
O resultado do primeiro turno presidencial de 2026 surpreende apenas quando observado na curta duração de uma campanha, pois, colocado dentro do processo iniciado com a redemocratização e sobretudo das transformações ocorridas desde a chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo federal em 2003, aquilo que apareceu nas urnas revela menos uma ruptura inesperada do que o amadurecimento de forças presentes na sociedade brasileira há bastante tempo.
Entre elas a permanência do antipetismo como uma das identidades mais resistentes do país, a consolidação do bolsonarismo para além da presença eleitoral de Jair Bolsonaro e a capacidade demonstrada por Flávio Bolsonaro de receber essa herança sem ser simplesmente uma reprodução do pai.
Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva obteve 45,16%, numa diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos, a menor distância entre os dois primeiros colocados numa disputa presidencial brasileira desde a redemocratização, resultado ainda mais significativo quando comparado a 2022, quando Jair Bolsonaro recebeu 43,20%, o que indica que o filho não apenas preservou parcela importante daquele patrimônio eleitoral, mas conseguiu ampliá-lo.
Seria simplificador interpretar esses números como transferência automática do capital acumulado por Jair para o filho, da mesma maneira que seria insuficiente enxergá-los como adesão pessoal de dezenas de milhões de brasileiros a Flávio, uma vez que disputas polarizadas raramente são determinadas somente pelas qualidades individuais dos concorrentes e também se organizam por pertencimentos, recusas, lembranças e ressentimentos sedimentados ao longo dos anos, fazendo com que parte considerável do eleitorado escolha não apenas aquilo que deseja colocar no poder, mas aquilo que considera capaz de impedir a permanência ou o retorno do grupo que rejeita.
É nesse ponto que o antipetismo precisa ser compreendido historicamente, pois sua existência precede Jair Bolsonaro, remonta às resistências despertadas pelo crescimento do PT ainda durante a Nova República e adquiriu outra dimensão depois que Lula chegou ao Planalto, quando a legenda deixou de representar uma possibilidade futura de poder para assumir a responsabilidade concreta pelo governo do país, passando a carregar simultaneamente o patrimônio de programas sociais, crescimento econômico, mobilidade social e inclusão de parcelas historicamente afastadas do consumo e o passivo formado por escândalos, crises econômicas, conflitos institucionais e pelo desgaste produzido por uma presença excepcionalmente longa no centro da vida nacional.
O mensalão, as manifestações de 2013, a recessão do segundo governo Dilma Rousseff, a Operação Lava Jato, o impeachment de 2016, a prisão de Lula, sua posterior libertação e a anulação das condenações foram acontecimentos interpretados de maneiras profundamente distintas pelos diversos grupos sociais, mas, independentemente dessas leituras, contribuíram para transformar a rejeição ao PT em algo maior do que a preferência por qualquer legenda adversária, fenômeno que explica em parte o desaparecimento do PSDB como polo nacional sem que desaparecesse junto com ele o eleitorado que durante décadas votara contra o petismo.
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Jair Bolsonaro compreendeu essa transformação em 2018 ao reunir sob uma mesma candidatura segmentos com poucas afinidades entre si além da rejeição ao PT e ao sistema então existente, incorporando conservadores religiosos, liberais econômicos, setores das classes médias, grupos ligados às forças de segurança e cidadãos desencantados com os partidos tradicionais, formando uma coalizão heterogênea cuja sobrevivência depois de sua derrota em 2022 demonstraria que o bolsonarismo já não poderia ser explicado apenas pela personalidade de seu fundador.
A disputa de 2026 oferece a demonstração mais clara dessa autonomia, uma vez que Jair não estava na cédula presidencial, mas o movimento construído ao seu redor permaneceu mobilizado e encontrou em Flávio um sucessor capaz de conservar seus símbolos fundamentais enquanto modificava parte da maneira pela qual eram apresentados, combinando continuidade ideológica com linguagem eleitoral própria.
Essa diferença é fundamental, pois Flávio herdou do pai reconhecimento imediato, uma base mobilizada, símbolos compartilhados e posição inequívoca dentro da polarização brasileira, mas disputou a Presidência como Flávio, circunstância confirmada pelo fato de ter conquistado 714 municípios que haviam dado maioria a Lula em 2022, sendo 178 deles em Minas Gerais e 134 no Rio Grande do Sul, movimento territorial que ultrapassa a simples conservação do eleitorado bolsonarista tradicional.
