
Ser jovem nos primeiros 40 anos do século XX era um mundo completamente diferente do que é hoje. E que bom.
Ainda assim, existe uma coisa curiosa: toda geração parece acreditar que os jovens da seguinte são mais fracos, mais preguiçosos ou menos comprometidos. Isso acontece há séculos.
O tio do meu avô foi um desses jovens. Alfredo Blois, nascido em Jacareí, em 8 de maio de 1911. Aos 21 anos, idade em que hoje muita gente está terminando a faculdade ou descobrindo o que quer fazer da vida, ele pegou em armas.
Não porque foi obrigado. Foi porque quis.
Em julho de 1932, São Paulo se rebelou contra o governo provisório de Getúlio Vargas, exigindo uma nova Constituição para o país. Sem um Exército próprio capaz de enfrentar o governo federal, o estado dependeu de milhares de voluntários: estudantes, trabalhadores, comerciantes, fazendeiros e jovens como Alfredo.

Antes mesmo de a Revolução começar oficialmente, outro jovem de 21 anos, nascido em São José dos Campos, já havia se tornado um de seus maiores símbolos. Euclides Bueno Miragaia morreu durante a manifestação de 23 de maio de 1932, na capital paulista, ao lado de Martins, Dráusio e Camargo.
As iniciais de seus sobrenomes formariam a famosa sigla MMDC, que mobilizou milhares de voluntários paulistas para a guerra, e até mesmo ganhou um monumento na orla do banhado em São José dos Campos. Por coincidência, tanto Miragaia quanto Alfredo tinham praticamente a mesma idade quando entraram para a história.
Como me empolgo bastante com o tema, acabei pedindo alguns detalhes extras ao historiador Diego Amaro, especialista na Revolução de 1932. Segundo ele, a morte de Miragaia e dos demais jovens do MMDC provocou uma comoção enorme em São Paulo. O ideal de lutar por uma Constituição, somado a uma máquina de propaganda impressionante, ajudou a mobilizar milhares de voluntários. Cartazes diziam que “cada paulista válido é um soldado”, panfletos convocavam alistamentos com embarque em até 48 horas e, em alguns casos, quem não se apresentava era tratado como covarde.
Havia ainda uma forte pressão moral das mulheres, mães, esposas, irmãs e namoradas, que incentivavam os homens a se alistarem e ajudavam a manter vivo o entusiasmo pela causa. O resultado foi espantoso: cerca de 200 mil voluntários se ofereceram para lutar, embora nem um terço deles tenha efetivamente chegado ao front por falta de armas e munição.
A importância de Piquete
Alfredo Blois foi para Piquete, aqui mesmo no Vale do Paraíba, onde passou a integrar as trincheiras constitucionalistas. E não foi parar em qualquer lugar. Segundo Diego, Piquete era um dos pontos mais estratégicos de toda a guerra: além de fazer divisa com Minas Gerais, abrigava desde 1909 a Fábrica de Pólvora Sem Fumaça do Exército, responsável pela produção de praticamente toda a pólvora e explosivos utilizados pelos paulistas.
Em outras palavras: sem Piquete, não havia munição. A perda de Piquete, em setembro de 1932, foi considerada decisiva para o fim da resistência paulista.

Perderam a guerra, mas ganharam políticamente
A guerra durou 85 dias e terminou com a derrota militar de São Paulo. Mas a história não acabou ali. Em maio de 1933, o país foi às urnas para eleger a Assembleia Nacional Constituinte e, no ano seguinte, ganhou uma nova Constituição, justamente a principal bandeira levantada pelos combatentes de 1932.
Dela surgiram conquistas importantes, como a criação da Justiça Eleitoral e a participação feminina em eleições nacionais, com a eleição da paulista Carlota Pereira de Queiroz como a primeira mulher constituinte do Brasil. Por isso, muitos historiadores resumem a Revolução Constitucionalista como uma derrota militar, mas uma vitória política.

Foi em Piquete que Alfredo também deixou além de sangue legalista, fotografias. Nelas, aparece ao lado dos companheiros de trincheira, posando para a câmera e vivendo um momento que eles tinham certeza da importância.
Quando vi pela primeira vez essas fotos, a cara de meu tio-avô enquanto segurava armas, só tive uma certeza, se ele fosse jovem hoje em dia, ele com certeza diria que “farmava aura”.
Se existe uma geração que realmente farmou aura, foi a de 1932. Alfredo não apenas foi pra revolução, como voltou pra casa, e pouco mais de dez anos depois, foi lutar em novas trincheiras na europa, e voltou!
Algo que não voltou, com certeza não foi sua forma de ver o mundo. Seu olhar, claramente não era mais o do mesmo jovem. Em ambas as guerras que Alfredo foi, ele viu coisas que ser humano nenhum deveria ver.

Não porque era melhor do que a nossa geração. Nem porque os jovens de hoje sejam menos corajosos. Mas porque as circunstâncias eram outras. Aos 21 anos, Alfredo Blois escolheu trocar a segurança de casa por uma trincheira.
Talvez a única conclusão que reste seja uma de duas: ou os verdadeiros jovens destemidos viveram no Pleistoceno, enfrentando um smilodon e aves-do-terror, ou os mais velhos simplesmente sempre vão reclamar da juventude seguinte.
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