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    A bananalização da arte

    3 de dezembro de 2024Nenhum comentário4 Minutos de Leitura
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    O urinol (1917) de Marcel Duchamp e as latas de sopa (1962) de Andy Warhol causaram polêmicas no mundo da arte sobre o valor e papel da arte, mudaram nossas percepções sobre a própria arte.

    Assim também ocorreu com o tubarão no formol (1991) de Damien Hirst.

    Obras que usaram a iconografia das brincadeiras dentro do próprio sistema da arte que permite sua criação e aceitação como obras de arte.

    O artista italiano Maurizzio Cattelan abalou o mercado da arte na feira de arte Art Basel Miami Beach em 2019 com sua obra Comedian. 

    Uma banana pregada na parede com fita silver tape imediatamente invadiu a internet causando grande impacto e dividindo opiniões do público e críticos de arte. Gerou  filas imensas de visitantes tendo que ser retirada da parede antes do final da feira. Em outra galeria onde foi exposta um artista comeu a banana que foi substituída por outra assim como ocorreu na Coréia do Sul, comida por um estudante de artes. Fazendo um vídeo o artista americano que comeu a banana intitulou seu feito de Artista Faminto e se auto denomina como sendo o primeiro artista a comer a obra de outro artista. Tirou uma casquinha da banana de Cattelan.

    Comedian Maurizzio Cattelan
    Comedian Maurizzio Cattelan (Créditos: Reprodução)

    Para Cattelan sua obra Comedian não é piada, é uma opinião sincera e uma reflexão sobre o que damos valor, um desafio ao sistema da arte com suas regras. A principio ele fez três Comedian vendidas por US$120 mil cada uma e mais duas provas de artista. 

    Prova de artista é um termo originário da gravura, da serigrafia, onde o artista reserva para si as primeiras estampas realizadas, em alguns casos seriam os primeiros testes. Cattelan classificou duas Comedian como provas de artista o que explicando melhor seriam duas bananas pregadas na parede do seu ateliê.

    Agora em novembro uma Comedian foi leiloada por US$6,2 milhões ultrapassando a expectativa de US$1,5 milhão. 

    Disputada por sete milionários, o ganhador foi o chinês Justin Sun fundador da plataforma de criptomoedas Trun.

    “Esta não é apenas uma obra de arte”, disse Sun em um comunicado à Sotheby’s. “Representa um fenômeno cultural que une os mundos da arte, memes e a comunidade de criptomoedas. Acredito que esta peça inspirará mais reflexão e discussão no futuro e se tornará parte da história.”

    Até o quitandeiro ao lado da casa de leilões que vendeu a banana para ser colada na parede virou ponto turístico. Indiano de 75 anos, Shah Alam, não entende como e porque a banana saiu da sua banca por centavos de dólar e foi vendida por milhões alguns metros a frente. Nossa solidariedade a ele que vende banana a preço de banana mesmo. 

    Engraçada, absurda, um símbolo dos excessos do mercado de arte provocando reflexões sobre o que é arte e como atribuímos seu valor. 

    Um mecanismo frágil, colar uma banana na parede, que pode ser feito por qualquer um de nós, é elevado à categoria de obra de arte por críticos famintos disputando novos conceitos.  

    Leia também: O futuro da arte na cápsula do tempo

    E para juntar a fome com a vontade de comer, bananas, surge um artista que sabe usar o sistema para criar, conhece a lógica do mercado e entrega algo bizarro, non sense, que se encaixa perfeitamente no sistema perecível que estamos vivendo. Antropofagia da banana. 

    Cada banana que apodrece é substituída por outra. O proprietário da obra recebeu um certificado de autenticidade assinado por Maurizzio Cattelan com instruções de como instalar e como substituir a banana. 

    Para “honrar seu lugar na história e na cultura pop” Justin Sun comeu a banana dia 29 de novembro de 2024. E assim entre memes, milhões de seguidores e de dólares, Sun elevado a celebridade, esfrega na nossa cara seu desprezo pela humanidade e sua capacidade exploratória. 

    Como acredito que as experiências artísticas nos permitem estruturar conhecimentos e vivenciar processos criativos que podem aumentar nossa capacidade de elaborar o simbólico, perceber melhor nossas emoções, desenvolver a auto estima e refletir  sobre as questões que nos afligem, elaborei este passo a passo. Experimenta.

    Como fazer sua obra de arte

    1. Compre uma banana nanica madura, no ponto.
    2. Compre um rolo de fita silver tape de 5 cm de largura.
    3. Escolha uma parede, branca de preferência, grude a banana na vertical com uma tira da fita. 
    4. Fotografe e publique no instagram com @cattelanbanana
    5. Coma a banana antes de estragar.
    6. Volte para etapa N.1

    Galeria

    Latas de sopa Campbell – Andy Warhol (Créditos: Reprodução)
    Urinol – Marcel Duchamp (Créditos: Reprodução)
    Tubarão – Damien Hirst (Créditos: Reprodução)

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    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Pitiu Bomfin

    Pitiu Bomfin

    Artista plástica, curadora e educadora. Formada em Desenho Industrial pela FAAP / SP com pós graduação em Artes Plásticas pela ECA/USP e estudos em Arquitetura.
    Realiza trabalhos de curadoria além de cenografias e figurinos para grupos de teatro.
    Sua pesquisa artística envolve a fotografia, a pintura e processos gráficos muitas vezes utilizando referencias icônicas da historia da arte.
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