
Voltamos a Santo Antônio do Pinhal em um sábado à noite. A chef Anouk Migotto, do Donna Pinha, havia nos convidado para conhecer a 24ª edição do Festival da Alcachofra antes da abertura ao público. Subimos a serra esperando um bom jantar, mas a cidade sempre traz junto alguma lembrança.
Conheço Santo Antônio do Pinhal desde os tempos de estudante. Naquela época, muitas vezes nos hospedávamos ali para gastar menos nas viagens a Campos do Jordão. Às vezes subíamos a pé até o Pico Agudo para apreciar a paisagem e observar os poucos aventureiros que saltavam de asa-delta. O trem ainda subia a serra, e parar na estação para comer um bolinho de bacalhau diante da vista do mirante fazia parte do passeio.
Acompanhamos a transformação da cidade ao longo dos anos. Santo Antônio deixou de ser apenas uma alternativa de hospedagem para quem ia a Campos e passou a atrair visitantes por seus próprios motivos. Hoje, quem sobe a serra encontra trilhas, cachoeiras, restaurantes e uma produção gastronômica que merece ser conhecida. Há os azeites Sabiá, Rossini e Essenza, os cogumelos da Casa da Mata, além de produtores de queijos, mel, café e tantos outros produtos artesanais. O Festival da Alcachofra participa desse movimento. Em sua 24ª edição, já é um motivo para visitar a cidade, hospedar-se por lá e conhecer o que existe ao redor.
Para nós, cada volta a Santo Antônio também desperta lembranças pessoais. Foi numa pequena pousada, com vista para a Pedra do Baú, que assistimos ao Brasil conquistar o tetracampeonato mundial em 1994. Algumas viagens ficam guardadas por uma paisagem, outras por uma refeição ou por aquilo que aconteceu enquanto estávamos lá.
Desta vez, havia ainda a alegria do convite. Em breve completarei dois anos escrevendo minhas colunas. Ser recebido como jornalista para conhecer o festival antes de sua abertura me emocionou. Chegamos com essa expectativa e encontramos a simpatia e o acolhimento de sempre.
O cardápio tornava difícil escolher. Comecei com a alcachofra com cogumelos, um encontro de dois produtos ligados à região. Minha esposa preferiu a flor de alcachofra com gorgonzola, gratinada com parmesão. Ela pediu vinho. Eu escolhi um coquetel de coco sem álcool, já que depois teria de dirigir na descida da serra.
No prato principal, fui atraído pelo nhoque de batata roxa com azeite de sálvia, servido dentro da flor de alcachofra. A cor do nhoque entre as pétalas verdes chamou minha atenção antes mesmo da primeira garfada. Minha esposa escolheu o fettuccine com cogumelos, também servido na flor. Enquanto ela comia a massa, acabamos conversando sobre nossa ligação com a Itália.

Eu já havia reparado que meu pedido era o Prato da Boa Lembrança. Escrevi sobre essa iniciativa em outra ocasião e me tornei um pequeno colecionador de seus pratos de cerâmica. Mesmo assim, não esperava a emoção que senti ao receber o desta edição. Em geral, os desenhos fazem referência à receita escolhida pelo restaurante. Neste, a figura ao centro me lembrou a própria Anouk, acompanhada da homenagem aos 25 anos do Donna Pinha.
Aqueles 25 anos também atravessam a nossa história. Já morávamos em São José dos Campos quando o restaurante começou, e subir a serra era um programa frequente nos fins de semana. Saíamos para almoçar ou “almojantar”, como gostávamos de dizer quando a refeição avançava pela tarde. Santo Antônio do Pinhal estava entre os destinos, e algumas dessas idas terminavam à mesa do Donna Pinha. Enquanto comia o nhoque, fomos recordando visitas passadas e momentos da nossa vida que aconteceram por ali.
Ao fim dos pratos principais, recebemos o guia da Boa Lembrança, que reúne os restaurantes participantes pelo Brasil. Para quem começou a colecionar os pratos, foi um presente especial. Já folheei o livro inteiro e marquei alguns lugares que poderemos conhecer quando viajarmos para congressos.
Pedimos as sobremesas ainda envolvidos por essas conversas. Escolhi o petit gâteau de limão-siciliano com sorvete de creme e calda de flores, um dos meus preferidos. Não me lembro de quando o provei pela primeira vez, mas desde então é sempre a minha escolha no Donna Pinha. Espero que continue no cardápio. Minha esposa pediu a pavlova com coulis de frutas vermelhas, chantilly e calda de flores. Essa calda é outro sabor que associamos ao restaurante.

Anouk precisou seguir para Campos do Jordão, mas reencontramos a chef Susi, que nos recebeu com o carinho de quem já nos conhecia. Foi bom conversar com ela novamente depois do jantar.
Na saída, ainda comprei o livro Donna Mantiqueira, com as receitas da chef Anouk, no Donna Pinha. Sei que vou abri-lo para consultar os preparos, mas também para reencontrar lembranças. Acabamos trazendo para casa o livro, o guia, o prato comemorativo e até o cardápio.

No ano passado, escrevi sobre a alcachofra. Desta vez, ela nos trouxe de volta à serra e apareceu em receitas diferentes ao longo do jantar. O que me acompanha agora são também as conversas que tivemos à mesa e as lembranças que o prato de cerâmica despertou. Para quem já conhece a alcachofra, o festival oferece novas maneiras de saboreá-la. Para quem nunca experimentou, é uma ótima oportunidade de começar. Nós já aguardamos a edição de 2027.
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