
A cultura esteve em pauta na recente audiência pública para a revisão do Plano Diretor de Turismo de São José dos Campos, realizada em setembro. Entre as potencialidades identificadas no município, além do turismo de negócios e do já estabelecido distrito de São Francisco Xavier, destacou-se o potencial do patrimônio cultural, da produção artística e da gastronomia na cidade.
A visão de futuro idealizada para o plano diretor, acertadamente, coloca São José como um destino de “eventos, cultura, gastronomia e experiências urbanas”, além dos já conhecidos estímulos ao turismo ligado à tecnologia, que é forte característica da cidade. O município tem, realmente, esse potencial. Mas em que ponto estamos nesse projeto de propor a cidade como polo de atração em eventos culturais?
Cidades conhecidas como centros de atração turística, como Gramado, dedicam percentual considerável de seu orçamento municipal para a realização contínua de eventos de grande porte. Mais de 1% do orçamento da cidade é destinado à Secretaria de Cultura. Não bastasse isso, como o turismo é importante fonte de receita para o município, outros 6,18% são investidos na Gramadotur, autarquia municipal voltada ao desenvolvimento da área. A soma desses recursos não é pouca coisa. Além desse montante, a cidade reserva mais de R$ 1,7 milhão de reais para o Festival de Cinema de Gramado, que projeta a cidade nacionalmente. O festival capta, ainda, recursos de outras fontes.
Em nossa região, algumas cidades já mostraram que é possível atrair visitantes de municípios vizinhos para seus eventos culturais. Guararema, que esta coluna inclui no Vale do Paraíba, apesar de a cidade integrar a região metropolitana de SP, realiza seu festival de jazz. São Luiz do Paraitinga é marcada por várias festividades, sendo muito conhecida sua programação de carnaval. Campos de Jordão tem tradicional programação de música de concerto.
Cunha, apesar de também ser destino procurado por sua paisagem natural, como São Francisco Xavier e Santo Antonio do Pinhal, já marcou sua importância para os amantes da arte da cerâmica. O turismo ligado à história colonial, se ainda não atrai tantos turistas quanto poderia, é marcante em cidades como Areias, Bananal e São José do Barreiro.
Como São José dos Campos se insere nesse cenário? Um dos comentários bem-humorados sobre a cidade diz que a ela é boa porque está a uma hora de distância de São Paulo, a uma hora do litoral norte e a uma hora de Campos do Jordão. Será esse nosso principal trunfo turístico?
Do ponto de vista da gestão do turismo, seria importante termos dados concretos sobre visitantes de outras cidades em alguns de nossos principais eventos, como o Bloco Galinha D’Angola e o Festival Mais Gastronomia, realizados no Parque Vicentina Aranha. E é possível imaginar que, por seu porte até o ano de 2024, a antiga FLIM também atraísse público de outras cidades interessado em literatura.
O Parque da Cidade Roberto Burle Marx, se continuar gerido pelo poder público municipal, pode se transformar em um grande centro de atração turística, tendo uso compartilhado para a cultura e a gastronomia, a exemplo de outros parques pelo mundo. Ou como o próprio Parque Vicentina Aranha, que recebeu cerca de R$ 2,7 milhões da prefeitura em 2025 para sua manutenção e realização de eventos diversos, valor pequeno se comparado ao enorme benefício que seu acesso livre e gratuito traz à população.
O investimento em cultura previsto no orçamento municipal de São José, no entanto, é tímido se comparado ao de outras cidades que já se posicionaram em relação ao turismo. O percentual investido por Gramado foge à nossa realidade, mas podemos nos basear em cidades próximas que mantém programação artística regular (dados de 2026). Enquanto São José destina 0,68% de seu orçamento municipal para a Fundação Cultural, São Luiz do Paraitinga destina 1,88% para sua Secretaria de Cultura. Outros 3,0% são investidos por São Luiz em sua Secretaria de Turismo.
Guararema, cujas secretarias de Cultura e de Turismo são integradas, garante 4.4% do orçamento para essas áreas. Atibaia, cidade próxima, reserva 0,79% de seu orçamento para a Cultura, índice apenas um pouco superior ao de São José, mas destina outros 0,94% para sua Secretaria de Turismo. Em São José, a instância responsável por Turismo está ligada à Secretaria de Inovação e Desenvolvimento Econômico, e não foi possível obter dados concretos sobre o investimento específico na área.
O percentual médio de investimento no órgão oficial de cultura vem decaindo ao longo das décadas, na cidade de São José dos Campos. A década de 1990 viu investimento médio de 1,09%. Seguiram-se 1,08% na década de 2000 e 0,92% entre 2010 e 2019. Nos anos de 2020 a 2026, esse índice foi, em média, de 0,76% do total do orçamento municipal. Como já informado, o percentual de São José para a cultura em 2026 é de 0,68%. É pouco para uma cidade que se pretende marcar como liderança regional em turismo cultural.
São José, no entanto, não está distante do investimento feito por algumas capitais, reconhecidas como polos de atração turística, em suas áreas de cultura. Curitiba e João Pessoa destinam, respectivamente, 0,65% e 0,67% para essa área. Entretanto, ambas as cidades destinam outros milhões de reais para o Turismo.
Se comparado a cidades de porte similar ao de São José, tanto em nível de orçamento municipal como em número de habitantes, como Santo André, Sorocaba, Osasco e Ribeirão Preto, apenas o percentual de Santo André (0,62%) se aproxima do de nossa cidade. A grande questão é São José definir com que tipo de cidade e com que tipo de perfil turístico deseja ser comparada.
A cidade de São Paulo, atrativo turístico reconhecido internacionalmente, reúne grande investimento público em cultura, somado a diversas iniciativas privadas: centros culturais, eventos de grande porte, gastronomia e vida noturna. Também é um grande centro de viagens corporativas, do chamado turismo de negócios. Mas o investimento tem retorno. Dados do Observatório do Turismo e Eventos da cidade de São Paulo registraram o faturamento de mais de R$ 25 bilhões em 2025. Eventos recentes em São José dos Campos já puderam demonstrar, também, que geram receita para os organizadores e arrecadação para empresários e para os cofres municipais.
Se a visão de futuro do Plano Diretor de Turismo estiver correta, a cidade pode mesmo se tornar destino de “eventos, cultura, gastronomia e experiências urbanas”, como previsto. Faltam alguns grandes passos, entretanto, para que isso aconteça. A cidade, felizmente, nunca teve receio de dar grandes passos. É preciso pensar à altura do que a cidade merece.
Orçamento FCCR de 1985 a 2026

Orçamento FCCR – média por década

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