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    Você está em:Início » Por que os ucranianos não têm medo de um ataque nuclear
    Direto de Kyiv

    Por que os ucranianos não têm medo de um ataque nuclear

    2 de julho de 2023Nenhum comentário7 Minutos de Leitura
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    E se a Rússia usar uma bomba nuclear na Ucrânia?

    Morando perto de Kyiv, é uma pergunta que ouço com frequência. Mas não de quem mora na capital ucraniana, e sim de amigos no Brasil. Paradoxalmente, a questão do uso de bombas nucleares não causa aqui a preocupação que gera no Ocidente.

    Isso apesar das constantes ameaças de destruição nuclear transmitidas nos canais da TV estatal russa. Apesar dos frequentes bombardeios com mísseis super- e hipersônicos, com os quais a Rússia traz destruição a todo o território ucraniano. E apesar de estar a Ucrânia, já faz quase ano e meio, se defendendo de uma invasão total da maior potência nuclear do mundo.

    Mas o que transparece nas conversas com ucranianos é, isso sim, um sentimento de serenidade e confiança. 

    placa de aviso de material radioativo degradada pela radioatividade em área atingida por radiação
    (Foto: Ilja Nedilko/Unsplash)

    Não só isso, mas diversas pesquisas mostram que de 80% a 90% da população ucraniana acredita na vitória final — que inclui a liberação total da Crimeia e do Donbas, a região do leste ucraniano ocupada parcialmente pela Rússia já desde 2014. 

    De onde vem essa relativa impassibilidade dos ucranianos, em meio ao maior conflito europeu desde a Segunda Guerra Mundial, e por que não temem a bomba atômica?

    É difícil explicar exatamente, mas podemos ver alguns aspectos que claramente influenciam o pensamento ucraniano. 

    A mentalidade ucraniana

    O primeiro é, talvez, a própria psique ucraniana. A Ucrânia nunca foi um país próspero, e há séculos esteve sob domínio russo — na era czarista bem como na União Soviética. Momentos como o genocídio do Holodomor e os tempos difíceis durante a Guerra Fria ficaram impressos na consciência da nação. 

    E agora, quando a invasão em grande escala destruiu o sonho que muitos tinham de um futuro pacífico onde o país gravitaria na direção dos padrões de vida europeus, a memória de todas as tribulações históricas parece ter se galvanizado em um sentimento de que o único caminho à frente é o da vitória. Enquanto a Rússia retiver controle, será impossível ter uma vida normal, digna. Tanto fazem, então, as ameaças russas: não existe opção pior do que se render a elas.

    Mas, mesmo saindo do contexto histórico e pensando em cálculos racionais de ganho e perda, não é claro por que a Rússia usaria armas nucleares.

    A liderança russa

    Podemos ver o próprio modo de vida dos donos do poder na Rússia. É algo que os ucranianos conhecem de perto, por terem tido inúmeras figuras parecidas em sua própria história.

    Em mais de duas décadas no poder, Putin e seus associados construíram um “estado-máfia” (nas palavras de Garry Kasparov) onde os figurões desfrutam de uma vida luxuosa e farta em troca de sua lealdade. O palácio de Putin ou a vila italiana do propagandista Solofyov podem ser alguns exemplos mais conhecidos, mas estão longe de serem excepcionais. 

    Seria esse o tipo de gente disposta a provocar um apocalipse atômico e passar o resto da vida se refugiando em um bunker? 

    Aqui, pensa-se que não. Pensa-se que os russos querem intimidar o Ocidente com suas bravatas nucleares, cortando seu apoio pela Ucrânia, mas farão de tudo para arcar com as consequências de um passo extremo destes. 

    Prova disso, talvez, são as inúmeras “linhas vermelhas” onde os russos voltaram atrás com suas ameaças: a transferência de caças e tanques de países da OTAN para a Ucrânia, os ocasionais ataques a território russo, incluindo em Moscou, a reconquista de território “anexado” pela Rússia — nenhuma destas ações precipitou uma “escalada” maior da parte dos russos, apesar das ameaças. Até agora, a Rússia preferiu evitar jogadas irreversíveis como uma mobilização geral da população, o ataque a centros logísticos na Polônia ou o uso dos nukes.

