
Escrevo-te estas mal traçadas linhas…
No tempo do onça, ou do guaraná sem rolha, toda carta que se preze começava assim, com um preâmbulo vago, um “nariz de cera”, um jeitinho educado e protocolar de abrir caminho para o que viria depois.
A carta de Flávio Bolsonaro poderia ter começado assim…
Divulgada tão logo a chegada de Flávio aos Estados Unidos foi confirmada, a carta, em suas quatro versões, é um desastre político com raros precedentes na história epistolar e política do país. A começar pelo brasão errado colado ao documento, que remete a um Brasil que só resiste como referência na memória dos que defendem a volta da Ditadura Militar.
O brasão da primeira versão da carta, dos Estados Unidos do Brazil, com “zê” de zabumba, foi aposentado com a mudança constitucional de 1967, em plena Ditadura, substituído por República Federativa do Brasil. Nas revisões que a carta sofreu, o brasão arcaico foi substituído e Flávio, de “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, virou “líder do Brasil”, sumindo do texto a afirmação explícita de que ele, e não Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teria vencido o segundo turno das eleições, domingo passado (25/10).
Mas o “tropeço” já estava registrado…
Soube-se depois que o sumiço da expressão “verdadeiro presidente eleito do Brasil” foi obra da intervenção do Departamento de Estados dos EUA no texto. Isso piora ainda mais o caso, além do uso do Chat GPT para elaboração de parte do texto e da citação de personalidades políticas Rui Barbosa, José Martí, Charles De Gaulle, Juan Guaidó, elencadas para colocar Flávio no “panteão” de exilado político, líder da democracia em terras estrangeiras.
Não colou…
Menos de 24 horas depois da divulgação da carta de Flávio, seu autor virou meme (chamado de “Gauidó de Taubaté”) e o comando da direita brasileira mudou a página. Exagero? Basta olhar a reação do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto; do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos); da senadora eleita Michele Bolsonaro (PL); e do senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio; até de Silas Malafaia, imagine.
Se Flávio imaginou ser o líder da direita partir dos EUA, vai perder tempo. Fala agora em se candidatar de novo a presidente antes de 2030. Golpismo? Não, bobagem. A eleição de Lula foi reconhecida por 19 partidos políticos no país e a Terra girou. Tarcísio, Michele, Valdemar e boa parte das lideranças da direita já miram 2030, sem Flávio, apesar do senador pensar em se lançar, já, candidato a presidente nas eleições daqui a quatro anos.
Escrevo-te estas mal traçadas linhas…
Erasmo Carlos, o “Tremendão”, fez dessa frase um sucesso em 1966, com a canção “A Carta”, de Benil Santos e Raul Sampaio, no disco “Você Me Acende”. Regravada por Renato Russo décadas mais tarde, a música termina com um pedido de desculpas. “Escrevo-te estas mal traçadas linhas / Espero que desculpes os meus erros, por favor”, diz a letra. Na carta de Flávio não há pedido de desculpas. Agradecimentos? A Donald Trump e Javier Milei, pela ajuda que garantiu sua “fuga” do Brasil, menos de 48 horas após as eleições de segundo turno. Aos 60 milhões de eleitores que votaram nele para presidente da República, nem menção.
Segue o baile…
PS1: A história epistolar brasileira é rica. Aliás, o Brasil “nasce” oficialmente para o mundo por meio de uma carta, escrita por Pero Vaz de Caminha, escrivão da expedição de Pedro Álvares Cabral, que relata, em 1500, o achamento da nova terra, ao rei de Portugal, d. Manuel 1o.
A gente aprende isso na escola. Outro exemplo é a carta-testamento de Getúlio Vargas, a mensagem de despedida deixada pelo presidente e encontrada no dia de sua morte, em 24 de agosto de 1954. Por ela, Getúlio anunciava: saio da vida para entrar na História. E temos também a “Carta aos Brasileiros”, manifesto histórico lido em 8 de agosto de 1977 por Goffredo da Silva Telles Junior, na Faculdade de Direito da USP, denunciando a ditadura militar e exigindo o restabelecimento do Estado de Direito no Brasil.
O jornalista Sérgio Rodrigues reuniu diversos exemplos do que trato em “Cartas Brasileiras”, lançado em 217 pela Civilização Brasileira. Ah, esqueci: tem ainda a “Carta ao Povo Brasileiro”, texto assinado por Lula em junho de 2002, então candidato à Presidência, assegurando que, em caso de vitória, manteria os rumos da Economia e respeitaria os contratos nacionais e internacionais.
PS2: E não posso esquecer de uma carta especial, cantada por Evandro Mesquita na música “A Dois Passos do Paraíso”. Assinada sob pseudônimo de Mariposa Apaixonada de Guadalupe e lida por um locutor de rádio fictício, ela pede que Arlindo Orlando, um caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade de Miracema do Norte, volte para o seio de sua amada. A música faz sucesso até hoje. “Estou a dois passos do paraíso, não sei porque eu fui dizer bye bye”, canta Evandro à frente da Blitz. Bye, bye Flávio…
O Brazil é o único país do mundo que tem um presidente home office no exterior.