Três meses atrás, Yevgeny Viktorovich Prigozhin [Prigôjin], líder do grupo mercenário Wagner, era a figura pública russa mais proeminente na invasão da Ucrânia. Agora, está enterrado perto de São Petersburgo.
Dele, só ficou a memória de uma vida de violência, crime e poder.

Ascensão e queda de Prigozhin
A trajetória de Prigozhin nos diz muito sobre o funcionamento do governo russo.
Sua chegada ao poder foi um caminho tortuoso: delinquente juvenil, dez anos na cadeia, dono de restaurantes e outras empresas, “cozinheiro de Putin”, bilionário. Em 2014, fundou Wagner, o grupo mercenário dedicado a avançar os interesses russos na Ucrânia, Síria e países da África e notório por sua violência, que inclui a publicação de vídeos de torturas e execuções.
Após o fiasco russo na tentativa de tomar a capital ucraniana, em 2022, Wagner virou a ponta de lança da ofensiva russa no Donbas. Pela primeira vez, Prigozhin admitiu ser o líder do grupo. Começou a contratar soldados nas prisões russas e lançou uma campanha de publicidade cada vez mais agressiva.
Em 2023, Prigozhin foi rapidamente se posicionando como uma figura populista — patriota “anti-elite”, favorável aos interesses dos soldados rasos e da população comum. Suas críticas ao Ministério de Defesa russo se tornaram cada vez mais petulantes, e ele parecia intocável. Por fim, veio a famosa “Marcha da Justiça”, onde ele voltou suas tropas na direção de Moscou, numa tentativa de mudar a liderança das Forças Armadas russas e conduzir a guerra na Ucrânia com mais eficácia.
A marcha fracassou, como todos sabem, mas foi um momento sem igual na história recente da Rússia. Alguém havia ousado desafiar o poder de Putin. A partir daí, muitos pensavam que era só questão de tempo até Prigozhin sofrer um “acidente infeliz”.

E realmente, dois meses após o avanço a Moscou, o jato de Prigozhin teve um “acidente” em território russo. Todos os 10 ocupantes a bordo morreram (incluindo comandantes do grupo Wagner como Dmitry Utkin, famoso por suas tatuagens nazistas). Entre eles estava Prigozhin.
Foi uma literal queda do poder.
Apesar de sua utilidade no campo de batalha, o grupo Wagner não podia continuar existindo a partir do momento em que havia desafiado o poder da liderança russa.
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Uma história de máfia
Assim é o mundo da política na Rússia. Hoje você é líder e celebridade; amanhã, Putin está anunciando que não comparecerá ao seu enterro.
Esse é um mundo onde manifestantes antigoverno são encarcerados e espancados sem grande cerimônia.
É um mundo onde jornalistas investigativos são eliminados, desaparecem ou perdem o interesse na investigação após serem presenteados com uma pequena brochura contendo fotos de pessoas assassinadas.
É um mundo onde opositores proeminentes são envenenados ou aprisionados. Ou envenenados e aprisionados. Ou baleados várias vezes nas costas numa ponte escura. É um mundo onde, com incrível frequência, oligarcas e diretores de grandes empresas sofrem quedas fatais ou “cometem suicídio” (às vezes levando, supostamente, a própria família).
Já disse Kasparov: Para entender a política na Rússia moderna, não é preciso estudar História — basta ler Mario Puzo. É uma história de máfia.
Nesse mundo, a lealdade ao chefe é o valor mais importante. Se você se arrisca a desafiar o chefe da quadrilha, é preciso ir até o fim. “O crime imperdoável é bater fraco”, como escreveu Theodore Roosevelt. “Se possível, não bata. Mas, se for bater, bata com força.”
Prigozhin bateu de frente com o governo, mas bateu fraco. Numa vida onde crimes não faltaram, foi esse o crime imperdoável.
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