    Resumindo com um ditado popular, a visão é que “cão que ladra não morde.” 

    O aspecto estratégico

    Finalmente, podemos considerar o aspecto que mais gera análises com os entendidos. Supondo que os líderes russos realmente estivessem dispostos a sacrificar suas vidas no bem-bom e usar a bomba, o que exatamente teriam a ganhar?

    Uma bomba só não traria fim à guerra — isso é claro. Há centenas de milhares de soldados ucranianos mobilizados e dispersos em agrupamentos de alguns milhares. Para surtir efeito no campo de batalha, dizem os analistas que seria preciso o uso de vários mísseis nucleares ao longo dos quase 1000 km da linha de frente. 

    Há vários problemas com essa hipótese.

    Em primeiro lugar, temos a consequente precipitação radioativa no território adjacente russo. Milhões de habitantes nas regiões fronteiriças de Rostov, Voronej e Belgorod sofreriam o impacto imediato da radiação, além de países como a Bielorrússia (aliada da russa) e a Polônia, a Romênia e os Países Bálticos, os quais integram a OTAN.

    Em segundo, não parece provável que um ataque maciço deste caráter fosse aprovado pelo estado-maior russo. A decisão do uso nuclear não cabe somente ao presidente/ditador Putin, devendo também passar por vários níveis de aprovação. Mas a doutrina russa especifica que o uso de armas nucleares só pode ocorrer em caso de ameaça à própria existência do país. Como reconhece a maioria dos russos, isto se daria apenas no caso de defesa do território russo, que não é o caso aqui.

    Por último, temos a óbvia repercussão internacional. Já fortemente sancionada, a Rússia seria isolada ainda mais no palco global, onde até a China, sua aliada estratégica, rejeita e adverte contra o uso de armas nucleares. Crucialmente, os Estados Unidos já avisaram de consequências catastróficas no caso de um ataque nuclear — onde mesmo uma resposta não-nuclear da parte da OTAN poderia ser devastadora, incluindo a destruição de toda a frota russa do Mar Negro.

    Então, quais seriam os ganhos para a Rússia? 

    De um lado, o país sofreria o ostracismo político e econômico do mundo, além de possíveis grandes perdas militares. É plausível que veríamos também um enfraquecimento político ainda maior de Putin, cuja situação, como mostrou a recente “Marcha da Justiça” contra Moscou, já é precária.

    Em troca disso tudo, a Rússia teria apenas a destruição do país vizinho e o fim de uma guerra que, se quisesse, Putin poderia acabar nesse exato instante, se declarasse sua retirada do solo ucraniano.

    Estrategicamente, então, a conclusão é que a Rússia tem muito pouco a ganhar e muito a perder.

    Para concluir

    Cálculos racionais servem como indicações de que o que está por vir, mas não são mapas exatos. Afinal, o consenso entre analistas antes de fevereiro de 2022 era de que invadir a Ucrânia seria uma jogada desastrosa para Putin, mas assim mesmo a Rússia invadiu, com a errônea percepção de que os ucranianos prefeririam se render e se adaptar novamente à vida sob controle russo.

    Sendo assim, não é inconcebível que, apesar de considerações como as que vimos acima (e tantas outras), os russos cheguem a uma decisão monstruosa de pôr em prática, pela primeira vez desde Hiroshima e Nagasaki, o potencial destrutivo das armas nucleares.

    Será que os russos vão usar a bomba? 

    A pergunta está errada. Há mais de 70 anos, o mundo vive sob a possibilidade de aniquilação nuclear, mas nem por isso deixa de existir. Uma existência ditada pelo medo constante simplesmente não vale a pena, e, para citar um dos arquitetos da vitória na Segunda Guerra, “Nada temos a temer exceto o próprio medo”. Creio que é essa a visão aqui na Ucrânia.

    Será que os ucranianos vão se render por medo das ameaças russas? Talvez seja esta a pergunta certa. E a resposta é: Não.

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Alberto Becker

    Alberto Becker

    Nascido em São José dos Campos, Alberto mora na Ucrânia desde 2017. É formado em Relações Internacionais pela Universidade de Londres e trabalha como tradutor e content writer. É também Mestre Nacional de Xadrez
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