
O São José Esporte Clube é campeão da Copa Paulista 2026. Após bater na trave há três anos, a Águia do Vale lotou o Martins Pereira e levantou a taça após vencer o União São João nos pênaltis, no dia 17 de outubro. A torcida enfim celebra a conquista entalada na garganta.
Leandro Iamin, jornalista paulistano, fundador da Central 3 podcasts, conversou com os repórteres Rodrigo Almeida e Gabriel Duarte sobre o tão aguardado título e sua vida como torcedor da Águia do Vale, uma paixão de infância. Confira abaixo o bate-bola:
Você é paulistano, hoje mora fora de São José dos Campos, mas cresceu acompanhando o time da cidade. Qual sua relação com o São José, na vida e atualmente?
“A minha família é metade São Paulo, metade São José dos Campos. Eu nasci no começo dos anos 80. Pensa bem, as minhas primeiras lembranças de vida tem o São José, cara. A primeira lembrança que eu tenho da minha vida é o meu primo. Ele foi ver São Paulo e São José na final de 89, pegou um papel e fez a ola, para me explicar como é que era a ola num estádio. E o São José estava lá, final do Campeonato Paulista, jogou a primeira divisão do brasileiro ali em 90. Então, na minha cabeça, o São José era do mesmo tamanho. Fazia parte do mesmo mundo ali, né? Do São Paulo, Corinthians, Palmeiras. Estava no álbum de figurinha, igual. Era onde eu passava a vida. Era a cidade que eu conhecia ali. Minha família foi morar lá. Então, era um time que não era diferente dos outros. A minha relação com o São José era igual a que eu tinha com o São Paulo, Corinthians, Palmeiras.
Com o passar do tempo, eu fui percebendo que ele participava de um outro mundo, né? Que ele é um outro mundo em relação a esses clubes, mas aí o afeto já tava posto. E a minha relação com o São José é afetuosa, portanto, desde sempre, mas nos últimos anos ela se tornou um lugar onde eu me encontro mais. Eu acho que, eu como torcedor do Palmeiras, eu vejo o estádio do Palmeiras hoje, é um estádio que parece que não gosta de mim.
Eu gosto mais do Palmeiras do que o Palmeiras gosta de mim. Eu que gosto da rua, eu que gosto de tomar uma cerveja na calçada. Eu que não tenho tanta grana assim, eu que sou a favor de estádios mais populares, eu que gosto de torcida organizada, eu me sinto longe do Palmeiras. Eu sinto que o Palmeiras não faz questão da minha presença. Então, nesse sentido, o São José é um lugar onde eu me sinto bem-vindo, onde eu me sinto bem-quisto.”
O que o estádio Martins Pereira representa em sua vida? Qual a melhor memória que você tem de lá?
“Considerando que o Pacaembu virou o que virou, o Martins Pereira virou a minha casa de conforto, como se fosse a casa da nossa avó. É um estádio onde eu chego e me sinto bem-vindo, é aconchegante sem ser esnobe, é um estádio onde eu me sinto confortável, me sinto bem. E vivi muita coisa ali, desde o meu primo, que é mais velho, jornalista, e me levou quando ele tava começando na carreira. Ele me levou nos vestiários, no túnel de entrada, pisei no gramado. Depois muita Copa São Paulo, que eu vi junto, um verão, comecinho do ano, estádio lotado para ver Cruzeiro, São Paulo, Palmeiras, muito time jogou lá.
O time feminino, que eram ocasiões em que eu ia para o estádio e tinham 10, 20, 30 pessoas, e a gente tava lá, tem o seu sabor também. Mas eu acho que o principal ponto do Martins Pereira é o aconchego, é um estádio onde você sente que você faz a diferença. Quem só torce para um time que tem 30 milhões de torcedores nunca vai entender o que é isso, de você sentir que você faz mais diferença. Tenho um carinho imenso, acho um estádio elegante, bonito, que eu gosto demais.”
