
Na foto, um CEO segura uma muda de árvore, rodeado de crianças sorrindo. Na legenda: “Investimos no futuro”. Em outra postagem, uma executiva discursa sobre equidade de gênero em um painel patrocinado. Hashtags ensaiadas, cores vibrantes, tudo impecável. Mas você já viu um post sobre o fluxo de decisão de uma empresa? Sobre como o comitê de riscos decidiu frear um projeto milionário por falta de compliance ambiental? Ou sobre a demissão de um diretor por conflito de interesse? Provavelmente não. Porque governança não é instagramável e justamente por isso, é a espinha dorsal do ESG de verdade.
Enquanto o “E” rende fotos e o “S” emociona discursos, o “G” deve e trabalha no escuro. É ele que garante que os compromissos ambientais não sejam apenas slogans, e que as ações sociais não sejam oportunismo. Governança é quem decide com quem a empresa se associa, como define metas, quem se senta na mesa do conselho e, principalmente, quem presta contas a quem.
Segundo estudo da PwC (2023), 94% dos conselheiros de empresas globais reconhecem que a pressão por ESG aumentou, mas apenas 27% afirmam ter processos sólidos para monitorar a execução dessas práticas internamente. A lacuna entre discurso e decisão cresce à medida que o ESG se populariza sem estrutura de governança para sustentá-lo.
Casos recentes escancaram essa fragilidade. A Americanas, por exemplo, ostentava belas campanhas etc., mas por trás, um rombo contábil de bilhões, fruto de falhas graves na governança financeira e nos controles internos. Não houve desastre ambiental. Não houve polêmica social. Foi o “G” que ruiu e, com ele, tudo o mais.
Outro exemplo emblemático: a mineradora Samarco, fruto da joint venture entre Vale e BHP, tinha relatórios ambientais robustos e um discurso de desenvolvimento regional. No entanto, o colapso da barragem em Mariana (2015) revelou uma governança de riscos falha, despreparada para lidar com o que era previsível. ESG sem “G” é marketing de alto risco.
Esse tipo de colapso não acontece por falta de boas intenções. Acontece porque a governança, muitas vezes, é reduzida a rituais: reuniões formais, códigos de ética impressos, relatórios anuais com gráficos polidos, mas sem consequência prática. A governança de verdade não está nos documentos, mas nas decisões difíceis, nas estruturas de controle e na disposição para contrariar interesses imediatistas.
Governança é o conjunto de mecanismos que garantem que o poder seja exercido com transparência, responsabilidade e equilíbrio. Vai muito além do compliance. Envolve a diversidade nos conselhos, a independência nas auditorias, a rastreabilidade nas cadeias de fornecedores e a coerência entre o que se promete e o que se entrega.
Um bom exemplo vem do setor de energia. A EDP Brasil, por exemplo, implementou um modelo de governança climática com metas atreladas à remuneração da alta liderança, conforme relatório do CDP (Carbon Disclosure Project, 2022). Isso significa que o “E” da sustentabilidade virou métrica de bônus e isso muda tudo. Quando o ESG entra na governança de verdade, deixa de ser promessa e vira compromisso.
A boa governança não aparece no Instagram porque não precisa. Ela se revela no dia em que a empresa escolhe perder um contrato duvidoso em nome da integridade. Quando veta uma expansão por falta de licença ambiental. Quando respeita e valoriza seu colaborador, sem ele pedir ou quando ele pede demissão, antes que ele vire escândalo. O “G” é a coragem silenciosa de fazer o certo mesmo sem curtidas.
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