Eu sempre pontuei que o pilar mais importante na sigla ESG (Meio Ambiente, Social e Governança) é definitivamente o “G”. A governança é o que direciona, apoia e dá a confiança necessárias para que os outros pilares, “E” (Meio Ambiente) e “S” (Social), se desenvolvam de forma adequada e sustentável dentro de uma organização.
Ao trazermos o conceito de governança para uma perspectiva maior, isto é, a governança dos nossos recursos hídricos, ela se faz ainda mais importante. Principalmente em um país onde a resposta a estímulos socioambientais tende a ser reativa.
O Brasil é detentor de 12% das reservas de água doce do planeta, representando 53% dos recursos hídricos da América do Sul. Grande parte das fronteiras do país é delineada por corpos d’água, incluindo 83 rios fronteiriços e transfronteiriços, além de diversas bacias hidrográficas, portanto mais que do que nunca a relevância em gerenciar o recurso mais importante desse planeta.
Na última década, o país tem enfrentado uma grave crise hídrica, caracterizada pela falta de água para o abastecimento humano em grandes cidades, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, entre 2013 e 2015, e no Distrito Federal, desde o final de 2016 até os dias atuais.
Essa escassez de água adequada para o abastecimento público acarreta sérios riscos à saúde da população, comprometendo a higiene pessoal, a limpeza dos ambientes e a manutenção de condições sanitárias apropriadas. A falta de água pode resultar no surgimento de doenças transmitidas pela água, como diarréia, cólera e hepatite A.

Dados alarmantes sobre nossos recursos hídricos
A situação é ainda mais preocupante quando se considera a perda significativa da superfície de água no país. Nos últimos 30 anos, o Brasil perdeu 15,7% de sua área hídrica, o que equivale a 3,1 milhões de hectares.
Em 1991, a área hídrica nacional era de quase 20 milhões de hectares, mas em 2020 essa área caiu para 16,6 milhões, uma redução comparável a uma vez e meia o tamanho da região Nordeste. Esses dados alarmantes fazem parte de uma pesquisa abrangente sobre a perda florestal e hídrica, divulgada pelo MapBiomas, em colaboração com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG/OC).
Apesar de 83,7% da população brasileira ter acesso à água tratada, quase 35 milhões de pessoas ainda estão sem acesso a esse serviço básico. A distribuição de água no país é desigual, com a região Norte apresentando a menor taxa de abastecimento, com apenas 57,5% da população atendida.
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No Nordeste, 73,9% da população tem acesso à água tratada, enquanto no Centro-Oeste esse índice é de 89,7%. A região Sudeste possui a maior cobertura, com 91,1% da população atendida, seguida pela região Sul, com 90,5%.
Além da desigualdade no acesso, o Brasil enfrenta o desafio da eficiência na distribuição da água. Em média, 39,2% da água destinada ao consumo humano é perdida nos sistemas de distribuição, o que equivale a 7,5 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas todos os dias. Essa quantidade seria suficiente para abastecer mais de 63 milhões de pessoas em um ano, ou 30% da população brasileira.
Como podemos ver, a raiz desses problemas muitas vezes não está na quantidade ou qualidade da água, mas sim justamente na governança dos recursos hídricos.
Água motivo de guerra
Uma gestão eficaz das bacias hidrográficas pode promover processos mais sustentáveis e garantir acesso à água, trazendo benefícios econômicos e sociais significativos. Por outro lado, a falta de governança resulta em degradação ambiental, conflitos pelo uso da água e diminuição da disponibilidade hídrica, afetando diretamente a população e a economia.
Inclusive, há quem defenda que uma possível guerra mundial não seria por petróleo, como frequentemente retratado em filmes, mas sim pelo acesso a água, devido à sua crescente escassez global.
Um exemplo preocupante são os dados das Nações Unidas, que apontam uma redução de quase 50% das áreas alagadas no mundo nos últimos 100 anos. Como consequência, houve um declínio de 30% na biodiversidade, e um terço dos rios no hemisfério sul é afetado pela poluição.
Impactos de uma boa governança hídrica
Além disso, a governança hídrica traz benefícios sociais significativos, especialmente para comunidades vulneráveis. O acesso equitativo à água melhora a qualidade de vida, reduzindo doenças e promovendo a saúde pública.
Para cada R$ 1 investido no meio ambiente, economiza-se R$4,00 na saúde, o que demonstra claramente a importância de investir e cuidar dos nossos recursos hídricos. A participação social na gestão desses recursos, prevista pela Lei das Águas, garante que as necessidades de todas as comunidades sejam consideradas, promovendo justiça social e inclusão.
Para nós que vivemos em uma cidade com padrão internacional como São José dos Campos, talvez seja fácil subestimar a importância da governança hídrica, especialmente em relação a um recurso que consideramos abundante, como a água, onde o Brasil tem um privilégio natural em comparação ao resto do mundo.
Lojas Americanas: exemplo negativo
No entanto, a falta de uma boa governança pode ter consequências devastadoras, como vimos recentemente com as Lojas Americanas. Uma empresa consolidada e respeitada que, devido a falhas graves na gestão, acabou acumulando bilhões de reais em dívidas. Da mesma forma, a má gestão dos nossos recursos hídricos poderia resultar na perda de bilhões e bilhões de litros de água, comprometendo não apenas a nossa segurança hídrica, mas também a saúde e o bem-estar de milhões de brasileiros.
Governança falha em ambos os casos resulta em um enorme desperdício de recursos, seja financeiro ou ambiental, e nos ensina que mesmo os ativos mais valiosos podem se perder sem uma administração cuidadosa e responsável.
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