Se fosse escrever uma crônica sobre esta campanha do São José na Copa Paulista, qual título daria?
“Talvez o título que eu daria para a crônica desse ano é… Finalmente, seria óbvio, mas assim, eu vou considerar que três anos atrás o vice-campeonato da Copa Paulista veio com muitos erros, cara. Falha do goleiro, falha bizonha do zagueiro, gol no último minuto tomado, foram muitos erros. O título estava na mão, o jogo era em casa, o jogo do título. E dessa vez eu acho que o destaque desse ano é: na hora H, não negou fogo. Na hora H houve a falha e a gente perdeu a Copa Paulista para a Portuguesa Santista, mas desta vez, não. Então eu diria que talvez o título dessa crônica seria ‘A conquista de um time que conseguiu ter mais segurança’.”
Como torcedor, o que você acha que o atual elenco teve de diferente dos outros, inclusive o time que foi vice em 2023, para conquistar o título desta vez?
“Os times da Copa Paulista são sempre um passo atrás em relação aos do Campeonato Paulista, quase sempre, porque é tentativa e erro, você dificilmente tem dinheiro para fazer um contrato de 12 meses, o time perde uma outra peça e os times tem um orçamento um pouco menor.
Esse time do São José eu acho que não é um time pronto pra por exemplo jogar a Série D, ou pra jogar a A1, é um time com limitações, não é um time que encantou os olhos, mas é um time que foi seguro nos principais momentos. E pra você fazer isso, você tem que ter uma dupla de zaga que foi séria e segura, um goleiro que foi confiável, e o resto do time foi muito disposto. É um miolo de meio campo ali. Os volantes são muito trabalhadores. Um time que não tem preguiça, sabe? Um time muito disposto.
Mas é isso, não tem nenhum grande brilho, não. Acho que tem que dar um destaque para esse time, é o quanto esse time foi seguro, disposto, e na hora H teve equilíbrio para decidir os confrontos, que não foram fáceis. O confronto com o Noroeste, por exemplo, não é um confronto fácil. O Noroeste tem um time de orçamento tão grande quanto o do São José.”
O São José viveu fases difíceis nos últimos anos, passando por eliminações na A2 e o fracasso na Série D em 2024. Acha que o título da Copa Paulista deste ano pode ser uma virada de chave para o clube?
“Eu não acho que é necessariamente uma virada de chave. A Série D melhora os contratos que você faz, você melhora o seu time porque você tem um atrativo a mais, tem como ter um time legal e um ano bacana. Mas, como não tem garantia de que você vai estar lá todo ano — a Série D é um campeonato que não tem rebaixamento, tem que se classificar para ele —, então você não consegue fazer um médio prazo, um longo prazo a partir da Série D. Acho que a grande virada de chave vai ser o dia em que o São José pisar de novo na elite estadual, porque dá muito dinheiro. Com essa grana, você consegue montar um time para estar na Série D em condições de brigar todo ano, brigar pela Série C e tudo mais.
Uma vez que você está na elite paulista, você praticamente está garantido na Série D. Então, acho que a grande virada de chave vai ser o dia que o São José for para A1. A Série D, a princípio, não é uma virada de chave. Ela é um ano bom. Ela é um ano divertido. É um momento em que o torcedor sabe que vai ter para acompanhar, viajar para fora do estado. É um prazer, mas acho que não é uma virada de chave definitiva.”
Torcer no futebol geralmente implica em mais momentos de sufoco do que glórias. Quando se tratam dos times pequenos, isso é multiplicado. Você é um grande defensor dos pequenos clubes, diz que eles “são grandes no coração de alguém”. O que é ser um verdadeiro torcedor de um clube pequeno e amá-lo dentro das limitações e pequenos sonhos dele?