Atribuir seu resultado apenas ao pai seria, portanto, uma maneira confortável de não compreender o fenômeno, já que o senador beneficiou-se da herança familiar, mas também de uma corrente que precede politicamente sua família e pode ser mais resistente do que ela, o antipetismo, cuja capacidade de organizar o voto permanece mesmo quando mudam os nomes que dele se beneficiam.
Esse mecanismo permite compreender uma característica frequentemente negligenciada das disputas polarizadas, na qual um concorrente não precisa despertar entusiasmo equivalente ao tamanho de sua votação quando consegue representar a recusa ao adversário, lógica que funciona nos dois sentidos, uma vez que nem todo voto em Lula constitui adesão ao PT, assim como nem todo voto em Flávio significa identificação pessoal com ele, pois ambos recebem escolhas defensivas de cidadãos para os quais impedir a vitória do outro lado pode ser tão importante quanto definir quem ocupará a Presidência.
A peculiaridade de Lula está no fato de carregar uma biografia que praticamente se confunde com a trajetória brasileira posterior à redemocratização, acumulando campanhas desde 1989, derrotas, vitórias, governos, políticas sociais, crescimento econômico, crises, escândalos, prisão, retorno e uma presença tão extensa no centro da vida nacional que dificilmente algum eleitor adulto ainda esteja formando uma primeira impressão a seu respeito.
Esse patrimônio constitui simultaneamente sua maior força e uma de suas principais limitações, uma vez que a lembrança dos anos de expansão econômica, valorização do salário mínimo, crescimento universitário e políticas sociais permanece poderosa entre parcelas expressivas da sociedade, enquanto para outros segmentos o mesmo nome desperta recordações relacionadas à corrupção, às crises e ao desgaste das administrações petistas, fazendo com que Lula dispute não somente contra o adversário colocado diante dele, mas contra todas as interpretações construídas ao redor de sua própria trajetória.
Flávio chegou à mesma disputa numa condição quase inversa, possuindo um dos sobrenomes mais conhecidos do Brasil sem apresentar uma biografia presidencial igualmente familiar, circunstância que lhe proporcionou uma vantagem incomum numa corrida nacional, pois era suficientemente reconhecível para não precisar apresentar-se como desconhecido e suficientemente menos examinado do que Lula e o próprio Jair para não carregar individualmente a mesma quantidade de memória acumulada.
O paradoxo pode ser resumido na constatação de que Flávio Bolsonaro era extremamente conhecido como Bolsonaro e consideravelmente menos conhecido como Flávio, diferença relevante diante de uma campanha governista que dedicou energia excessiva ao combate àquilo que Jair representou e atenção insuficiente ao exame daquilo que o nome efetivamente colocado na urna poderia representar na Presidência.
Examinar sua experiência predominantemente legislativa, perguntar como administraria a máquina federal, confrontar suas posições sobre economia, relações internacionais, segurança, educação, saúde e instituições, esclarecer seu grau de autonomia em relação ao pai e recuperar de maneira documental as controvérsias de sua trajetória não constituiria necessariamente propaganda negativa, mas o exercício elementar de transformar um sobrenome eleitoralmente poderoso num postulante submetido às exigências do cargo que pretende ocupar.
Ao não realizar esse movimento com intensidade suficiente, a estratégia governista permitiu uma assimetria curiosa, na qual Lula compareceu às urnas carregando sobre os ombros o julgamento de praticamente toda a trajetória do PT desde a década de 1980, enquanto o adversário pôde beneficiar-se simultaneamente do legado paterno e de um escrutínio proporcionalmente menor sobre sua individualidade, recebendo parcela importante dos ativos do bolsonarismo sem que o debate público conseguisse separar com clareza aquilo que pertence ao legado de Jair daquilo que constitui o projeto de Flávio.
Seria igualmente insuficiente explicar a votação apenas pelos erros da campanha de Lula, pois os números apontam transformações sociais que ultrapassam qualquer estratégia de comunicação, incluindo dificuldades do petismo em segmentos nos quais anteriormente possuía maior presença e a emergência de um trabalhador brasileiro que já não cabe facilmente na antiga oposição entre capital e trabalho, transitando entre emprego formal, atividade autônoma, aplicativos, pequenos negócios, endividamento e aspirações de consumo e independência.
Esse constitui um problema histórico mais profundo para o PT do que qualquer erro de propaganda, uma vez que o partido que aprendeu a falar com o trabalhador industrial do final do século XX e depois construiu enorme identificação com as camadas populares do início do século XXI precisa compreender um cidadão que continua desejando proteção social, mas nem sempre se reconhece nas categorias econômicas pelas quais a esquerda tradicional aprendeu a descrevê-lo, enquanto a direita encontrou no antipetismo uma linguagem suficientemente ampla para reunir interesses muitas vezes contraditórios.
