
Como um grande apreciador de vinhos, não poderia deixar de assistir à excelente aula apresentada pelo sommelier Rodrigo Ferraz, do canal Vinhos de Bicicleta, durante o festival Mais Gastronomia, agora no meio de junho.
Em sua apresentação, Rodrigo compartilhou com o público um panorama profundo e didático sobre a história do vinho no Brasil e sua evolução, despertando ainda mais interesse pela cultura vitivinícola.
Após a aula, tive a oportunidade de recebê-lo para uma conversa especial — em que também o desafiei a fazer um mata-mata entre uvas para escolher sua favorita (confira abaixo). Rodrigo é hoje um dos profissionais mais conceituados de nossa região e um dos principais representantes do vinho brasileiro no cenário nacional.
Firmando conceitos
Antes de tudo, Rodrigo fez questão de esclarecer algumas definições fundamentais:
- Enólogo: profissional responsável pela produção do vinho, atuando diretamente na vinícola.
- Sommelier: elabora a carta de vinhos, faz harmonizações, atua no serviço e na formação de conhecimento.
- Enófilo: amante e apreciador de vinhos.
Formado em Publicidade, Rodrigo fundou a Vinhos de Bicicleta, maior franquia especializada do Brasil e um dos maiores canais de vinho da América Latina no YouTube.
Como tudo começou
Durante a faculdade, Rodrigo começou a substituir a cerveja por vinho nas refeições que preparava. Inicialmente sem muita técnica, mas com muita curiosidade, foi aprendendo na prática. Chegou a cogitar trabalhar com cervejas artesanais — inclusive fez um TCC sobre um clube de assinaturas de cerveja.
O ponto de virada veio em um passeio de bicicleta pelas vinícolas de Mendoza, na Argentina, em Luján de Cuyo. Utilizando bicicleta para visitar pequenos produtores, Rodrigo teve uma experiência transformadora com o terroir, a cultura e o estilo de vida vinícola.
O gatilho
Rodrigo se encantou com a energia do lugar. “Regiões vinícolas têm uma paz diferente, um respeito pela natureza e pelo legado das famílias”, conta. A conexão com a natureza, que marcou sua infância em fazendas e rios, encontrou no vinho um novo caminho.
Do projeto à realidade
Em agosto de 2012, com 24 anos, deixou a agência de publicidade onde trabalhava e fundou o Vinhos de Bicicleta. O projeto começou como clube de assinaturas e evoluiu para canal de conteúdo e referência nacional. Hoje é o maior canal de vinhos no YouTube da América Latina com mais de 140.000 inscritos.
O canal
Três pilares definem o canal Vinhos de Bicicleta:
- Cultura: explora terroirs, tradições e histórias dos vinhos.
- Educação: amplia o acesso ao conhecimento sobre vinhos no Brasil.
- Entretenimento: linguagem leve e acessível, com foco na experiência.
Um importante ponto a destacar é que o canal sempre foi gratuito e a venda é tratada como consequência, não sendo o principal objetivo do canal. Dessa forma, mesmo se você, leitor, quiser somente adquirir conhecimentos sobre o vinho, não precisará realizar nenhuma compra de forma obrigatória e não haverá mensalidades.
A feira Vinhos de Bicicleta
Rodrigo também realiza a Feira Vinhos de Bicicleta, que acontece anualmente. O evento reúne produtores nacionais e internacionais, entusiastas, profissionais e curiosos.
Nos dias 1 e 2 de agosto deste ano, ocorrerá a terceira edição consecutiva, e maior da história, consolidando-se como um dos principais encontros do setor no Brasil. Contará com 60 expositores com foco em qualidade, trazendo predominantemente pequenos produtores — boutiques — com a facilidade de podermos conversar diretamente com o dono da vinícola, facilitando os negócios.
Mais de 400 rótulos com degustação livre. São esperados cerca de 3.000 visitantes ao evento, no centro de exposições do CenterVale Shopping.
A Defesa do vinho nacional
“Quem ainda não gosta de vinho brasileiro está atrasado, bebeu pouco ou não conhece bem”, afirma Rodrigo.
O canal promove vinhos do mundo todo, mas valoriza especialmente os nacionais, destacando a receptividade e a qualidade cada vez maior das vinícolas brasileiras.
Por que ainda bebemos pouco vinho no Brasil?
Segundo Rodrigo, o principal obstáculo é o preço. O vinho nacional sofre a mesma carga tributária que os importados, ao contrário de países com políticas de incentivo ao produto local, e a cultura que ainda deixa o vinho como algo elitizado.
