mercado de carbono, ESG e adaptação climática, seguimos tratando floresta como obstáculo logístico de curto prazo.
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A justificativa para a mudança envolve o avanço da Ferrogrão, projeto ferroviário considerado estratégico para o escoamento do agronegócio brasileiro. E sim, infraestrutura é importante. O agro é importante. O desenvolvimento econômico importa. Mas a pergunta central continua válida:
Por que decisões ambientais com impactos de décadas precisam acontecer em regime de urgência? Governança pública também é transparência, previsibilidade, participação pública e debate técnico.
Porque reduzir proteção ambiental pode até acelerar obras no curto prazo. Mas ignorar a ciência climática cobra juros altos no médio e longo prazo — e não haverá dinheiro que pague essa aposta. E, diferente da política, o clima não negocia narrativa.