Enquanto se defende contra a invasão russa, a Ucrânia trava no tabuleiro diplomático batalhas fundamentais para o futuro do país.
Uma delas aconteceu na última semana, na cúpula da OTAN em Vilnius, quando Zelensky chegou com um objetivo claro: extrair dos membros da aliança um convite, mesmo que informal, para a adesão da Ucrânia à OTAN.
Mas em vez de convite, vimos apenas um pronunciamento reconhecendo que “o futuro da Ucrânia está na OTAN”.

Entre os ucranianos, um pouco de desilusão
Apesar dos pacotes de ajuda militar anunciados no evento, totalizando $1,5 bilhão, o evento deixou um gosto um pouco amargo para muitos ucranianos.
Conversei sobre o assunto com um amigo meu, que se alistou no exército no segundo dia após o começo da invasão de fevereiro de 2022, e que atualmente serve na patente de capitão.
“A OTAN nos dá armas e isso é bom”, ele disse. “Mas entendo que ninguém quer uma guerra com a Rússia”.
A visão dele é ponderada, realista. Mas outros encaram a atitude da aliança com ressentimento. “Somos nós que defendemos a aliança contra a Rússia, mas dependemos de ajuda e por isso temos que calar nossas críticas”, tuitou a jornalista Nika Melkozerova. O ressentimento dela ecoa o de muitos outros aqui.
Ucrânia na OTAN
O sentimento prevalecente na Ucrânia é o de que um futuro seguro só pode existir após a integração na aliança que garante, em seu famoso Artigo n°5, que um ataque a qualquer membro será considerado como um ataque a todos.
Por isso mesmo, em 2018 o parlamento ucraniano passou uma emenda à Constituição declarando a adesão à OTAN como pilar da política externa do país.
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Os ucranianos veem claramente como, dos antigos países da URSS que buscaram um aproximamento com o Ocidente, só foram invadidos os que não conseguiram integrar a aliança a tempo — Geórgia e Ucrânia.
Aliás, tanto é assim que no ano passado até a Finlândia, cuja histórica neutralidade deu nome ao termo “Finlandização”, decidiu aderir à OTAN e assim proteger seus 1,340 km de fronteira com a Rússia.
Flanco leste da OTAN — aliados engajados
Ao buscar um compromisso mais concreto da parte da OTAN, Zelensky conta com o apoio dos líderes de alguns dos países mais recém-chegados à aliança. É o caso de Kaja Kallas, primeira-ministra da Estônia, bem como de Andrzej Duda, presidente da Polônia.
O apoio desses países não é coincidência: todos eles fazem fronteira com regiões russas e têm memórias bem vivas de como é estar no lado leste da Cortina de Ferro.
Sua principal meta é uma vitória total ucraniana. Para eles, a guerra na Ucrânia é também a defesa de seus próprios territórios. Se a Ucrânia cair, eles serão os próximos na linha de fogo.
Cautela geopolítica — o outro lado da aliança
Do outro lado, temos países com um interesse direto em defender a Ucrânia e enfraquecer a Rússia, mas cuja situação geopolítica é mais segura — entre eles o Reino Unido, a França, a Alemanha e, claro, os Estados Unidos.
A grande preocupação destes é prevenir uma escalada do conflito, evitando uma guerra direta entre OTAN e Rússia.
Parece claro que esse receio é o verdadeiro motivo para a relutância em estender um convite de adesão, apesar de ostensivamente declararem que a Ucrânia ainda não está pronta por ter um nível de integração insuficiente.
Apesar dos desencantos…
Os ucranianos se sentem à vontade para exigir apoio militar urgente porque, afinal de contas, são eles que estão sacrificando sangue e vidas na guerra para a qual a OTAN foi criada. E quem vê a retórica agressiva na Rússia, onde é comum negarem e ameaçarem a soberania de países como os Bálticos, sabe que a defesa da Ucrânia é também a defesa dos países da OTAN.
Mas existe também muita gratidão, aqui, pelo fluxo constante de equipamentos bélicos enviados pelos aliados, pelo apoio econômico, pelo treinamento de milhares de soldados ucranianos.
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É normal os ucranianos pressionarem com mais exigências, mas também é normal os aliados da OTAN avançarem com prudência.
No final de contas, o que conta mais do que declarações diplomáticas e convites é que o apoio militar continue, sem esmorecer.
“Através de toda a história, vemos que as nações com aliados prosperam, enquanto as nações sem aliados definham”. A frase é do General James Mattis, uma das grandes mentes militares da nossa época.
Até onde vejo, é essa também a visão dos ucranianos.
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