Pouca. muito pouca coisa me choca.
Meu início de carreira como jornalista foi como repórter de polícia. Isso há muito tempo, no tempo do guaraná com rolha. Vi muita coisa feia, chocante, difícil de entender. A gente, como jornalista, cria uma couraça, um instinto que faz o repórter focar na notícia, na história, mesmo em meio à dor, à morte, ao horror que invade o cotidiano. Rebeliões, assassinatos brutais, crimes sem explicação, histórias que pareciam fazer parte do universo de Nélson Rodrigues ou da imaginação de Oliver Stone povoaram meu início de carreira. Entrei no jornalismo com o sonho de ser repórter de política. Levei alguns anos para chegar lá. Antes, amassei barro na Editoria de Polícia, porta de entrada, à época, de muita gente na profissão Foi bom, cresci, criei a “casca” essencial à profissão. E, pelo que vi, vivi e aprendi lá, pouca, muito pouca coisa me choca.
Digo isso porque fiquei chocado com o crime que ocorreu na Rodoviária Nova de São José dos Campos dias atrás.

No principal terminal de ônibus da Região Metropolitana, um homem foi atacado, arrastado e espancado até a morte no início da madrugada do dia 18 de maio, sem que houvesse a intervenção de qualquer segurança, guarda municipal ou mesmo da Polícia Militar. Ninguém viu? Ora, o crime foi gravado pelas câmeras de segurança do circuito interno de TV da Rodoviária. Ninguém viu? Choca, nesse caso, toda a brutalidade do crime, choca onde ocorreu e choca a falta de reação frente à violência. Foi um morador de rua. O que impede que seja qualquer um de nós?
Nos dias seguintes, o terminal estava com segurança reforçada, carro da GCM e tudo mais. Por que não estava lá antes?
Meses atrás estive na Rodoviária Nova de São José dos Campos no final da noite para esperar minha filha, Marina, que vinha passar algum feriado em casa. Enquanto esperava por ela fui conversar com um taxista amigo e vi, em uma parede externa da Rodoviária, mais de 30, 40 pessoas dormindo, amontadoas, no local. “É assim toda noite”, disse o taxista. “É gente que não tem para onde ir.” Por conta própria, os taxistas até afastaram a fila de carros daquele espaço, transformado em dormitório. Fiquei com a estranha sensação que estava frente a frente com uma “bomba” relógio. O risco de explodir era grande, só não sabia quando. Explodiu na madrugada de 18 de maio.
Problemas
Muita gente diz que o número de moradores de rua e dependentes químicos cresceu na cidade após o “cerco” à Cracolândia em São Paulo. Não tenho números sobre isso. Mas sei que violência urbana, consumo de drogas e população de rua são problemas crescentes e de difícil solução em todas as médias e grandes cidades não apenas da região e do país, mas de boa parte do mundo. Como enfrentá-los? Só com muito trabalho, dedicação, políticas públicas e recursos. Não existe mágica. Aliás, acredito, pelo tudo o que sei, que a Prefeitura de São José dos Campos atue no combate a esses três problemas.
Mas, no início da madrugada do último dia 18, o que quer se seja que exista para conter tudo isso falhou. E falhou de forma lamentável.
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