A força do negativo surge, assim, como uma das principais conclusões do primeiro turno, pois é frequentemente mais fácil manter unida uma coalizão heterogênea quando seus integrantes concordam sobre aquilo que rejeitam do que quando precisam chegar a um consenso sobre aquilo que pretendem construir, razão pela qual o antipetismo consegue reunir cidadãos com visões distintas sobre economia, costumes e instituições, da mesma forma que o antibolsonarismo produz mecanismo semelhante entre seus opositores.
A diferença inferior a dois pontos percentuais precisa ser interpretada com cautela, pois nenhum segundo colocado no primeiro turno conseguiu reverter uma eleição presidencial brasileira desde a redemocratização, ao mesmo tempo em que nunca a distância entre os dois primeiros foi tão pequena, circunstância que oferece um precedente desfavorável à reversão e, simultaneamente, uma situação sem paralelo exato.
O segundo turno tampouco será uma simples redistribuição matemática dos votos destinados aos nomes eliminados, uma vez que eleitores não pertencem aos candidatos em quem votaram e abstencionistas não constituem um reservatório automaticamente disponível, podendo ocorrer mudanças de escolha, novos comparecimentos e novas ausências conforme a disputa deixe de oferecer várias alternativas e passe a colocar frente a frente somente dois nomes.
Nesse cenário, interessa a Flávio conservar a disputa como julgamento de Lula, do PT e de seus anos de exercício do poder, enquanto a estratégia governista tende a buscar o deslocamento de parte desse julgamento para o candidato que está diante do eleitor, não pela demonização do oponente, que provavelmente reforçaria identidades já cristalizadas, mas pela exigência de que ele deixe a condição relativamente confortável de símbolo de uma corrente e assuma integralmente a posição de postulante ao Planalto com biografia, propostas, contradições e responsabilidades próprias.
O pleito de 2026 poderá, assim, oferecer uma resposta importante para a compreensão do Brasil posterior a Jair Bolsonaro, pois, se o bolsonarismo demonstrou capacidade de transferir sua força eleitoral para outro integrante da família e simultaneamente alcançar cidadãos que não estavam com esse grupo em 2022, já não estamos diante apenas de um fenômeno organizado ao redor do carisma de um indivíduo, mas de uma tradição em processo de institucionalização, assim como o lulismo deixou de ser explicado exclusivamente pela trajetória pessoal de Lula e tornou-se referência duradoura de identificação para milhões de brasileiros.
O primeiro turno mostrou, nesse sentido, um país ainda organizado por duas grandes memórias, uma construída em torno da experiência petista de governo e outra formada pela reação a ela e posteriormente reorganizada pelo bolsonarismo, revelando também que ambas chegaram a um ponto de inflexão, pois o lulismo precisa descobrir se consegue renovar sua linguagem e sua representação social para além da presença de seu fundador, enquanto o movimento surgido em torno de Jair Bolsonaro começa a enfrentar uma questão igualmente decisiva, a de saber se pode transferir liderança sem perder identidade e transformar uma experiência originalmente vinculada a um homem e à sua família numa corrente duradoura da direita brasileira.
É nessa passagem que o resultado de 2026 adquire sua verdadeira dimensão histórica, pois compreender a votação de Flávio Bolsonaro exigirá separar aquilo que veio do patrimônio construído pelo pai, aquilo que nasceu de sua própria capacidade de ocupar esse espaço e aquilo que pertence a uma força muito anterior aos dois, sedimentada durante décadas de confronto com o PT, enquanto compreender a votação de Lula exigirá reconhecer que sua extraordinária permanência no centro da vida nacional produz ao mesmo tempo fidelidade e rejeição, memória e desgaste, tornando os dois finalistas beneficiários e prisioneiros de histórias que começaram antes desta campanha.
Por isso, quando os números definitivos forem conhecidos, a pergunta mais importante para quem observa este período com os olhos da história não será apenas quem venceu a Presidência, mas o que exatamente venceu com ele, pois eleições decidem governos em uma noite, enquanto as forças que conduzem milhões de pessoas até uma urna são construídas lentamente, atravessam gerações, sobrevivem aos seus criadores e, muitas vezes, somente revelam sua verdadeira natureza quando já aprenderam a caminhar sem eles.
Fabrício Correia é escritor, historiador e analista político. Integra a União Brasileira de Escritores e a Associação Nacional de Editores de Revistas – ANER.