“Às vezes eu me pergunto por que essa é uma questão, porque deveria ser óbvio, deveria ser uma coisa que todos pensam igual. Eu não consigo entender muito bem como é que tem gente quepensa diferente disso, que acha que um time pequeno não merece o mesmo… Porque é isso, o que o São José tem em comum com o Real Madrid e com o Flamengo e com qualquer clube é o direito ao orgulho. Eu tenho direito a cobrar um jogador do São José da mesma forma que um torcedor do Flamengo. Eu tenho direito a cobrar de um bandeirinha, eu tenho direito a cobrar vontade em campo, cobrar que esse jogador não jogue no time rival, da mesma forma, não interessa o tamanho do time. O direito ao orgulho é um direito que todo torcedor tem, independentemente do time que ele torce.
E, no mais, cara, eu quero ter um bom salário e uma boa vida. Eu não quero ser o Elon Musk. Eu não quero ser um bilionário. Eu quero ter uma vida boa. Então, trazendo isso para o futebol, a metáfora que eu quero fazer é essa. Eu não quero que o São José vire o Real Madrid, nem que vire o Flamengo. Eu quero que o São José tenha vida. E que o ingresso para o jogo do São José caiba no meu bolso.
Que eu possa pagar pelo ingresso, pelo transporte, por uma cerveja ou um refrigerante antes do jogo. Eu não preciso mais do que isso. Eu não preciso que o Martins Pereira vire o Santiago Bernabéu. Eu não quero que o meu time se transforme numa coisa que eu não gosto. Eu quero que o São José seja exatamente o que me fez gostar do São José, que é essa camisa, esse estádio, essa cidade.
Então, para mim, às vezes parece que eu estou falando uma coisa muito óbvia, sabe? Eu detestaria que o estádio do São José virasse uma arena, por exemplo. Detestaria. O que eu gosto do São José é o São José como ele é. Da mesma forma que eu quero ter um salário bom e uma vida boa, sem precisar virar um milionário por isso, eu quero que o São José esteja bem, com um gramado bom, com um estádio bem pintado, bem cuidado, com os banheiros em dia, com os jogadores com salários em dia. E é isso que a gente vê hoje no São José. Então, eu estou extremamente satisfeito, porque eu vejo o São José saudável. Eu não preciso ver o São José bilionário, eu preciso ver o São José saudável.”
Apesar da torcida declarada pelo São José, você também é palmeirense. Como esses dois times dividem ou disputam espaço no seu coração?
“Sobre a minha torcida declarada pelo São José e pelo Palmeiras, eu acho que é uma característica, provavelmente em boa parte do mundo tem isso, mas é uma característica bem comum no Brasil e na Argentina, em países aqui como os nossos.
Eu morei em Maceió e vi muito isso. Torcer para o CSA e para algum outro time, para o CRB e para algum outro time. Tem gente que não torce para nenhum, torce só para o time da cidade. Tem outros que torcem só pra um time de fora, eu acho isso completamente normal. Mas eu vivi com esses dois clubes dentro do meu imaginário. Estavam dentro da minha vida. Então, eu não vou punir nenhum nem outro pra falar para explicar o que eu sinto pelo time contrário.
Eu não culpo o Palmeiras por gostar do São José, nem culpo o São José por gostar do Palmeiras. São trajetórias diferentes que em algum momento vão voltar a se tocar. Eu com o São José fui feliz vendo o time ganhar Libertadores, o time feminino, quando faltava o time masculino. Como vi o Palmeiras também ir muito bem ou muito mal em campo no time masculino, mas sem ter time feminino.Me diverti com o basquete do São José, que não era exatamente o São José Esporte Clube, mas era o time da cidade, com uniforme parecido, enquanto o Palmeiras não tinha time de basquete. Eu não vejo nenhum tipo de prejuízo a um ou a outro, da mesma forma que torço muito para a Seleção Brasileira, da mesma forma que torço muito para o meu time de Várzea, que não passa na TV, mas eu tô sempre interessado em saber como jogou, quem jogou, qual foi a escalação, que placar que teve.
