Andam dizendo que é melhor aprender a fazer melhores perguntas do que dar respostas óbvias ou clichês sobre qualquer assunto. Perguntar é a base da curiosidade humana e do aprender.
Estamos sempre envolvidos nesse processo de aprendizado e saber ouvir é uma capacidade necessária que pode ser aprimorada. Assuntos mais complexos nem sempre têm perguntas complexas.

A simplicidade é o ultimo grau de sofisticação – Leonardo Da Vinci (1.452-1.519)
Foi a partir de uma mensagem matinal, com uma pergunta eterna na vida dos artistas, que elaborei muito mais perguntas do que respostas. Recebi esta mensagem:
Hoje acordei com uma reflexão:
Por que em nosso país os artistas não são considerados como trabalhadores? É muito triste ter que ouvir :
“Faça outra coisa pra se sustentar $ porque não dá pra viver de música”
E por que não dá?
Mulher, artista, instrumentista, compositora e cantora com uma voz belíssima, imagino que provavelmente alguém lhe disse isso na noite anterior, depois de sua apresentação musical. Talvez tenha ocorrido um debate sobre o valor do seu cachê e do seu grupo?
Parece que ela conseguiu dormir um sono carregado de questões, afetado por esta afirmação triste e agressiva. Apesar de muito comum no percurso de qualquer artista, não há somente uma resposta como sugerido: “arranje um emprego”. Vivemos em um sistema que produz categorias de autônomos como nunca se viu antes. Então, que emprego é esse que foi sugerido à artista?
Não é só criar e vender
Muito antes do termo empreendedorismo assolar todas as atividades humanas, os artistas já viviam de inventar processos para venderem seus trabalhos. Criar, planejar, executar, vender, entregar e sobreviver nesse sistema autônomo precário. Músicos, escritores, atores, artistas plásticos, dançarinos e inúmeras outras categorias vivem nesse sistema.
Veja a definição de empreendedorismo:
“Disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços, negócios, gerenciar com alterações que envolvem inovação e riscos.
É exatamente assim que vive um artista, tudo depende exclusivamente da sua capacidade de realizar todas as etapas da cadeia produtiva criativa sob seu risco e beneficio sempre que possível”.
Os desafios mais comuns são gestão de pessoas, gestão financeira, questões jurídicas, inovação, marketing e vendas. Tudo isso se encaixa facilmente nas exigências de qualquer edital cultural, qualquer produção artística, além, é claro, da criatividade. Essa profissionalização dos artistas e produtores culturais já ocorreu.
O termo empreendedorismo surgiu na segunda metade do século XVIII e no início do século XIX, com os economistas Richard Cantillon e
Jean-Baptiste Say. Sem uma definição padrão, os dois consideraram empreendedores pessoas que correm riscos com investimentos próprios. Mais tarde se agregou o termo inovação.
Compartilho da comparação com as atividades artísticas em termos de origem e metodologias. Quando precisamos nominar processos novos que estão em curso temos a necessidade de encontrar semelhanças com os estabelecidos. Assim, identificamos algumas variações que surgem por necessidades sociais, criativas, econômicas etc.
Os empreendedores
Marco Polo e Tomas Edison não eram denominados empreendedores assim como Shakespeare ou Beethoven. Mas podemos facilmente imaginar que suas descobertas e apresentações teatrais ou musicais eram elaboradas por algum tipo de produção muito bem planejadas.
Eram empreendedores.
O fato é que sempre se considerou o trabalho artístico algo não reconhecido na cadeia produtiva econômica por ignorância sobre seu sistema próprio. Lembrando que nossa tendência a polarizar temas aguenta somente duas posições, se não é uma coisa, com certeza é a outra. A diversidade entre elas fica rejeitada. Assim fazemos com processos que não conhecemos e com humanos também; veja o que vivemos de preconceitos explícitos atualmente. Me parece que carecemos de vocabulário para nominar a diversidade que expande nosso mundo.
E você, o que acha que minha amiga artista deveria fazer?
Ela, de voz belíssima, que a tantos encanta, deve seguir o conselho de procurar outra coisa pra se sustentar? Que coisa seria essa? Um concurso público, um cargo político, ou alguma outra profissão paralela para bancar a que dá pouco dinheiro? Quem sabe professora correndo o mesmo risco de precariedade financeira?
“Em troca do couvert!”
Não por coincidência, artistas e professores não estão na escala da cadeia produtiva econômica valorizados como profissionais necessários que são.
Na frase – te ofereço a oportunidade de tocar sua música e cantar no meu estabelecimento em troca do couvert artístico, uma oportunidade imperdível de divulgar seu trabalho, troque música por qualquer outra atividade artística e teremos um cenário recorrente que não reconhece o valor artístico cultural apesar de querer usufruir e se beneficiar dele.
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