
Maria Aparecida trabalhou 34 anos em uma indústria no interior de São Paulo. Aos 58, foi demitida e nunca mais conseguiu voltar ao mercado formal. Em entrevistas, ouviu que era “experiente” ou “sênior demais”, um eufemismo que escancara o preconceito por trás da idade. Hoje, Maria faz doces para vender na vizinhança. Não por vocação empreendedora, mas por necessidade.
Histórias como a de Maria são cada vez mais comuns no Brasil. Segundo dados do IBGE, em 2022, o total de pessoas com 65 anos ou mais no país chegou a 10,9% da população, com alta de 57,4% frente a 2010. Na Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVale), o total de pessoas com mais de 60 anos foi de 388,7 mil em 2022, representando 16% da população de 2,5 milhões.
Apesar do aumento da população idosa, o etarismo, preconceito baseado na idade, ainda é uma barreira significativa no mercado de trabalho. Uma pesquisa realizada pelo Grupo Croma aponta que 86% da população acima dos 60 anos afirma já ter enfrentado algum tipo de preconceito em relação ao mercado de trabalho.
Esse cenário é preocupante, pois exclui uma parcela significativa da população economicamente ativa. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que, de 2023 para 2024, o número de trabalhos formais para pessoas com mais de 50 anos de idade cresceu 8,8%, com quase 700 mil novos postos de trabalho. No entanto, ainda há muito a ser feito para combater o etarismo e promover a inclusão dos profissionais 50+.
Felizmente, algumas empresas estão liderando o caminho. A Credicard lançou o programa “Credicard 50+”, com o objetivo de demonstrar a importância da experiência de vida dos profissionais maduros dentro das empresas e as possibilidades de inclusão 50+ no contexto digitalizado e humano. Além disso, a Maturi, uma plataforma dedicada à inclusão de profissionais 50+, já capacitou mais de 61 mil pessoas e recolocou mais de 7.800 no mercado de trabalho.
Na indústria, um exemplo de destaque vem justamente do Vale do Paraíba. A Embraer, gigante da aviação com sede em São José dos Campos, lançou o programa “+50 Potencial para Voar Alto”, voltado à contratação de profissionais acima de 50 anos. A iniciativa valoriza competências desenvolvidas ao longo da vida e amplia a diversidade geracional na companhia. Os participantes passam por trilhas formativas e têm apoio estruturado para reinserção no ambiente corporativo, uma prática que reforça a conexão entre experiência e inovação.
Mas o impacto do envelhecimento vai além do mercado de trabalho ele afeta o equilíbrio fiscal do país. O INSS, muito em pauta esses dias, tem hoje cerca de 1,2 contribuinte ativo para cada beneficiário, quando o ideal seria pelo menos 2,5. O déficit da Previdência foi de R$ 270 bilhões em 2023 e tende a crescer à medida que mais pessoas se aposentam e menos jovens entram no mercado. Incluir pessoas 50+ no trabalho formal é também aliviar a pressão sobre o sistema, sustentar a base de arrecadação e garantir políticas públicas essenciais.
O que o Brasil vive agora, países como Japão e Alemanha enfrentam há décadas. No Japão, onde 29% da população tem mais de 65 anos, subsídios incentivam empresas a manter profissionais maduros no mercado. Na Alemanha, programas intergeracionais promovem mentorias reversas, com troca de conhecimentos entre gerações.
Empresas brasileiras podem começar com ações simples, retirar limites de idade em vagas, criar trilhas de desenvolvimento para colaboradores mais velhos, estimular mentorias cruzadas e revisar políticas de diversidade. Combinar jovens talentos com a maturidade de profissionais seniores pode transformar sua equipe em um diferencial competitivo de alto impacto.
A inclusão etária é parte fundamental do “S” de ESG. Ignorá-la é desperdiçar talentos e contribuir para um sistema que pode sobrecarregar os mais jovens, abandona os mais velhos e compromete a sustentabilidade fiscal. Mais do que uma pauta de diversidade, é uma questão de inteligência estratégica.
Ignorar essa mudança é caro, a inclusão é inteligência de negócio. Quem vai liderar essa transformação: você ou seu concorrente?
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