Acho que essa coisa da fidelidade, de ter um time só, para mim não significa nada. Eu torço para um e para outro, cada um ocupa um tipo de imaginário. O Palmeiras é um transatlântico, um time que é conhecido no planeta inteiro. O São José um time que eu preciso explicar para as pessoas que não é o São José do Rio Grande do Sul, que não é o time que as pessoas estão pensando. E tá tudo bem, eu não vejo uma disputa. Eles se complementam no meu afeto.
Já há alguns anos, eu prefiro o São José do que o Palmeiras, mas não é nada por mim. Como disse na minha primeira resposta, por mim eles ocupam o mesmo lugar, o mesmo coração. A diferença é que eu me sinto bem-vindo nos jogos do São José e me sinto oprimido nos jogos do Palmeiras. Então, se o Palmeiras pudesse dizer o que tem contra mim, seria mais fácil. Eu não tenho nada contra um nem contra o outro (risos).”
Como torcedor, qual a expectativa que alimenta para as competições em 2027? Ela neste momento é mais realista ou idealista? O que deve ser mantido e o que pode mudar ou melhorar no planejamento?
“Expectativa para 2027 é que além do chamariz que é a Série D, o orçamento do clube ganhe uma injeção, que haja um senso de urgência ali para que o time seja competitivo, porque a última vez que jogou a Série D, dois anos atrás, o time não foi competitivo. Faltou. O time foi similar ao que tinha jogado no campeonato estadual e acho que faltou força.
Acho que dá para investir um pouquinho mais porque o clube está saneado, está equilibrado e a Série D, pelo menos pelo que eu vi esse ano, já assisti 15 ou 20 jogos da Série D esse ano, e não me encantei com nada. De repente é possível ser competitivo.”
Clubes de futebol têm um poder de gerar identificação, pertencimento e senso de coletividade. Como você acha que o São José pode aproveitar este momento para ficar mais próximo dos joseenses?
“Faço a observação que as 11 mil pessoas que foram ao estádio neste fim de semana [da final da Copa Paulista], o Guarani não colocou isso em nenhum jogo da Série C. A Ponte Preta não está colocando isso na Série B. O São Bernardo nem sonha em colocar isso na série B. O Botafogo de Ribeirão não coloca metade disso na série B. São José dos Campos é uma cidade muito grande, já não de hoje. Eu bato nessa tecla porque é do meu interesse olhar o tamanho da renda, o tamanho do público médio da torcida do São José. E às vezes na terceira divisão paulista o São José põe mais torcedores do que times na segunda divisão nacional. O Mirassol neste fim de semana jogou pela Série A do brasileiro e pôs menos pessoas do que o São José na Copa Paulista.
Mas eu tô comparando, por comparação justa, com Ribeirão Preto, com Campinas. Essas cidades não põem o número de torcedores de São José, então acho que identificação, pertencimento, senso de coletividade, isso vai acontecer naturalmente conforme a instância, o tipo de competição que o time vai estar jogando, porque público tem. A SAF do São José não é predatória. O Oscar tem uma vida dentro da cidade, então não é um clube que se descaracterizou.
O São José Esporte Clube conseguiu uma vitória uma década atrás muito grande, que é pouco falada. O surgimento do São José dos Campos Futebol Clube, que foi um time que meio que pegou o CNPJ do Joseense, o Tigre, que era o segundo time da cidade, e tentou fazer com que esse São José da cidade fosse escanteado. E o outro São José, um novo São José, sem as dívidas do primeiro, sem os problemas contábeis, fiscais, e com ajuda da Prefeitura para isso, meio que pegasse o espaço do clube e virasse o time da cidade.
E a cidade rejeitou, não quis saber desse clube ‘genérico’. A cidade quis o velho São José, de sempre, e esse outro time rejeitado começou a ter catraca quase zero. Ninguém queria saber desse time. As pessoas iam ver o São José na pior, na última divisão estadual, na quarta divisão, na ‘Bezinha’. Então, identificação e pertencimento tem. O que a gente precisa só é estar jogando os grandes campeonatos. E a gente tem a Série D agora para jogar.”