
Deu no “New York Times”…
Anunciada por aliados como uma oportunidade para apresentar ao mundo a verdade sobre a perseguição política, a entrevista do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao jornal “The New York Times” virou um tiro no pé. Em vez do relato de que teria sido vítima de injustiça e seria, de fato, o vencedor das eleições gerais no Brasil, Flávio teve expostas as contradições de sua história, os “buracos” de suas acusações sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro e as miudezas de sua fuga do país.
Sim, o “NYT” tratou Flávio como fujão. Foi o que bastou para que o trabalho da repórter Ana Ionova, feito em parceria com o fotojornalista Scott McIntyre, fosse saudado no Brasil como devastador, excelente, uma espécie de cereja do bolo do jornalismo político.
Sim, o trabalho de Ionova e McIntyre merece os parabéns, mas, afinal, o que fez o “NYT”?
A resposta é simples: fez jornalismo, simples e bem-feito. Em outras palavras, o arroz com feijão bem feitinho, como manda o “manual” ou, no caso da culinária, o livro de receitas da Dona Benta. A receita? Ouvir quem é notícia, confrontar suas afirmações com a realidade e levar ao público exatamente isso. Bingo! O “NYT” faz isso há mais de 100 anos, razão pela qual se mantém há décadas como um dos jornais de circulação mais longa dos Estados Unidos e um dos jornais de referência não só daquele país, como de todo o mundo.
O acerto do “The New York Times”, no entanto, de fazer do simples bem-feito o acontecimento da semana no jornalismo político, torna evidente um dos problemas mais críticos revelados pela recente campanha eleitoral: a imprensa brasileira “flopou” nestas eleições.
Exagero? Longe disso…
Além de Flávio Bolsonaro e seus sonhos rocambolescos, a imprensa brasileira foi a grande derrotada desta campanha eleitoral. Uma derrota coletiva. Inclui jornais, “jornalões”, portais de notícia do Oiapoque ao Chuí, emissoras de rádio e TV, abertas ou não, podcasts, páginas esporádicas nas redes sociais, comentaristas políticos da esquerda para a direita e vice-versa, o diabo a quatro.
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E, olha, não estou falando nem das relações escusas de diversos veículos com Daniel Vorcaro, o dublê de banqueiro e bandido que editava reportagens para alguns portais e dava palpite na linha editorial de grandes grupos de comunicação. Não. Estou falando da prática jornalística, de identificar claramente o que é notícia (isto é, o que interessa ao público) e de responder, com clareza, às perguntinhas básicas que a gente aprende em qualquer faculdade ou redação: quem, o quê, quando, onde, por quê e como.
A imprensa brasileira abdicou de fazer jornalismo nestas eleições.
É triste, mas é verdade. Seja pelo orçamento curto, pela preguiça, pela empáfia de muitos ou pelos interesses empresariais de cada empresa, não sei ao certo. O resumo da cobertura jornalística das eleições brasileiras, as mais importantes da história recente do país, é triste: a imprensa não respondeu a questões reais básicas para o eleitor, deixou a pauta de cobertura ser sequestrada por interesses difusos e vazamentos seletivos e entregou muito falatório, muito “blá-blá-blá” e pouco conteúdo, de fato, aos milhões e milhões de brasileiros que foram às urnas nos dias 4 e 25 de outubro.
Muito show, pouca relevância. Claro, há exceções. Com certeza. Alguns jornalistas e alguns raros veículos nadaram contra a corrente. Mas, em linhas gerais, é preciso admitir: o balanço é ruim. Vamos aprender com os erros ou, simplesmente, fazer de conta que deu tudo certo?
Se fingirmos que está tudo bem, que a imprensa cumpriu seu papel, que agora é bola para a frente, vamos continuar a nos espantar com o “NYT” e outros veículos estrangeiros, achando que o arroz com feijão bem-feito é estrogonofe. Acabou a época das “vacas sagradas”, quando jornalistas e veículos teimavam em querer atuar como oráculos da sociedade. Com a revolução tecnológica, isso já era. Viva a democracia. Somos todos difusores de informação.
Mas isso não quer dizer que o papel da imprensa (sem trocadilhos) virou fumaça. Identificar, apurar e divulgar informação é cada vez mais essencial. Não bastam likes, bits e cliques. Tem muita gente fazendo muita coisa legal. Vamos seguir os erros ou os (poucos) acertos? Pois é, deu no “New York Times”, já avisava Jorge Ben Jor. Que dureza ver o Brasil ser traduzido para os brasileiros por intermédio do “NYT”. É da vida. Cuidado com o disco voador, tire essa escada daí, essa escada é para ficar aqui fora, eu vou chamar o síndico. Quem? Tim Maia…
Segue o baile…
PS1: A história do “NYT” é contada em um livro magnífico, “O Reino e o Poder”, de Gay Talese, que revela os bastidores do “The New York Times”, explorando o poder, as intrigas e a história do jornal mais influente do mundo. Publicado no Brasil pela Civilização Brasileira, o livro está nas plataformas de compra. Pelo que pesquisei, o preço está salgado, mas vale a pena. “O Reino e o Poder” é leitura obrigatória para jovens e velhos jornalistas ou para quem, simplesmente, gosta de uma história bem contada. Mestre do chamado “novo jornalismo”, Talese sempre soube fazer isso como ninguém.
PS2: Durante anos, o “NYT” trouxe na capa o lema: “Todas as notícias que merecem ser impressas”, adotado pelo jornal em 1896 como declaração editorial contra o sensacionalismo da época. Me soa atual.
PS3: Falando em livros para jovens jornalistas, as escolas deveriam tornar obrigatória a leitura de “A Regra do Jogo”, coletânea de artigos e pensamentos do jornalista Cláudio Abramo, responsável pela modernização dos jornais “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S.Paulo”, décadas atrás. Qual a regra do jogo? São as regras invisíveis, algumas vezes desfavoráveis à maioria, que moldam o poder, a informação e a participação dos cidadãos na mídia e na sociedade. Editado pela Companhia das Letras, vale a pena.
PS4: Chega por hoje…
A repercussão da entrevista do The New York Times é muito bem-vinda, por sinal. Mas o episódio traz à tona uma questão que vai além da apuração jornalística: a ética da imprensa brasileira.
O jornalista tem um papel social de informar e levar conhecimento à população, contribuindo para uma sociedade mais igualitária. Essa função perde espaço diante dos interesses dos grandes conglomerados midiáticos. Jornalistas independentes ajudam a trazer outros pontos de vista e a romper essa hegemonia.
No golpe militar de 1964, houve apoio da Folha de S.Paulo, de O Estado de S. Paulo e de O Globo. É um exemplo histórico de como grandes veículos de comunicação colocam seus posicionamentos políticos acima da democracia.
Cláudio Abramo, em A regra do jogo, escreveu: “Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão.”
Perseu Abramo, em Padrões de manipulação na grande imprensa, identifica a ocultação de informações como uma das formas de manipulação jornalística. Não é apenas o que se publica que importa, mas também aquilo que se deixa de publicar.