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    + Arte na Cidade

    Chover no molhado: modulações do tempo

    17 de junho de 2024Nenhum comentário6 Minutos de Leitura
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    O século XXI começou no dia 01 de janeiro de 2001 e terminará em 31 de dezembro de 2100, nós não estaremos lá, não nascemos com o rabo virado pra lua. O conhecido século da informação se caracteriza pelo avanço exponencial da tecnologia e sua integração no nosso cotidiano.

    Um verdadeiro pandemônio. 

    Por enquanto é visto assim, mas as mudanças em escalas vertiginosas podem afetar nossa percepção daqui 15 minutos, uma hora, um dia…água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Nesse caso, nem precisa bater tanto.

    Vivemos uma atualização permanente diante do medo do obsoleto. 

    Se apressado come cru não vamos pôr a carroça na frente dos bois. Entender um pouco da história evita engolir muitos sapos. 

    Consumo infinito; o barato sai caro 

    A produção industrial criando novos materiais e design nos inundou desde o século passado com objetos potencialmente obsoletos. Essa estratégia do consumo infinito nasceu com espírito de porco e muitas gerações ficaram desbundadas em poder pagar carnês e boletos para se atualizarem com os mais novos produtos do mercado. Descobrimos que o barato sai caro.

    Até 2050 produziremos no planeta 2,1 bilhões de toneladas de lixo.

    Pimenta nos olhos dos outros é refresco, nesse caso não seremos salvos pelo gongo. Já está ardendo muito. 

    Quem não é visto não é lembrado

    O procedimento constante chamado de Atualismo inclui produtos dotados desta capacidade automática de atualização com critérios embutidos, pré-estabelecidos, do que é obsoleto e deve ser esquecido e o que merece ser projetado em relação ao futuro. Todos aplicativos, objetos e nós mesmos estamos sempre atualizando. Afinal, quem não é visto não é lembrado.

    Parece ziquizira, feitiço de causa desconhecida.

    Fiquemos com a pulga atrás da orelha já que águas passadas não movem moinho. Nossa História está sendo desafiada pela disputa de novas memórias, novas narrativas. É aí que a porca torce o rabo.

    Quando terceirizamos aos algoritmos para que atualizem diariamente nossos sistemas para saciar as demandas sociais por distração isso afeta nossa experiência com o tempo. Parece um pouco a casa da mãe joana onde tudo cabe e pode, mas ficamos à mercê dessa distração, presos ali. 

    Atrativos de meia tigela

    Temos interessantíssimos vídeos, palestras, músicas que caem na nossa rede e sabemos que caiu na rede é peixe.

    Temos também atrativos de meia tigela, bugigangas visuais que não dá pra entender bulhufas, chumbregas demais, verdadeiros penduricalhos da paisagem visual em movimento.

    Estupefatos vemos uma infinidade de malefícios, atrocidades, que disputam plateias inocentes iniciantes nesse território onde quem tem um olho é rei. Nossos olhos veem e nossos corações que não sentiam estão sentindo.

    Os cães que ladram mordem sim e esses males não veem para o bem de ninguém. O que vale é o quem pode, pode, quem não pode se sacode.

    A corda continua arrebentando do lado do mais fraco.

    Cerca de mil crianças e adolescentes, na faixa etária entre 10 e 19 anos de idade, cometem suicídio no Brasil a cada ano, de acordo com a série histórica levantada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) entre 2012 e 2021. O dado se baseia em registros do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2023-09/brasil-registra-1000-suicidios-de-criancas-e-adolescentes-por-ano

    Fake News: vamos dar nomes aos bois

    Vamos dar nomes aos bois, são mequetrefes e sacripantas os beneficiários dessa fertilidade das fakes news. A mentira não tem mais perna curta e meias palavras não servem para entendedor algum, nem bom e nem mau.

    A hipótese desenvolvida por Mateus Pereira e Valdei Araujo, pesquisadores brasileiros que tentam dar conta de modulações do tempo presente através do conceito-chave de “atualismo”, é um modo do presente articular o passado e o futuro. https://seer.ufrgs.br/index.php/aedos/article/view/105283/66482

    Seria o futuro uma cópia atualizada do presente ou o presente 2.0 ? 

