
Não sou ambientalista. Também não sou “eco chato”. Mas há mais de 10 anos estudo e trabalho com isso todos os dias e sempre fui, antes de tudo, um amante da natureza. E talvez por isso eu consiga ver com clareza: tem algo profundamente errado. E não é ideológico. É matemático.
Hoje, o mundo investe algumas dezenas de bilhões de dólares por ano em restauração da natureza. Ao mesmo tempo, despeja trilhões em atividades que degradam exatamente essa mesma base natural que sustenta a economia. Não é uma opinião. É uma distorção estrutural.
Estudos mostram que o financiamento global para biodiversidade gira na casa de US$ 50 bilhões por ano, enquanto os subsídios que prejudicam a natureza passam de US$ 500 bilhões anuais — ou até US$ 2,6 trilhões, dependendo da metodologia (State of Finance for Nature Report, 2021/2023). Ou seja, o sistema econômico global ainda está desenhado para premiar quem destrói mais rápido, não quem regenera melhor.
Em cerca de um mês, os EUA já gastaram algo entre US$ 25 e 35 bilhões na guerra contra o Irã, com um ritmo próximo de US$ 1 bilhão por dia, segundo estimativas do Pentágono, CSIS e ex-oficiais de defesa.
E aí a pergunta que ninguém gosta de fazer, mas que precisa ser feita: que tipo de política mundial é essa que corrói a própria base que a sustenta? O risco não é ambiental. É econômico.
Existe uma narrativa confortável de que ESG é uma pauta “ambiental”. Não é. É, antes de tudo, uma pauta de risco. Mais de 75% das atividades econômicas globais dependem diretamente de serviços ecossistêmicos. Água, solo, clima estável, biodiversidade — tudo isso não é “natureza”, é infraestrutura invisível.
Sem isso, não tem supply chain.
Sem isso, não tem produção.
Sem isso, não tem negócio.
E, mesmo assim, seguimos operando como se esses ativos fossem infinitos ou, pior, gratuitos. O conceito de limites planetários, desenvolvido pela ciência, já mostrou que ultrapassamos fronteiras críticas em áreas como clima, biodiversidade e uso do solo (Stockholm Resilience Centre).
Mais de ESG na Prática:
Traduzindo: basicamente, estamos operando fora da zona segura. E é claro para mim que o problema não é falta de solução. É alocação de capital. Tecnologia existe. Conhecimento existe. Casos reais existem.
O que ainda não existe é escala. E escala não vem de discurso. Vem de dinheiro bem direcionado. Hoje, ainda é mais fácil financiar degradação do que regeneração. E isso começa a mudar quando empresas e governos perceberem algo simples: o custo de não agir já é maior do que o custo de transformar.
Eventos climáticos extremos, escassez hídrica, volatilidade de insumos… isso já está no balanço. Não está mais no futuro. ESG, na prática, não é discurso. É decisão. A diferença entre quem lidera e quem fica para trás não vai ser narrativa. Vai ser decisão de investimento, decisão de cadeia de valor, decisão de modelo de negócio.
Não se trata mais de “ser sustentável”. Trata-se de continuar existindo com previsibilidade. No fim, é simples — mas não é fácil. A conta global hoje é incoerente, pois é nítido que gastamos mais destruindo do que regenerando. Mais corrigindo do que prevenindo, mais reagindo do que planejando. E talvez o ponto mais importante:
Não é a natureza que está em risco… somos nós.