
Enquanto sigo na labuta pela minha completa recuperação, o mundo da gastronomia continua girando em velocidade digna da Orion.
Em nossa cidade, os eventos gastronômicos já tomaram conta do calendário. Tivemos festival japonês, festa mineira, festa coreana e agora se aproxima a tradicional Festa de Quiririm.
Depois dela, a agenda segue intensa: Festa do Pinhão, o consagrado Festival de Inverno e o Mais Gastronomia já estão na fila, promovendo atrações e buscando alinhar seus calendários com a Copa do Mundo.
Confesso que, neste ano, ainda não consegui acompanhar tudo como gostaria. Espero em breve voltar a campo, trazendo informações atualizadas, entrevistas e bastidores, como fizemos em outras temporadas.
Outras movimentações importantes também agitam o setor. A chef Thaís Okamoto está de mudança. Após duas décadas no Jardim das Indústrias, já anuncia uma nova casa, possivelmente na Vila Adyana ou na Vila Ema. Seguimos aguardando a confirmação oficial.
Outra alteração significativa foi a saída da Enoteca Ferreti do Shopping Madrid, espaço que agora abriga o Blend Gastrobar. Ficam meus votos de sucesso aos novos ocupantes e a torcida pelo amigo Ferreti em seus próximos projetos.
Mas a notícia mais relevante, sem qualquer dúvida, vem do reconhecimento internacional da culinária brasileira.
Nos últimos anos, chefs brasileiros conquistaram títulos de enorme prestígio. Entre as mulheres, Helena Rizzo, do Maní, foi eleita melhor chef mulher do mundo em 2014, premiação concedida pelo The World’s 50 Best Restaurants. Roberta Sudbrack recebeu, em 2015, o título de melhor chef mulher da América Latina, distinção do Latin America’s 50 Best Restaurants.
Já em 2024, Janaína Torres Rueda, à frente d’A Casa do Porco e do Bar Dona Onça, foi escolhida melhor chef mulher do mundo pelo The World’s 50 Best Restaurants, recolocando o Brasil no topo da gastronomia internacional.
Entre os homens, Alex Atala, do D.O.M., consolidou-se como o chef brasileiro de maior projeção mundial. Em 2013, recebeu o Diners Club Lifetime Achievement Award, concedido pelo The World’s 50 Best Restaurants, reconhecimento reservado a personalidades de impacto duradouro na gastronomia global. Seu restaurante D.O.M. também figurou repetidamente entre os melhores do planeta no mesmo ranking.
Outro nome de enorme relevância é Ivan Ralston, do Tuju, eleito chef do ano em diferentes premiações nacionais e responsável por uma das cozinhas mais técnicas e autorais do país.
Já Luiz Filipe Souza, do Evvai, tornou-se referência internacional ao conquistar o prêmio One To Watch do The World’s 50 Best Restaurants em 2020, distinção dedicada a talentos emergentes de destaque mundial.
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Ainda assim, faltava ao Brasil um símbolo definitivo de consagração: restaurantes nacionais agraciados com três estrelas Michelin, a mais alta distinção da gastronomia mundial. Esse marco finalmente chegou a duas casas paulistanas: o Tuju, comandado por Ivan Ralston, e o Evvai, liderado por Luiz Filipe Souza.
As três estrelas do Guia Michelin representam o ápice absoluto da alta gastronomia, honraria reservada a restaurantes cuja experiência justifica, por si só, uma viagem. Mais do que um prêmio, trata-se de um selo máximo de excelência baseado em técnica, consistência, personalidade e impacto.
A conquista inédita de Tuju e Evvai redefine o posicionamento do Brasil no cenário internacional. Pela primeira vez, a América Latina deixa de ser observada como coadjuvante e passa a ocupar espaço central entre os destinos gastronômicos de elite.
O impacto é profundo. Em primeiro lugar, há uma transformação simbólica: o Brasil deixa de ser visto apenas como fornecedor extraordinário de ingredientes e passa a ser reconhecido também como produtor de alta cozinha no mais elevado nível criativo e técnico.
No Evvai, isso aparece em uma cozinha autoral que une Brasil e Itália com elegância contemporânea. No Tuju, em uma experiência imersiva que interpreta os biomas brasileiros com precisão, pesquisa e sensibilidade.
Em segundo lugar, existe um efeito econômico direto. Restaurantes com três estrelas tornam-se destinos globais, atraindo visitantes dispostos a viajar exclusivamente para viver essa experiência. Isso movimenta toda a cadeia produtiva, do pequeno produtor rural à hotelaria, além de elevar o padrão de exigência do mercado nacional.
Essas casas também se transformam em centros formadores. Profissionais treinados em cozinhas desse nível espalham técnica, disciplina e visão, contribuindo para o amadurecimento de toda a gastronomia brasileira.
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Há ainda o aspecto cultural. Evvai e Tuju não representam apenas excelência técnica, mas duas narrativas complementares da cozinha contemporânea brasileira: uma dialoga com herança, memória e identidade; a outra explora território, biodiversidade e inovação.
Juntas, mostram ao mundo que o Brasil não possui uma única voz gastronômica, mas uma pluralidade sofisticada e competitiva.
Assim, as três estrelas deixam de ser apenas uma conquista individual e tornam-se um divisor de águas: o momento em que o Brasil deixa de aspirar ao protagonismo e passa, efetivamente, a exercê-lo.