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    Direto de Kyiv

    Gambito ucraniano: O que pensar da ofensiva ucraniana em Kursk?

    1 de setembro de 2024Nenhum comentário5 Minutos de Leitura
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    Pouco menos de um mês atrás, a Ucrânia fez uma jogada inesperada: invadiu a Rússia.

    A ofensiva na região russa do Kursk pegou todos de surpresa — incluindo a maioria dos ucranianos e seus aliados. Em poucos dias, os ucranianos já haviam capturado mais território do que as forças de Putin ocuparam ao longo do último ano.

    Fotos e vídeos logo foram surgindo nas redes sociais mostrando centenas de recrutas do exército russo se rendendo, enquanto soldados ucranianos patrulhavam ruas russas.

    Visão inusitada: Um Humvee americano (operado por ucranianos) patrulha ruas russas
    Visão inusitada: Um Humvee americano (operado por ucranianos) patrulha ruas russas (Créditos: Reprodução)

    Qual seria o motivo para um avanço ousado destes, onde a Ucrânia passa repentinamente da defesa para o ataque?

    É impossível saber com certeza o plano ucraniano, mas existem algumas vantagens óbvias.

    Moeda de troca

    Um motivo plausível seria fortalecer a posição ucraniana para uma futura negociação com a Rússia. Contudo, os russos ocupam mais de 80,000 km2 de território ucraniano (boa parte do qual já é ocupado desde 2014). Por rápido que tenha sido a ofensiva no Kursk, os ucranianos controlam apenas 1,250 km2 de terreno russo. Melhor do que nada, mas difícil para iniciar uma troca “elas por elas”.

    Tática de distração

    As defesas ucranianas vêm sofrendo muito na região do Donbas. Os russos atacam usando sua superioridade aérea: primeiro, realizam bombardeios de saturação usando bombas como as KAB teleguiadas — 500 kg de explosivos. Depois, enviam onda após onda de recrutas, esgotando a munição dos defensores ucranianos e os forçando a recuar. É um avanço lento, pesado, mas assim mesmo é um avanço.

    Sendo assim, a invasão do Kursk poderia ser simplesmente uma tática defensiva para forçar os russos a remanejar as tropas ativas no Donbas, reduzindo o ritmo da ofensiva ali e dando aos defensores ucranianos um pouco de “respiro”.

    No entanto, se este era o plano, ele não parece estar surtindo efeito. Até agora, os russos se contentaram em lançar recrutas mal-treinados para tentar conter a investida ucraniana; enquanto isso, continuam seus ataques no Donbas, onde nos últimos dias parecem próximos de conquistar a cidade-chave de Pokrovsk.

    Provocação psicológica

    Outra boa razão para o ataque? Guerra psicológica. Ao ocupar território russo, os ucranianos tentam trazer a guerra para a realidade russa. Não é essa uma guerra qualquer que “acontece lá longe” e que “não nos diz respeito”, como frequentemente afirmam os “bons russos” que vivem tranquilos em Moscou e São Petersburgo. É uma guerra extremamente real, com hostilidades já ocorrendo em próprio solo russo.

    Decerto, boa parte da população russa se horrorizou com a perda de território e as derrotas no Kursk. Afinal, a última vez que terras russas foram invadidas foi durante a Segunda Guerra Mundial, e a população geralmente se sente bastante segura. Mas assim mesmo, a guerra ainda está muito longe para causar dor real às elites russas cujos interesses mais influenciam mais as decisões de Putin. 

    Leia mais: Kyiv, 8 de julho

    Ou seja: por mais que o ataque revele a fraqueza das defesas internas russas e prove que Putin não se interessa tanto com a defesa da Rússia quanto afirma, é improvável que ele seja o gatilho para manifestações ou protestos sérios na capital. Mesmo porque, potenciais líderes para uma oposição ao governo, como Prigozhin ou Navalny, já foram eliminadas do cenário político russo (e do mundo dos vivos). 

    Para americano (ou inglês) ver

    É do interesse de Kyiv provar que as Forças Armadas ucranianas conseguem derrotar os russos usando armamentos dados pelo Ocidente. As vantagens aqui são várias:

    • Os ucranianos provam que estão fazendo bom uso do equipamento doado ou vendido pelos aliados.
    • Eles demonstram (mais uma vez) a falácia que cometem os aliados ao se deixar intimidar pelas ameaças nucleares de Putin. Afinal, mesmo sendo invadido o território russo, nada muda na forma como ele conduz a guerra.
    • A ofensiva ajuda a evitar negociações desvantajosas. Ao provar que a Ucrânia ainda consegue obter vitórias, Kyiv dificulta a pressão de certos aliados a concordar com negociações desvantajosas.

    Moral ucraniano

    Outro fator a não ser desprezado é o moral da população ucraniana. Após o fracasso da tão-gabada contra-ofensiva de 2023, os ucranianos tiveram poucas grandes vitórias. Claro, a derrota da frota russa no Mar Negro foi algo impressionante de ver, mas o que a população quer é um avanço concreto — uma liberação do território ocupado.

    Na falta de uma liberação real, a ofensiva no Kursk dá aos ucranianosuma vitória de grande calibre, lembrando ao povo que a Ucrânia também é capaz de ter sucessos nesta guerra.

    Ou seja…

    Não é hora para conclusões apressadas. Por um lado, a ofensiva no Kursk obteve certo sucesso; por outro, os russos continuam fazendo avanços sérios no Donbas. 

    É palpável o entusiasmo ucraniano após os sucessos da ofensiva. Todos com quem converso soam mais animados e um pouco mais otimistas. Após meses de más notícias, os ucranianos ganham novo alento.

    Assim mesmo, há agora milhares de tropas ucranianas em território russo, correndo maiores riscos e longe das fortificações defensivas em terra ucraniana. A jogada é arriscada.

    Por ora, é difícil saber se o gambito ucraniano é, como pensam alguns, um momento histórico que poderia inverter o andar da guerra. Mais provável é que seja mais um cálculo em uma longa partida de xadrez — uma partida posicional, onde a vitória final será determinada pelo acúmulo de pequenas vantagens que acabam por desmoronar a posição inimiga.

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    Alberto Becker

    Alberto Becker

    Nascido em São José dos Campos, Alberto mora na Ucrânia desde 2017. É formado em Relações Internacionais pela Universidade de Londres e trabalha como tradutor e content writer. É também Mestre Nacional de Xadrez
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