
Para vários casais no mundo, o fim da pandemia trouxe uma nova vida: a de solteiro. O adeus ao isolamento social deixou muita gente sozinha na pista e fez com que a rotina tivesse que ser readaptada.
Jantares, filmes, noites de sono e casas deixaram de ser compartilhados por casais até então apaixonados, mas que descobriram durante o maior caos sanitário da modernidade que essa proximidade toda talvez não fosse tão fácil de lidar.
Depois de um 2020 com os divórcios em queda, o Brasil teve dois anos com aumentos consecutivos nas separações. Em 2021, quando as medidas restritivas começaram a afrouxar de vez, foram 386 mil divórcios no país.
Em 2022, com a pandemia mais controlada, esse número passou dos 420 mil, segundo dados recentes divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Em São José dos Campos, os relacionamentos azedados durante a pandemia parecem ter tido um efeito rebote atrasado. Os divórcios na cidade caíram praticamente pela metade entre 2019 e 2021.
No ano seguinte, entretanto, o gráfico mudou bruscamente: os divórcios voltaram para a casa dos 2 mil, perdendo por pouquíssimos dígitos para 2019, o ano que mais decretou o fim de casais nos últimos 20 anos.

Pandemia: convivência obrigada e casamento perdendo valor
O psicólogo clínico Rafael Ribeiro disse que sentiu na pandemia uma aproximação forçada entre os casais, que sem o entrosamento desejado para uma relação harmônica, sofreram com as diferenças.
“Disto vieram os conflitos, que ficam adormecidos pela dinâmica do dia a dia [antes da covid-19], mas que apareciam descaradamente e multiplicados por dois na pandemia”.
Pelo o que observou no consultório Rafael listou os principais motivos para o distanciamento dentro de casa: discussões frequentes, falta ou a exigência de sexo, brigas sobre as tarefas domésticas e cuidados com os filhos foram as queixas que mais ouviu no divã – tanto na terapia individual quanto em casal.
O casamento no pós-pandemia também perdeu status de entidade. Seu lugar como objeto de muitos sonhos enfraqueceu, acredita a psicóloga Luciana de Fátima Ribeiro. “Parece que esses casais descobriram que o casamento já não fazia mais sentido na vida deles e a pandemia fez eles enxergarem isso, né? Embora nunca seja algo fácil de se perceber quando um casamento acaba, mas o isolamento da pandemia fez as pessoas despertarem para isso”, explicou.
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Novas formas de se relacionar (ou não)
A psicóloga também observou uma mudança de comportamento nas pessoas. Hoje, vem se desfazendo a ideia dentro dos moldes mais tradicionais de que é importante casar e que coloca a instituição do matrimônio como parte fundamental do quebra-cabeça que é construir uma família.
“Essa geração atual vem mudando esse padrão, fazendo novas escolhas”, refletiu. Apenas morar junto, não casar ou até evitar relacionamentos fazem parte do novo normal.
“Hoje a gente tem ainda os relacionamentos abertos, os trisais, os relacionamentos virtuais, os relacionamentos mais superficiais, que é o encontro de uma noite só. Então sim, tem uma mudança”, listou Luciana outras modalidades de relacionamentos agora mais comuns, mas que há pouco tempo pareciam tão absurdas a ponto de ganharem programas de TV extravagantes como “Um Marido e Cinco Mulheres”, de 2014, exibido originalmente pelo canal pago TLC.
Menos casamentos do que em outras épocas
Dados comprovam que a derrocada do casamento não é apenas uma percepção clínica. Em São José, apesar de estarem com tendência de crescimento desde o primeiro ano da covid-19, os números já foram bem melhores.
Em 2022, pouco mais de 4 mil casais selaram suas paixões com um registro civil. Nas últimas duas décadas, só tiveram menos casamentos que isso os anos de pandemia (as barreiras sanitárias podem ajudar a explicar) e o período entre 2004 e 2008.
O destaque fica para 2016, quando mais de 5 mil se casaram na cidade – média incrível de 13 casamentos por dia, um recorde que deve permanecer intacto por bastante tempo.
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