Temos ótimos vinhos para acompanhar o churrasco, que podem fazer frente à cerveja, mas isso ainda é pouco difundido entre os consumidores.
Regiões produtoras
Rodrigo detalha as principais regiões vinícolas e as inovações técnicas no país:
- Pinto Bandeira (RS): espumantes de método tradicional com reconhecimento internacional.
- Serra Gaúcha: polo de enoturismo, com vinícolas próximas, mas com ladeiras para quem quiser pedalar.
- Campanha Gaúcha: vinhos encorpados; terreno plano, mas distâncias maiores.
- Sudeste (SP, MG, RJ, DF): berço da viticultura de inverno, com a técnica da dupla poda. Desenvolvida por Murilo Regina, essa técnica faz com que a frutificação ocorra no inverno, quando as condições climáticas — dias quentes e noites frias — favorecem respectivamente a maturação dos taninos, concentração de açúcares e preservação da acidez. Além disso, a altitude e a continentalidade são fatores-chave para o sucesso dessa viticultura por conta desta possibilidade climática.
- Serra da Mantiqueira e Espírito Santo do Pinhal: destaques na produção de vinhos de inverno, com uvas como Syrah e Cabernet Franc.
- Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí: polos emergentes de enoturismo regional.
- Vale do São Francisco: colheitas múltiplas ao longo do ano; vinhos frutados, intensos.
- Chapada Diamantina (BA): terroir singular, com vinhos autorais ganhando espaço.
- Serra Catarinense: ideal para uvas brancas e Pinot Noir, com menor teor de taninos, bons para iniciantes.
Potencial
O mundo inteiro está de olho no mercado brasileiro. O consumo per capita é muito baixo, como já mencionamos anteriormente, mas temos uma população grande com ótimo potencial para esse consumo. Na nossa região, não é diferente, ainda mais com o enoturismo prosperando.
Rodrigo Ferraz, com seu projeto Vinhos de Bicicleta, é parte fundamental dessa nova fase do vinho brasileiro. Ao unir educação, paixão, eventos inclusivos e uma linguagem acessível, ele ajuda a contar a história viva da viticultura nacional — feita de memória, técnica, pedaladas e muitos brindes.
Um resumão do início dos vinhos no Brasil
A história do vinho no Brasil começa muito antes das prateleiras sofisticadas dos empórios ou das taças bem servidas dos bistrôs modernos. Já em 1532, na então capitania de São Vicente (SP), Martim Afonso de Sousa trouxe as primeiras mudas de videira ao país, dando início à cultura vitivinícola brasileira.
No entanto, o calor excessivo e as chuvas abundantes do litoral tornaram inviável a produção de uvas de qualidade para vinhos finos. Era o começo de uma trajetória marcada por desafios e reinvenções.
Foi apenas com a chegada dos imigrantes europeus ao sul do país, no século XIX, que o vinho passou a ganhar identidade nacional.
A partir da década de 1870, famílias italianas assentadas na Serra Gaúcha começaram a cultivar videiras em larga escala, adaptando variedades americanas (como a Isabel), mais resistentes ao clima e às pragas locais. Nascia ali a base da viticultura brasileira — rústica, popular e voltada ao consumo doméstico.
Somente no final do século XX, com a profissionalização do setor, a entrada de enólogos formados e o intercâmbio com centros produtores internacionais, o Brasil começou a trilhar o caminho dos vinhos finos. Grandes vinícolas como Miolo, Salton e Valduga modernizaram seus processos e passaram a disputar prêmios internacionais, abrindo espaço para uma nova geração de pequenos e médios produtores.
Nas últimas duas décadas, o país passou por uma verdadeira revolução vinícola. Ganhamos destaque com a produção de espumantes pelo método tradicional, especialmente na região de Pinto Bandeira (RS), e com a inovadora viticultura de inverno, centrada em regiões como São Paulo, Minas Gerais e o Cerrado.
A chamada dupla poda, desenvolvida pelo pesquisador Murilo Regina, permite que as uvas sejam colhidas no inverno — estação mais seca e com melhor amplitude térmica — gerando vinhos mais equilibrados, potentes e expressivos.
Hoje, o Brasil conta com cerca de 1.100 vinícolas registradas, espalhadas por mais de 20 estados. A diversidade de climas, altitudes e solos faz do país um dos mais promissores no cenário internacional. Ainda assim, o consumo per capita de vinho no Brasil — em torno de 2 litros por pessoa/ano — continua baixo em comparação a países como Argentina, Portugal ou Itália.