
O noticiário eleitoral tem afastado o brasileiro de assuntos distantes da sua realidade, afinal neste mês de outubro definimos o que será da nossa política pelos próximos quatro anos. Após o país escolher deputados, senadores, e boa parte dos estados também eleger os governadores no primeiro turno, os eleitores têm seu último compromisso no domingo (25), ao decidir quem entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) será o presidente.
A seis meses de também definirem o seu futuro em eleições presidenciais, os franceses vivem um colapso nas ruas. O próximo sábado (24) promete um segundo round do tsunami de protestos que a população têm convivido há semanas, desde que manifestações de estudantes do ensino médio, em setembro, exigindo reformas na educação, mais professores e melhoria nas condições dentro das salas de aula, escalou para uma insatifação geral com a qualidade dos serviços públicos e o alto custo de viver no país.
No último sábado (17), o movimento estudantil ganhou corpo com professores, sindicalistas e outros grupos revoltados com o governo de Emmanuel Macron, e mais de 500 mil pessoas foram às ruas, em protestos marcados por extrema repressão policial, violência e saques. Agora o confronto entre a sociedade civil e o governo já ofusca as verdadeiras discussões.
“No meu prédio tem uma telinha que passa notícias variadas. Hoje eu percebi que só estão falando de violência, não está sendo falado das reivindicações”, disse Laura Coelho, de 25 anos, pedagoga de São José dos Campos morando em Paris, na segunda-feira (19).
Ela se chocou com a dimensão dos protestos quando a região central de Paris, onde trabalha em uma escola particular, a zona mais turística e normalmente polida, não foi desconsiderada no mapa dos atos. “A cidade inteira é muito política, existem manifestações em todos os lugares, mas nesses pontos turísticos não costuma ter”, explicou.
Perto da Torre Eiffel, onde há policiamento ostensivo, Laura viu uma pichação dizendo que “os policiais são todos assassinos”. Ao longo da semana, também registrou bicicletas e carros incendiados, dezenas de restaurantes depredados e vitrines estilhaçadas.


Ainda que tenha frequentado outros atos desde que chegou na França, há cerca de nove meses, Laura disse ter medo de se envolver nesta onda de protestos atual, avaliando que desta vez as “ordens recebidas pela polícia foram bem diferentes”, em vista dos episódios violentos nos últimos dias. “Mesmo a galera cantando, gritando, não tinha essa repressão.”
Ela participou de atos pró-Palestina e após o almoço no último domingo (18) passou por um comício de brasileiros em apoio ao presidente Lula, evento autorizado pela Prefeitura, mas disperçado por policiais. Segundo Laura, a polícia cercou a população e, sem dar qualquer chance de defesa, lançou bombas de gás. “Isso me assustou. Eu nunca tinha visto tantos policiais chegando assim de uma vez, marchando como o exército”, descreveu.
Com sua câmera dentro dos protestos, a publicitária Paula de Souza, 27 anos, de Joinville (SC), fotografou Paris de cabeça pra baixo. De um lado, policiais fortemente armados, fardamento de choque, equipados com capacetes e escudos. Do outro, manifestantes jovens, alguns menores de idade, munidos de cartazes políticos e com rostos cobertos por panos e máscaras, numa tentativa de evitar o efeito das bombas de gás lacrimogêneo.
Entre os estudantes, têm circulado cartilhas que recomendam também o uso de colírio e desaconselham a aplicação de maquiagem e protetor solar, que podem reter substâncias presentes nos agentes químicos dispersados.
Nos últimos dias, o algoritmo de Paula acertadamente recomendou um “kit protesto” de 16 euos na Amazon, com máscara, protetor ocular e soro fisiológico — usados para aliviar os efeitos dolorosos do gás aos olhos, os soros têm sido confiscados dos manifestantes durante os atos, “uma cruedade”, define a publicitária.

Paula contou que médicos apoiadores da causa se instalaram no tumulto como anjos da guarda. Em uma ocasião, enquanto não conseguia enxergar, com os olhos vermelhos e inchados, eles salvaram sua pele. “Uma mulher me puxou e lavou meu olho, eles cuidaram de mim. Esse lado humano em meio a tanta violência faz a gente perceber que só quem ajuda o povo é o povo.”
Mesmo com medo das agressões, a fotógrafa relata uma luta “inspiradora” dos jovens, assombrados por um mal-estar social e a fragilidade da economia francesa, que segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI) deve crescer apenas 0,4% em 2026, o menor índice entre as nações desenvolvidas.
“É um sentimento de ‘se a gente não lutar, o que vai ser do nosso futuro?’”, destacou Paula sobre o clima nos protestos, onde também se defende o poder de compra dos franceses, qualidade de vida e o acesso a moradia. “Tem gente que vive em 9 m² pagando muito caro, com barata, inseto”, afirmou. “Eles vão quebrar a França inteira, botar fogo em tudo, e só vão parar quando as coisas mudarem”, enfatizou.








Nesta quinta-feira (22), diante da iminência de novas manifestações, o presidente Emmanuel Macron anunciou a proibição de atos considerados “ilegítimos”, atribuídos a grupos de extrema esquerda que, segundo ele, incitariam rebeliões e estariam dispostos a tomar o controle do país. “Tivemos, simultaneamente, atos políticos e até sediciosos, conduzidos por grupos organizados de ultraesquerda que visam derrubar a República”, acusou o presidente, que acumula enorme rejeição na França.
Segundo pesquisa do instituto Ipsos publicada em de setembro pelo jornal La Tribune Dimanche, a popularidade de Macron havia caído sete pontos percentuais em relação a julho, levando o índice de aprovação de seu governo a apenas 17%.
Tamanha descrença no presidente, especialmente entre jovens adultos, impressionou Laura nas primeiras semanas em Paris. “Todo mundo com quem eu conversava odiava o Macron”, disse, ascrescentando: “Sempre tive a impressão, antes de vir, que o Macron era moderado, centro-direita, e você vê que pra juventude aqui isso não é o suficiente.”
Na mesma pesquisa, Sébastien Lecornu, recém-nomeado primeiro-minstro, responsável por decretar toques de recolher para tentar frear os protestos no país, tinha 16% de aprovação. O Ipsos apontou ainda que 44% dos entrevistados diziam não conhecer bem o novo premiê e 40% possuíam opiniões negativas sobre ele.
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