    O passado não acabou ontem e nem o futuro começa amanhã. 

    O presente é o passado em processo contínuo, fazemos vistas grossas à orquestração do sentir e pensar advindos das atualizações. 

    Arriscamos construir um presente esvaziado de qualquer passado incômodo, fragmentado, com estratégias de comunicação muito bem estruturadas para responder à forma contemporânea de fazer circular a informação. É aí que a cobra está fumando pois estamos cutucando a onça com vara curta.

    Leia mais: Concessão para fantasias no Parque da Cidade (à moda Orson Welles)

    Narrativas: ladrão que rouba ladrão…

    Uma persona se apropria da imagem de algum indivíduo da história e estabelece outra narrativa sobre um fato ocorrido confundindo passado e futuro no presente. O passado se tornou uma mercadoria explorada para gerar uma história distorcida, falsificada. Ladrão que rouba ladrão ainda tem cem anos de perdão, mas as aparências não enganam mais.

    É na cultura digital que emerge o imaginário do atualismo, a partir de ideias alimentadas pela relação automática e imediata com a realidade. Ao dissolver a sincronização histórica dando lugar à dispersão e agitação, cria-se o campo fértil das fake news. Até quando cairemos no conto do vigário ?

    Depois da tempestade vem a bonança, tentemos manter o ritmo mais devagar no presente, cuidando do andor porque o santo é de barro. Evitemos atualizações imediatas para cuidarmos melhor do que nos afeta. A pressa continua inimiga da perfeição. Nem tudo que reluz é ouro e nem flores, precisamos aprender chegar nas outras camadas das informações, tipo virar a casaca nesse jogo tecnológico. 

    É muita areia pro nosso caminhãozinho mas precisaremos tentar dar todos os nós nos pingos d’água. 

    A vaca indo pro brejo, das redes

    A necessidade é a mãe das invenções e estamos muito necessitados de repensar novas práticas das relações sociais com as tecnologias. O pior cego é aquele que não quer ver a vaca indo pro brejo. Cada cabeça, uma sentença.

    Cuidado, a cobra maior sempre engole a menor. As vezes é melhor comer pelas beiradas e devagar. Ninguém impõe o que você vai encontrar nas redes, bobeou, dançou e nos tornamos voyeurs por horas seguidas. Quem nunca comeu melado quando come se lambuza e se entrou na chuva vai se molhar.

    Cada avanço tecnológico bem sucedido afeta nosso padrão de lidar com a realidade, ficamos cada vez mais exigentes, encantados, seduzidos.

    Não vamos cuspir no prato que comemos. Tecnologias são realmente maravilhosas podendo também serem perniciosas. 

    Trabalho seletivo: quem avisa amigo é

    Pra baixo todo santo ajuda, mas se o santo for de casa não faz milagre.

    Cabe a nós o trabalho seletivo árduo para não darmos com os burros n’água. 

    Quem avisa amigo é. Mas se conselho fosse bom ninguém dava, vendia.  

    Os ditados populares nos trazem várias lições e muitos estão relacionados com momentos históricos totalmente diversos do nosso atual. Podemos adaptar fazendo novas analogias, mas é muito interessante entender suas origens, muitas vezes são hábitos, preconceitos, lições de moral, folclore etc.

    Ando com a cabeça nas nuvens, pisando em ovos, a ver navios e tentando evitar cair nos contos dos vigários. Escreveu não leu, o pau comeu. 

    Caipira picando fumoJose Ferraz de Almeida JúniorÓleo sobre tela 1893
    Caipira picando fumo, Óleo sobre tela (Créditos: Jose Ferraz de Almeida Júnior, 1893)

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    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Pitiu Bomfin

    Pitiu Bomfin

    Artista plástica, curadora e educadora. Formada em Desenho Industrial pela FAAP / SP com pós graduação em Artes Plásticas pela ECA/USP e estudos em Arquitetura.
    Realiza trabalhos de curadoria além de cenografias e figurinos para grupos de teatro.
    Sua pesquisa artística envolve a fotografia, a pintura e processos gráficos muitas vezes utilizando referencias icônicas da historia da arte.
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