“Estou convencido que escrever é um tipo de doença. Quem gostaria de passar sua vida sentado em uma sala, colocando palavras no papel?
É uma ocupação estranha. Você tem que ter muito gosto pela solidão”. (Paul Auster)
Paul Auster era um apaixonado por Nova Iorque, descreveu-a sob todos os ângulos, especialmente o bairro do Brooklyn. Com uma voz clara e firme, é o cronista fiel da cidade do acaso, do encontro, da solidão, da perda.
A Invenção da Solidão, é uma narrativa poderosa, crua, que nos leva à introspecção e contemplação. Ao misturar verdade e ficção, Auster transcende as fronteiras do tradicional, criando uma história, que desafia o leitor a enfrentar as complexidades da existência.

Ele veio para a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em 2004, quando ainda era possível nossa aproximação com os escritores convidados.
Conheci Auster, depois de assistir a Smoke (Cortina de Fumaça) – não achei em streaming –. Fiquei maravilhada, tanto, que vi o filme mais duas vezes. Numa cena especial, Harvey Keitel, dono da tabacaria, mostra a William Hurt (cover de Auster), um álbum com milhares de fotografias, todas tiradas na mesma hora, mesmo lugar. O escritor diz: mas são todas iguais! Não, em cada uma, a luz incide de maneira diferente, outras pessoas indo ao trabalho, escola, bar. Cada foto é um todo, um mundo particular e irredutível.
A vida, não é assim? Todo dia a mesma coisa, todo dia diferente. Impossível imaginar ou acreditar numa vida calma e tranquila. São as pequenas coisas, o caminho para casa todos os dias, o acordar à noite, ver o pôr da lua; o sentar-se na varanda, sentir saudade de alguém que você nunca mais vai ver. E são guerras, doenças, mortes, acidentes, temporais, inundações.
No dia 30 de abril, último, Paul Auster morreu, em decorrência de câncer de pulmão. Durante sua estada em Paris, fumou como só os parisienses fumam. Em abril de 2021, sua neta morreu por ingerir cocaína; em dezembro, seu filho (pai da menina) morreu de overdose. Em março de 2023, foi diagnosticado com câncer e passou a usar o vape (que deve ter acelerado a doença).
Sim, eu sei, todos vamos morrer. Mais cedo ou mais tarde, de susto, de faca ou tiro. Podemos cair da escada, nos engasgar com o palito da coxinha. Mesmo assim, converse com seus queridos para que não usem o cigarro eletrônico, não dá nada certo trocar o ruim pelo pior.
A vida calma e tranquila dura o tempo de uma balinha de hortelã!
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Filme: Cortina de Fumaça (Smoke)
Direção: Wayne Wang
Roteiro (e codireção): Paul Auster
Elenco: Harvey Keitel, William Hurt, Forrest Whitaker, Harold Perrinau Jr.

Título: A Invenção da Solidão
Autor: Paul Auster
Editora: Companhia das Letras, 1999
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