Um dos principais desafios na discussão sobre práticas de ESG (Meio Ambiente, Social e Governança) é a frequente disparidade entre o discurso e a ação efetiva em relação ao tema. E os dados são alarmantes, especialmente no setor bancário. Enquanto muitas instituições financeiras adotam medidas simbólicas com relação a sustentabilidade, elas continuam a investir bilhões em combustíveis fósseis, ignorando as implicações desses investimentos para a transição energética futura.
No ano mais quente já registrado, os 60 maiores bancos do mundo (nenhum brasileiro diretamente) financiaram um total de US$ 705 bilhões em projetos de óleo, gás natural e carvão, destacou o relatório “Banking on Climate Chaos”. Esse financiamento ocorre mesmo em meio a desastres climáticos severos, pois o aumento da temperatura global está diretamente ligado à onda de calor que afeta a África Ocidental, aos incêndios florestais extremos no Canadá e às intensas chuvas e nevascas que atingiram países como Rússia e Romênia no ano passado. E claro, mais recentemente a tragédia que devasta o Rio Grande do Sul, deixando mais de 400 mil desabrigados.

O estudo também lança um olhar atento sobre a Amazônia, destacando a importância ecológica do bioma. Os autores concluem que os compromissos dos maiores bancos do mundo são insuficientes para proteger a floresta. Entre os 60 bancos analisados, BNP Paribas, HSBC, Société Générale, Intesa Sanpaolo, Barclays e Standard Chartered oferecem algum tipo de financiamento para empresas envolvidas na extração de petróleo e gás na região.
No ano passado, o financiamento total para essa finalidade foi de US$ 632 milhões, uma redução em comparação aos US$ 802 milhões registrados em 2022. O Bank of America (BofA) liderou os investimentos com US$ 162 milhões. As transações analisadas estão vinculadas a 24 empresas com evidências diretas de envolvimento na extração de combustíveis fósseis na Amazônia, abrangendo Brasil, Equador, Peru e Colômbia.
A Amazônia enfrentou um período de seca severa no ano passado, levando os rios aos níveis mais baixos já registrados e impactando meio milhão de pessoas. Cientistas da World Weather Attribution, grupo acadêmico que investiga a influência do aquecimento global em eventos extremos, concluíram que, apesar da presença do El Niño, a mudança climática foi o principal fator por trás deste dramático evento.
Paralelamente, o relatório da RepRisk apontou um aumento de 70% nos casos de greenwashing (“lavagem verde,” é a prática de esconder, mentir ou omitir informações sobre os verdadeiros impactos ambientais das atividades de uma empresa), no setor bancário em 2023, evidenciando uma prática comum de fazer declarações enganosas sobre sustentabilidade. Mais da metade desses casos estava diretamente ligada ao financiamento de empresas de petróleo e gás.
Este aumento nos incidentes de greenwashing reflete uma preocupação crescente dos reguladores, como demonstrado pela multa de US$ 4 milhões aplicada à Goldman Sachs Asset Management pela SEC, por violações das normas ESG em seus fundos há alguns anos.
Assista: ESG na Prática #2 Giulius Magina, especialista em projetos ambientais
Conforme o estudo “Divulgações de ESG no Ibovespa” realizado pela PwC e Ibracon, 43% das empresas listadas no Ibovespa não tiveram seus dados de ESG auditados por uma entidade independente. Entre os temas prioritários de ESG, as Condições de Trabalho e Capacitação foram mencionadas em 91% dos relatórios, enquanto Diversidade e Inclusão apareceram em apenas 55%. Sendo que Gestão de uso da água/energia e Biodiversidade e conservação aparecem com 60% e 36% respectivamente.
Este cenário expõe uma clara incongruência entre os compromissos ESG anunciados e as práticas reais dessas instituições financeiras. Apesar das metas de longo prazo para alcançar a neutralidade de carbono até 2060 e metas intermediárias específicas para o setor de combustíveis fósseis, as políticas dos bancos são frequentemente inadequadas e ineficazes. A análise do relatório “Banking on Climate Chaos” critica especialmente as diretrizes insuficientes para a redução da expansão de óleo e gás, destacando que as estratégias adotadas não refletem um verdadeiro compromisso com a limitação do aquecimento global a 1,5°C.
O endurecimento das regulações e a vigilância aumentada sobre as declarações de ESG são passos necessários para garantir que a transição para práticas mais sustentáveis seja real e eficaz. A integridade das estratégias ESG deve ser uma prioridade para as instituições financeiras, especialmente quando estão diretamente ligadas a impactos ambientais significativos. Estas revelações reforçam a necessidade de uma vigilância rigorosa e contínua para garantir que os compromissos ESG se traduzam em ações concretas e benéficas para o planeta.
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