Nós brasileiros temos fobia de dinheiro. Como bons colonizados que fomos (somos), não conseguimos falar sobre dinheiro com a própria família. Um estigma, um tabu. Bem-aventurados os pobres, a eles está destinado o reino do céu.
Numa pesquisa do SPC (Sistema de Proteção ao Crédito), mostra que 35% dos casais não sabem quanto o outro ganha. Não se fala sobre dinheiro, as crianças não têm aula de educação financeira.

Se não conversamos sobre salário, então, você pode imaginar como ficam os ditos “prazeres intelectuais”.
O psicanalista francês, nascido no Cairo, Andre Green, desenvolveu uma teoria sobre o narcisismo moral, uma maneira delicada de dizer que “não tenho dinheiro, mas tenho conhecimento”.
É impressionante observar que o pai de família, no shopping, não se importe em pagar 50 reais por um sanduíche para o filho, mas acha caro um livro de 40 reais.
Se uma família, de quatro pessoas, for ao cinema (com pipoca), o programa não será menos de 150 reais. Se forem os avós e dois netos estudantes, a diversão sai por menos de cem reais, se todos pagarem meia entrada.
Qual é o ponto?
O ponto nevrálgico é que não estamos acostumados a pensar em investimentos. Nossa sociedade pensa em como enriquecer!
Os milhares de mentores influenciadores ensinam como ficar rico em sete aulas. Eles resumem livros, dizem que se você pode pegar um atalho, por que não? E todo mundo repete a ladainha, ouve cantar o galo, mas não sabe onde.
Já sentiu vontade de ver uma peça de teatro e não foi porque achou caro? Já entrou numa livraria e saiu se sentindo mal por não ter comprado o exemplar maravilhoso? Culpa. Culpa e culpa por não dar-se ao luxo, afinal, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso por comerem o fruto do conhecimento.
Mesmo quem não tem dinheiro, que pensa qual a conta que vai ser paga primeiro, se não tiver o hábito de procurar um laser, vai ter uma vida miserável, em todos os sentidos.
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Existem muitos programas gratuitos, de dança, orquestra, teatro, canto, coral, mímica, cerâmica. Ninguém está acostumado a buscá-los.
Durante algum tempo, muito se falou sobre a Lei Rouanet. Ninguém sabe direito como ela funciona, nem procurou saber, mas se algumas grandes (ou pequenas) empresas se dispusessem a recolher o imposto devido para patrocinar eventos culturais, a lei poderia ajudar a sociedade, no todo.
É preciso conscientização da importância da arte e da cultura. É muito mais sobre criar acessos do que ter acesso. Precisamos criar o interesse, despertar a curiosidade, mostrar que uma pessoa culturalmente rica chega muito mais longe (literalmente ou não).
Antes de comprar a próxima pizza, escolha um livro!
Vou deixar algumas boas opções:
- Deus ajude esta criança, Toni Morrison
- O engate, Nadine Gordimer
- Violeta, Isabel Alende
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