
Abrindo seu coração e história a lideranças indígenas, em um julgamento sob o céu estrelado no meio da Floresta Amazônica, o fotógrafo Ricardo Martins conseguiu algo raríssimo: acessar a intimidade do povo Yanomami.
A expedição para seu mais novo trabalho, o livro fotográfico “Os Últimos Filhos da Floresta”, durou aproximadamente 20 dias. Começou em Manaus, de onde viajou até o município Barcelos, a cerca de 405 km, em um trajeto feito de obidense, uma balsa com três andares em que as camas são redes.
De lá, alugou um barco menor e subiu o Rio Amazonas por três dias com sua equipe até chegar na aldeia Hemare Pi Wei, quase na divisa com a Venezuela. Todo esse esforço teve como propósito viver o cotidiano sagrado da aldeia e fazer registros fotográficos que apresentassem a riqueza imaterial que há isolada no interior floresta.
“Eles confiaram e abriram realmente os braços para receber a gente. E o que eu quero mostrar com esse projeto é uma história diferente do que a gente vem assistindo há 500 anos. É importante falar do que eles sofreram, mas tem um lado que é pouco mostrado: da força dos povos originários, da cultura.”
A primeira frase que ouviu ao botar os pés na comunidade, uma mensagem mágica do Tuxaua Maciel, o líder local e seu intérprete nos quatro dias com os indígenas, abre a obra: “É, seu Ricardo, o seu nome ecoou pela floresta e chegou em nossos corações”.
A aprovação do “tribunal Yanomami” — que também só aconteceu após negociações à distância que duraram cerca de um ano e meio intermediadas por contatos locais — permitiu que Martins pudesse trabalhar sem restrições e, portanto, fazer retratos profundos de um povo o qual não compreendia a língua e se conectava pela terra.
“Como o tempo era curto, minha primeira ideia foi fazer retratos. Peguei um pano preto, abri no meio do xapono [tipo de moradia], onde tinha uma luz legal. Eu apontava, chamava, e eles posavam na minha frente. Eu não falava nada, cada um parava do seu jeito, olhava para a câmera e eu fotografava”, contou.
Com a ajuda de Maciel para quebrar a barreira linguística, mas na maioria das vezes interagindo com acenos e alguns gestos rápidos, Martins fotografou e também filmou o tempo de comer e o de descansar, o lazer, o trabalho, festas, caças e as gerações Yanomami na aldeia Hemare Pi Wei.
Além do livro, disponível para compra por R$ 79 no site de Martins, o fotógrafo produziu um documentário homônimo na comunidade. Ambos foram lançados oficialmente em junho no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.
Entretanto, o livro ganhou no mês seguinte uma cerimônia em Ubatuba, onde atualmente reside Martins, e será novamente celebrado em setembro durante a programação da FLIM (Festa Literomusical) em São José dos Campos, cidade natal do fotógrafo.